quarta-feira, 7 de novembro de 2007

LITERATURA


A VIDA DE ONTEM E DE HOJE
Por Raul Brandão, em “O PADRE”


A época é de tragédia.


O que domina é oiro. Só existe um deus- O Gozo. Inteiro descalabro nas consciências. Eu que quero? Tu que queres?Gozar. Visto que depois da morte só o nada existe e a terra tudotraga - um buraco e alguns punhados de desprezível cisco - o mundodivide-se logicamente em dois largos campos; nos que, cépticos, sempreconceitos, frios como lâminas, secos como pedras, conquistam,mandam e dominam, com o código por consciência e a que tudo na terraé permitido - calar, mentir, triunfar enfim - contanto que se fiquedentro dos limites duma coisa honrosa a que por convenção se chama ahonra, isto é fora da cadeia; e nos pobres, explorados e simplesignorantes, crendo numa vida eterna, que lhes pague a dor de virem aomundo só para chorar, fartos de misérias e gritos, fartos de fome edesilusão, caminhando como um rebanho, gasto e suado, por este vale delágrimas e de quem os outros se riem às escancaras.Ainda um dia destes, no parlamento, um ex ministro, o sr. Arroyodividia os homens nos que nascem para mandar e nos que nascem paraobedecer - em cavaleiros e cavalos.

Eis o quadro a traços largos.

A matéria bruta impera. Predomina a força entre as nações e entre oshomens. A própria guerra encobre isto - a agiotagem. O sangue ensopa aterra. Por heroísmo? Não, para deitar pazadas de oiro aos bancosesfaimados. A luta pela vida é tão feroz que o homem não tem tempopara pensar em Deus. Sob o seu fardo, `a conquista dum punhado deoiro, desesperado e tenaz, não ergue a cabeça para o céu nem estendea mão para o homem. È só.

Deus, presente a todos os que o amam, afasta-se deste ser egoísta,caduco, envilecido, coração de pedra e cérebro afiado como o gume deuma espada.De forma que o homem vive sozinho. O que o obriga a ser justo egrande? A educação? O exemplo? A educação ensina-lhe a guerra; pedaçosde ciência fazem-no balofo e seco; e o exemplo mostra-lhe o triunfodos habilidosos dos que se curvam e transigem, sabendo ameaçar ourecuar conforme ocasião. A pobreza parece-lhe a desonra, porque vê sempre o pobre desprezado e calcado; o amor uma irrisão e procura um casamento rico; o sacrifíciouma tolice. Só teme a valer a cadeia e a pobreza.


Depois a luta pela vida é aspérrima.

João Brito Sousa

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