segunda-feira, 26 de novembro de 2007

LITERATURA

(Raul Brandão, Aquilino, Leal da Câmara.....)


ATRÁS DO MURO

Texto de Raul Brandão.

10 de Janeiro

O TABIQUE caiu e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem acção. Passa-se no silêncio, despercebido, entre mi e mim. É um desejo perpétuo.

Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este e não há outro minuto, que força me pode deter para que eu não realize o meu destino contra ti e contra todos?

Há um ser que ocupa o meu ser e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há aí capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?Arreda-a. Também eu. Mas saio disto aos gritos.

Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Pior: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.

Sentiste-o avançar, pouco e pouco, no silêncio? Sentiste o teu pensamento disforme avançar mais um passo no silêncio? É porventura possível que o que se passa no mais recôndito do seu ser, alguém o pressinta e o ouça avançar no silêncio?

Há em mim várias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportável. Mas agora não; agora põem-se a falar ao mesmo tempo.

Talvez eu seja um ser complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu. Tudo me faz sofrer - mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho é certas dúvidas - mas metade das minhas dúvidas são postiças. Hei-de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.

Perpetuo um combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo - a cova. Eu e o outro - eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir e de que saímos ambos esfarrapados, à espera que recomece - agora, logo, daqui a bocado, porque só essa luta me interessa até ao âmago... Estou pronto! Eterna contradição de todo o teu ser.

Não sabes o que queres nem como queres. Não sabes no que crês. É um impulso. Vais até à cova levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar de inverno num dia de verão. Está tudo decidido - dizes - está tudo pronto.

Só uma coisa me falta: Pôr isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido. Desde que este fantasma se pôs a caminho nunca mais consegui detê-lo. Começa por uma ideia que afugento. Começa por um pensamento ténue, por uma simples palavra que afasto.
Insiste.

Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dor do que eu. Assisto `a sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os destroços do meu ser como um dominador. Mas eu não o criei! NÃO FUI EU QUE O CRIEI...

Texto retirado de “HÚMUS”
Recolha de

João Brito Sousa

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