quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O BAILE DO CAVACO


FIGURAS NEXENSES
por JOÃO BRITO SOUSA

O BAILE DO CAVACO.

Era aos domingos. O baile do Cavaco em Santa Bárbara de Nexe tinha fama nas redondezas . Era à saída da aldeia quando se vai para os Gorjões. Quem estava lá sempre caído era o Pató, jogador de futebol do clube desde tempos idos, um camisa oito de bom nível. O baile era a diversão maior local naquele tempo. Era, digamos assim, um armazém bem decorado e limpo, tinha um palco para o tocador e espaço para dançar. Creio que as mães que acompanhavam as filhas ao baile, levavam igualmente as cadeiras para se sentar. Os rapazes tinham de pagar bilhete para entrar, cinco escudos cada um, o Senhor Cavaco estava de serviço à portaria e controlava as entradas. Tinha um carimbo e carimbava as mão do pessoal para quando um qualquer precisasse de vir cá fora mostrava a carimbadela e tinha livre trânsito.

Quando o baile começava, entravam os que tinham dinheiro para comprar as entradas e os que não tinham ficavam à porta mas com vontade de entrar e eram muitos. As raparigas eram jeitosas e o baile era um divertimento simpático. As minhas primas iam lá e eram vedetas. Às tantas, a malta que estava fora pressionava a entrada à força, mas o problema era que o senhor Cavaco tinha na mão um chicote e dava neles quando algum cria entrar à má fila. O António Lopes, que era rico e acompanhava sempre com os pobres, que tinha umas mãos enormes, de vez em quando empurrava lá para dentro uns quantos, o Cavaco dava umas ripadas com o chicote e, se o António Lopes ia na onda, não havia chicote, pois o Lopes era homem de respeito.

O meu tio José Felício Apolo, que era acordeonista, tinha lá garantido um domingo de trabalho por mês e, quando era o domingo do Felício o baile enchia. Dizem que o meu tio tocava bem, ele que era analfabeto como quase toda a gente naquele tempo, tocava de ouvido e lá saíam as modas que a malta gostava, as valsa e os tangos argentinos do Carlos Gardel, “la cumparsita”, o mais famoso.

Acabado o baile das raparigas, digamos assim, já no outro dia, à uma ou duas da manhã, começava o “baile do teso”, que era um divertimento que enchia de gozo os participantes, normalmente alguns malteses, outros com a mania das forças (a malta do campo sempre gostou dessa coisa de puxar para o cabedal) e outros que por lá pareciam, como o meu tio António Sousa que foi tido como grande campeão, o meu tio Manuel Domingos, o tal António Lopes e o maior de todos, o Pai da Malta.

O baile consistia em os participantes entrelaçarem os braços uns nos outros e tentarem deitar os outros ao chão através do jogo de pernas com rasteiras, mais ou menos como aquelas que se fazem hoje no Kitch Box. O campeão era o que chegava ao fim em pé. E havia malta brava. O pai da Malta, de quem quero aqui contar uma história um dia destes, era grande nesta disciplina. E nunca se ia abaixo.

Era mais ou menos assim o baile do CAVACO.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O PROF. LEITÃO; UM GRANDE HOMEM

(O FLORIVAL, O BENTO E O MANUEL BOTELHO QUE ESTÃO AÍ FORAM SEUS ALUNOS.. PARECE-ME)

FIGURAS NEXENSES
por joão brito sousa

O PROFESSOR. LEITÃO E OUTOS

O Professor Leitão era o professor primário de SANTA BÁRBARA DE NEXE, aí por volta dos anos cinquenta. Naquele tempo, um professor tinha aulas o dia inteiro e tinha as quatro classes e um bocado de trabalho com aquilo, porque tinha que leccionar leitura e divisão de orações, aritmética (com aquele problema das torneiras, muito complicado, que perguntava assim: Em quantas horas encheu o tanque?)

A coisa não era fácil pois na quarta classe desse tempo não se ensinava a regra de três simples, era tudo raciocínio lógico. Ensinava-se também História, com os reis todos e mais as dinastias e sobretudo a revolta de 1820 entre os Miguelistas e os Liberais, que era uma matéria difícil para uma criança de dez anos perceber. Havia ainda as Ciências Naturais, onde se estudava o corpo humano, com os ventrículos e as aurículas e, ainda, os batráquios, mais não sei quê, mais não sei quanto.

A sala, que ficava ao pé da Torre da Igreja, era um armazém asseado. O professor morava ali também e a sala estava cheia de rapaziada (rapazes e raparigas) e havia um cântaro de água, com um copo para os alunos beberem. Um dia o Elias, que era um “Choninhas” e que se queixava muito dos outros ao professor, foi beber água ao cântaro. Escorregou, caiu, levou o cântaro atrás e o cântaro lá se foi... Ao ouvir tal sarrabulho, o Leitão veio e... perante tal situação, virou a cara para o lado, respirou fundo e disse: “Elias, dá cá a mão! Agora são vinte, menino Elias, ouviu?”

Nesse tempo, o grande auxiliar, do professor primário em geral e do professor Leitão em particular, era a régua que fazia milagres, como dizia o Mestre-Escola dos “Meus Amores”, do Trindade Coelho. E nisso o Professor Leitão era Mestre. Era cada dose de reguadas que a malta gritava. De tal maneira e força que quase se ouvia na venda do Amadeu. Apesar de tudo, é importante dizer que havia cooperação entre a Escola e a Família, resultando a (boa) educação do aluno do esforço das duas partes.

O melhor cliente que o professor Leitão tinha, que era simultaneamente a melhor cooperação Escola/ Família, era o António de Sousa Bárbara, o filho da Ti Ermelinda e do Ti Manuel de Sousa Farias, que mais tarde foi coveiro aí no cemitério local O António era um rapaz destemido, não tinha medo de nada, tanto dormia em casa como na rua ou dentro do forno e a mãe, a D. Ermelinda, não dava conta dele. Então, levava-o à Escola e recomendava ao Professor que lhe desse uma tareia das fortes. Só que o Professor Leitão nunca teve muita sorte com isso, porque o António fugia da Escola, fugia da Guarda Nacional Republicana, fugia de todo o lado. Uma vez quiseram metê-lo na cadeia e os Guardas não conseguiram, porque ele punha os pés à parede e daqui ninguém me tira.

O melhor aluno desse tempo era um dos filhos do Pai da Malta, o hoje Eng.º José Pinto Faria, grande aluno quer na primária, quer na Escola Comercial e Industrial, quer no IST, onde se licenciou em Engenharia. Quando eu cheguei à Escola Comercial em Faro, em 52, estava ele de saída, mas era um rapaz muito popular lá na Escola, jogava muito bem à bola, a defesa central, e nos jogos com o Liceu brilhava porque fisicamente era muito poderoso. De tal modo era assim, que chegou a campeão nacional de judo. E ainda está por aí...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

sábado, 16 de agosto de 2008

BOM FIM DE SEMANA


PORTO, 2008. 08.16

BOM FIM DE SEMANA

Para os meus filhos em ALMADA XAXÁ E PEDRO Para a minha nora e para as minhas netas MARIANA e SOFIA

Para os meus irmãos em NEWARK, USA

Aló Solange, katy and Jack David, Daniela, Michele e respectivos....

Aló PAUL SPATZ e filhas

Aló primos e primas na Austrália e Perpingham em França em NEWARK, aló Tony and Quitéria Ilheu aló SIlvina no Canadá

Para a Celina e para o Aníbal, para o Zé ALEIXO Salvador esposa, Honorato Viegas e esposa, Peixinho e esposa em ALMADA,

Para toda a malta do 1º 4ª de 52 em especial para o Coelho Proença, Zé Maganão e Ludgero Gema,

Para o Gregório LONGO no Lar da Guia (até à primeira)

Para o aluno da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL de FARO que elegi como o melhor de todos os tempos, o Contra Almirante ANTÓNIO MARIA PINTO DE BRITO AFONSO.

Para o Eng º ANSELMO DO CARMO FIRMINO e esposa, outro aluno brilhante e dos melhores de sempre da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL com quem tive dúvidas na atribuição do melhor aluno de sempre, tendo sido prejudicado por ser de uma ou duas gerações depois da minha.

Para o Dr. José Martins Bom, outro brilhante aluno da Escola COMERCIAL E INDUSTRIAL e para o igualmente brilhante e talentoso ARNALDO SILVA..

Para o Dr. Eduardo Graça e o seu ABSORTO

Para o grande poeta ROBERTO AFONSO

Para o Engº SOUSA DUARTE, esposa e filho

Para o amigo Carlos BARRIGA E ESPOSA e Filha nas FERREIRAS.

Para o Luís José Isidoro em ESTOI, amigo inesquecível

Para o Engº Neto e esposa em ESTOI ainda.

Para o Engº Manuel Carvalho e esposa

Para os meus compadres, Dr. Manuel Rodrigues e Drª Fátima Rodrigues e filha, a Drª Ana Luísa Rodrigues.

Para o enorme MÁRIO MONTEIRO que agora mora em CAMPO

e para o Guilherme, Marta esposo e filho,

Para a viúva do CARLINHOS LOURO, filhos e irmãos e respectivos.

aló Custódio Clemente e Zé Mendes na AUSTRÁLIA,

Zé Lúcio, Florentino, Rosendo e Joaquim Carrega...

Victor e Célia Custódio e Leonilde Filhos e filhas.

Aló Montenegro SÃO E FILHAS ,

Tia Amélia.

Tias Alzira e Ti Manel

Eusébio e Júlia Lucília e Armando e Filhos

Silvina e Luís Alcantarilha e filhos

Mercedes e Alviro, BICAMA e BIZÉ E RESPECTIVOS

Maria do Carmo e Zé Maria e filhos (meu afilhado João Manuel) e noras netos

FLORIVAL EM França, esposa e filhas Para o CUSTOIDINHO, o filho do APOLINARIO, que diz que é teu amigo e com quem tive uma pega no restaurante o Jorge, no PATACAO.

Para: VIEGUINHAS de Pechão e respectiva equipa do almoço de sábado, o ZÉ GRAÇA, o BOTA de ESTOI e o ENGENHEIRO

Para a malta do 1º ano 1ª Turma de 52/53

Chefe de turma: CÉLIO MARTINS SEQUEIRAALUNOSJosé Bartílio da PalmaLuís Rebelo GuimarãesHerlander dos Santos EstrelaReinaldo Neto RodriguesAntónio Inácio Gago ViegasHumberto José Viegas GomesManuel Cavaco Guerreiro.Joaquim André Ferreira da CruzJoão BaptistaJosé Mateus Ferrinho PedroJosé Vitorino Pedro RodriguesIvoFrancisco Gabriel Carvalho CabritasJoão António Sares ReisFernando Manuel MoreiraAntónio Manuel Ramos JoséFrancisco Paulo Afonso ViegasManuel GeraldesJoão Manuel de Brito de SousaJorge Manuel AmadoJoão Vitorino Mendes BicaCarlos Alberto Arrais CustódioJosé Júlio Neto ViegasManuelJoão dos SantosJosé Pedro SoaresJosé Marcelino Afonso Viegas


Para o meu afilhado em Washington CARLOS ALBERTO DIOGO esposa e filhos

Para o DIOGO TARRETA e esposa e filho, o grande Engº JOÃO PAULO SOUSA

Para o REINALDO TARRETA, esposa e filho, o Engº Rui Tarreta e para a SOLEDADE e respectivo...

Aló ESTORIL Mário Fitas, Aló Porto Carlinhos Pereira, Adelino Oliveira em AZEITÃO. Romualdo Cavaco, Jorge Valente dos Santos e Zé Pinto Faria em Portimão. ADOLFO PINTO CONTREIRAS NOS GORJÕES E SOARES em TAVIRA. Feliciano Soares e Xico LEAL em Olhão e Zé Júlio na ilha da Culatra. Para a malta da Escola Comercial e Industrial de FARO, grandes amigos e colegas,

ROGÉRIO COELHO, LUÍS CUNHA, JORGE CACHAÇO E FRANKLIM MARQUES.

Para o JORGE CUSTÓDIO, o JORINHO que andou comigo na escola primária em Mar e Guerra, irmão da Fernanda e que agora mora em Faro e para o GABRIEL ferreiro na Falfosa.

Para CUSTÓDIO JUSTINO esposa e filhos, ANÍBAL PEREIRA e esposa no Patacão e João ALCARIA em Mata LOBOS , distintos bancários.

Para as minhas primas Maria Emília na Falfosa, filhos e respectivas, Margarida em Santa Barbara de Nexe, Maria em Faro e Glorinha em Tavira.

Para o primos ROBERT em Nice, JOÃO no Patacão.

Para os tios Zé Bárbara e Vitalina em Vila Moura e tio António no Canadá..


UM BOM FIM DE SEMANA PARA TODA A GENTE

João Brito Sousa

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

IMPRENSA / EXPRESSO


OS BLOGUES
Por MST

Acerca dos blogues, diz MST,

P.S. - A quem possa interessar: há para aí um blogue cujo autor garante ser eu próprio. Não é: como já aqui expliquei, não faço, não alimento e não leio blogues. Terão, certamente, muitas vantagens e utilidades, mas eu não me habituo a viver em territórios onde vivem o anonimato, a calúnia, a usurpação de autorias e a impunidade.

A quem mais possa interessar: vou de férias quatro semanas.

MEU COMENTÁRIO

Um blogue é apenas um espaço de comunicação. Aqui no meu blogue, estou contra MST em todas as suas crónicas desportivas, mas assino sempre.. Como escritor e como jornalista não desportivo tem o meu respeito e consideração.

Assino igualmente sempre.

Texto de
João Brito Sousa

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

IMPRENSA/ EPRESSO


SINAL DOS TEMPOS,
por MST

e do país em que nos estamos a tornar, a morte de Alexander Soljenitsin não ocupou mais do que um curto obituário, preenchido com banalidades, mesmo nos jornais diários ditos “de referência”. A «silly season» jornalística - agora que, felizmente, o petróleo está a descer e não há incêndios - está toda devotada às aquisições do Benfica e às andanças algarvias do ‘jet seis’, cuja palpitante existência sustenta várias revistas da especialidade. Não sobrou assim espaço nem ousadia para imaginar que a morte do homem que abalou o Império Soviético e lhe deu a primeira machadada de morte pudesse interessar os leitores portugueses, nem ao menos como registo histórico.

E, todavia, raríssimos foram aqueles que no seu tempo de vida tiveram tamanha importância histórica como Soljenitsin. Ele não foi apenas o Prémio Nobel da Literatura, o autor de uma vastíssima obra (em cuja compilação em trinta volumes trabalhou até ao dia da sua morte, domingo passado), o escritor em cuja obra está presente e quase sufocante a imensidão e solidão da Rússia de sempre, na senda de Tolstoi, Pasternak, Tchekov, Bulgakov ou Nabokov, como foi, acima de tudo, uma testemunha vital e impiedosa dessa mancha negra na história da humanidade que foi o estalinismo.

E só para ter uma vaga ideia do que representava enfrentar o estalinismo na própria União Soviética, basta recordar que vivemos num país onde, dezassete anos passados sobre a implosão da URSS, o nosso Partido Comunista, herdeiro jamais infiel do estalinismo, continua a achar que a Coreia do Norte talvez seja uma democracia e que o Governo de Angola defende os direitos humanos e combate a corrupção.

Quando Soljenitsin publica em França ‘O Arquipélago do Gulag’, já tinha ganho o Nobel e já era um escritor consagrado no Ocidente, onde algumas das suas principais obras, como ‘O primeiro círculo’, ‘O Pavilhão dos Cancerosos’ ou ‘Agosto, 1914’ o tinham suficientemente revelado. Mas tudo começara antes ainda, em 1962, quando deu a ler o manuscrito de ‘Um dia na vida de Ivan Denisovitch’ a Andrei Tvardosky, membro da direcção da Academia das Letras soviética e do Comité Central do PCUS. Vivia-se os anos de Nikita Khrustchov, a suave destalinização, e, apoiado por Tvardosky, Soljenitsin conseguiu que Khrustchov autorizasse a publicação do pequeno livro, relatando a vida de um prisioneiro político nos campos de concentração estalinistas - onde ele vivera oito anos, de 49 a 57, condenado depois de o KGB ter interceptado uma carta sua a um amigo onde criticava Estaline.

De nada lhe valera então o seu estatuto de herói de guerra, com várias condecorações ganhas a combater a invasão nazi. Outros milhões de russos que, como ele, seguiram directamente da guerra para os campos de concentração do estalinismo, fizeram do livro um sucesso instantâneo, com o valor de um resgate da ignomínia sofrida.

Duraram pouco as suas tréguas com o regime. Soljenitsin não aproveitou para se submeter à linha oficial do Partido nem à sua suposta nova face branda e, tendo-se tornado praticamente o único símbolo da dissidência no Ocidente, a sua sorte ficou traçada. Em 1974, a publicação do ‘Arquipélago do Gulag’, em França, deixava tudo perfeitamente claro: de um lado, absolutamente sozinho, Soljenitsin; do outro, a URSS. Jamais houve luta tão desigual e jamais a obstinação e a coragem de um só homem haviam conseguido pôr à defesa uma força tão desmedidamente superior.

Vários anos antes, um outro escritor russo, Ossip Meldeston, morto num campo estalinista, deixara inédito um livro cujo título se aplicava como uma luva ao combate desigual de Alexander Soljenitsin: ‘Contra toda a esperança’. Era isso que ele se propunha fazer, com toda a lucidez e sem nenhuma esperança. Por dever de memória.

Na introdução de ‘O Arquipélago do Gulag’, Soljenitsin escreveu: “Com o coração despedaçado, abstive-me durante anos de publicar este livro, todavia já pronto. O dever para com os vivos impunha-se ao dever para com os mortos”. Foi só quando o KGB deitou mão a uma cópia do manuscrito, que ele se apressou a fazê-lo chegar ao Ocidente e ser publicado. ‘O Arquipélago do Gulag’ é um relato exaustivo e esmagador das vidas destroçadas de centenas, milhares de prisioneiros levados para o universo concentracionário estaliniano, conhecido como o Gulag, ao longo do imenso território soviético, entre 1918 e 1956. Ele dedica-o “àqueles a quem a vida faltou para contarem estas coisas. E que me perdoem por não ter visto tudo, não ter guardado tudo, não ter adivinhado tudo”. Mas o que ele viu, o que ele guardou, o que ele adivinhou e o que ele contou, abalou a União Soviética e o que restava do mito da libertação comunista. E caiu na pior altura para o regime comunista, então já liderado pelo sinistro Leonid Brejnev e tendo como principal ideólogo e guardião da ortodoxia Boris Ponomarev - o convidado de honra dos primeiros congressos em liberdade do Partido Comunista Português.

Em 1974, a Revolução Portuguesa, que Cunhal garantira que jamais degeneraria numa “democracia parlamentar burguesa”, do tipo ocidental, dera aos comunistas do Ocidente, e até certa altura ao próprio PCUS, a ilusão de poder restaurar nestas paragens uma Frente Popular, ao estilo francês e espanhol dos anos trinta, que mais tarde abrisse caminho ao clássico golpe leninista da tomada de poder pelos comunistas. Um ano antes, caíra às mãos ensanguentadas de Augusto Pinochet a Frente Popular chilena, que dera à causa comunista novos mártires e novas simpatias. O estalinismo e a perpetuação dos seus sinais essenciais na era de Brejnev estava ainda longe de estar suficientemente conhecido e denunciado. É certo que as terríveis purgas dos tempos do “pai dos povos”, aquele clima de absoluto terror e abjecção moral tão brilhantemente exposto, por exemplo, nesse fantástico filme de Mikhalkov, ‘O Sol Enganador’, tinham já passado à história. Mas o estalinismo nunca fora exposto, abjurado, nunca pedira perdão, ao contrário da Shoah.

Quando os primeiros relatos das purgas, dos julgamentos-fantoche e dos campos de concentração do Gulag começaram a chegar ao Ocidente a esquerda estabeleceu uma espécie de bloqueio mental à verdade. Denunciar o estalinismo era ser anticomunista e, como dizia Sartre, “um anticomunista é um cão. É um cão e daqui não saio!”. Os estalinistas mataram tanta gente como os nazis, mas a ditadura intelectual da esquerda ocidental não dava a esses mortos distantes e sem nome o mesmo valor que dava às vítimas do nazismo. Foi isso que o ‘Arquipélago do Gulag’ tornou insuportável, a partir de então. De aí em diante, ninguém mais pôde dizer que não sabia, não tinha lido, não tinha adivinhado.

Sem saber o que fazer dele, o regime expulsou Soljenitsin da Rússia. Exilado, ele continuou o seu combate contra o sistema soviético, sem nunca se sentir atraído pelo capitalismo, que, tal como o comunismo, via como uma excrescência à alma eslava, importado do Ocidente para desgraçar a Rússia. Regressaria em 1994 para continuar, lúcido e obstinado, a trabalhar até ao último dia e morrer uma misericordiosa morte fulminante, após “uma vida difícil, mas feliz”, como a resumiu a sua mulher. Sozinho, contra toda a esperança, foi decisivo para mudar o destino de um país que atravessa oito fusos horários, de Vladivostock a Moscovo, e o destino do mundo. Dele, sim, se pode dizer que foi maior do que a vida.

Publicação de
JBS

terça-feira, 12 de agosto de 2008

IMPRENSA/ VISÃO


CHEQUES EM BRANCO
Por Aurea Sampaio

Em Portugal, os dois partidos de alternância no poder – PS e PSD – não têm o bom hábito de apresentar, discutir e fundamentar as suas propostas quando estão na oposição. É certo que a falta de transparência do Estado e a caixinha que os governos fazem da verdadeira situação das contas públicas e dos estudos e dados em que assentam as suas políticas não ajuda à formulação de medidas alternativas sérias. Mas isto também não é desculpa, visto que a situação é da inteira responsabilidade destas duas formações partidárias que, se de facto quisessem, já tinham mudado as regras.
Só que não querem. E não querem porque isso lhes permite todas as ambiguidades eleitorais, prometendo o que não podem nem sabem para chegar ao poder. Permite-lhes também acomodar a máquina. Ou seja, após a saída do poder, há uma debandada geral de quadros políticos e de amigos que perdem cargos e postos por força da mudança. Essa gente precisa de hibernar e de tratar da vida. Em regra, resguardam-se em órgãos sociais de empresas públicas (porque o bloco central tem este pacto não assumido de garantir sempre uns lugares aos «adversários», o que é de bom-tom e dá sempre jeito na adversidade) ou privadas (porque é aconselhável não hostilizar quem pode voltar ao poder). A consequência desta lógica é a anemia da massa crítica partidária que, se já não é brilhante em tempo de vacas gordas, se torna insuportavelmente medíocre quando está na oposição. O retrato desta realidade espelha-se no Parlamento que, ao contrário do que devia suceder numa democracia sólida, funciona ao sabor das iniciativas do Governo, em vez de actuar como lhe compete – órgão fiscalizador da actividade do Executivo.
Vem isto a propósito do último debate do Estado da Nação e da postura do PS e do PSD, na sequência, de resto, das entrevistas de José Sócrates (à RTP) e de Manuela Ferreira Leite (à TVI). O País (como o mundo) está em crise, já se sabe. O primeiro-ministro, não interessa se por eleitoralismo, se por erosão nas sondagens, se por estar realmente preocupado com a situação dos portugueses, apresentou medidas e exibiu a atitude proactiva de quem quer resolver os problemas. E o PSD o que disse? Que «não há dinheiro para nada». Ou seja, deu a ideia de que não há nada a fazer a não ser cruzar os braços e esperar que, miraculosamente, alguma coisa aconteça. A imagem foi péssima, a mensagem passiva, a alternativa nenhuma. Assim não vai lá.
Para não sermos injustos, há que considerar que Ferreira Leite ainda agora chegou, está a formar equipas e, espera-se, a forjar um programa credível. Mas, até para quebrar este ciclo infernal de silêncio e de ausência de debate a sério – e o debate a sério ajuda a mobilizar inteligências e energias –, é bom que o mostre, que o submeta à discussão pública bem antes da campanha eleitoral. Para que os eleitores distingam projectos e saibam quais as opções. É fundamental que o PSD diga claramente ao que vem, pelo menos em cinco áreas essenciais: impostos, saúde, educação, justiça e obras públicas.
Se o não disser, isso significa que quer chegar ao poder com margem de manobra para utilizar todos os subterfúgios capazes de justificar medidas contrárias a tudo o que apregoou. Desengane-se, porém, quem joga nesta táctica déjà vu. Com eleitores escaldados e cada vez mais espertos, é difícil obter cheques em branco.

Publicação de
JBS

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

IMPRENSA/ VISÃO


ASSIM COMO ASSIM!....
Por ANTÓNO LOBO ANTUNES

Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário de uma aprendizagem e de uma dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, de uma paz intransigente conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campaínha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
– Eu já venho
e descer as escadas. Não se incomodem, não se levantem: sou capaz de descer as escadas sem ajuda até vários palmos abaixo da terra. Espero que haja sol nesse dia, um arrepio alegre nas árvores. Não se incomodem que eu já venho. Sentir-me-ão nos objectos, deixarão de sentir-me a pouco e pouco à medida que a saudade se atenua. Continuarei aqui através dos meus livros, na altura em que ninguém meu conhecido sobrar. Ficam retratos, claro, reflexos pálidos do que fui. Depois nem sequer os retratos, um nome apenas. Páginas e páginas que não imaginarão o que me custaram, a luta permanente, a dificuldade em limpá-las. Tem de passar-se as passas do Algarve para dar prazer ao leitor. Espero que Deus me conceda acabar três ou quatro textos, deixá-los prontos para que outros construam por cima, como eu construí por cima dos que me precederam. Se alguma dignidade de homem tenho deu-me a Arte. Hipócrates: a Arte é longa, a Vida breve, a Experiência enganadora e o Juízo difícil. O meu pai tinha isto num rectângulo de papel, no seu gabinete do hospital. A Arte é longa, a Vida breve. Se te sentes desfalecer pega na tua própria mão para ganhares coragem.
Talvez dê resultado. Tentaste. É noite agora, corri as cortinas, estou sozinho. Faltam-me os meus amigos, falta-me o mar. Estantes cheias de lombadas, esta mesa. A esferográfica que lá vai andando aos tropeções. Os cigarros são a água com que empurro a comida das frases. Gostava de deixar de fumar, uma escravidão estúpida. Eis-me sozinho rodeado de vozes. Ninguém me pode ajudar a fazer isto. Se cair do trapézio a responsabilidade é minha e o aleijar das costas também. Conseguirei agarrar o próximo, falharei? Não me interessa narrar histórias, contento-me em abrir o coração. A minha mãe fez noventa anos em dezembro: limita-se a esperar numa cadeira. No que me respeita não vou esperar numa cadeira: a mão desenhará letras até ao fim. Esta não é uma crónica melancólica: é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço, afastando sempre o que o estorvava. Pagam-me para fazer o que faria de qualquer maneira e portanto sou uma criatura feliz. Na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci. Amanhã na batalha pensa em mim: título do meu amigo Javier Marías. Hoje na batalha penso em vocês, não deixo de pensar em vocês. Somos tantos, cada um de nós é tantos.
Há horas cortei o cabelo: à minha frente, no espelho, um sujeito a quem cortavam o cabelo e me olhava. Parecíamos desconfiar um do outro e tive vontade de pedir-lhe desculpa por o tratar tão mal, comendo não importa o quê, dormindo pouco, não lhe dando atenção. São Francisco de Assis: confesso que tratei muito mal o meu pobre irmão corpo. Haja alguma coisa em que São Francisco e eu sejamos colegas. Lá estava o António com as madeixas a tombarem na toalha, aquela boca, aqueles olhos. Rugas: serão do espelho ou minhas? Que idade tenho? Sei lá: muda constantemente, para trás, para o lado, às vezes foge-me, outras regressa: ao cortar o cabelo estava ali, viva. E é impossível ser aquilo, é impossível ser isto. Nada em comum entre nós e o cabelo a descer para a toalha, sem cessar. Veio-me à ideia o barbeiro do meu avô, o senhor Melo, a rua 1.º de Dezembro, manucuras que eu achava lindas, tão perfumadas, tão gordas, a arrulharem: devo-lhes a minha primeira erecção consciente, pensei em pedir-lhes para casarem comigo, as duas, de uma vez. Não pedi. Quer dizer pedi sem as palavras e não me responderam, ocupadas a fazerem festinhas nos dedos de uns cavalheiros quaisquer, de joelho activamente
(gosto do activamente)
encostado à perna deles. De modo que ao conhecer o desejo conheci o ciúme. E a indiferença já agora, porque não me ligaram nada. Que teria eu de mal para além de oito anos? E oito anos é um defeito assim tão grande? Ninguém sabia, claro, que eu era o escritor mais importante do mundo e maçava-me elas não o reconhecerem com um relance apenas. Um génio ao alcance do braço e as manucuras zuca zuca na fazenda dos cavalheiros. O senhor Melo, esse, entendeu-me o olhar
– O avôzinho nunca deixa que lhe toquem
e eu a achar de imediato que o meu avô era parvo. Mal entrei em casa fui à brilhantina do meu pai
(um boião pegajoso)
e penteei-me para trás. Só me faltava o smoking e uma actriz ao lado para ser Gary Cooper
por uma pena. Gary Cooper, na minha forma de ver, não andava longe de Camões, de maneira que me espantou, ao jantar, mandarem-me comer a sopa mais depressa. Não imaginava
(não imagino)
a mãe de Gary Cooper e Camões (uma para ambos chega)
a mandá-los comer a sopa mais depressa. Recordo-me de afirmar
– Sou melhor que Camões e Gary Cooper juntos e multiplicados por deze ainda hoje estou para compreender o que significava o silêncio que se seguiu.
Publicação de
JBS

sábado, 9 de agosto de 2008

BOM FIM DE SEMANA


PORTO, 2008.08.09


BOM FIM DE SEMANA (Novo)


Para os meus filhos em ALMADA XAXÁ E PEDRO Para a minha nora e para as minhas netas MARIANA e SOFIA

Para os meus irmãos em NEWARK, USA

Aló Solange, katy and Jack David, Daniela, Michele e respectivos....

Aló PAUL SPATZ e filhas

Aló primos e primas na Austrália e Perpingham em França em NEWARK, aló Tony and Quitéria Ilheu aló SIlvina no Canadá

Para a Celina e para o Aníbal, para o Zé ALEIXO Salvador esposa, Honorato Viegas e esposa, Peixinho e esposa em ALMADA,

Para toda a malta do 1º 4ª de 52 em especial para o Coelho Proença, Zé Maganão e Ludgero Gema,

Para o Gregório LONGO no Lar da Guia (até à primeira)

Para o aluno da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL de FARO que elegi como o melhor de todos os tempos, o Contra Almirante ANTÓNIO MARIA PINTO DE BRITO AFONSO.

Para o Eng º ANSELMO DO CARMO FIRMINO e esposa, outro aluno brilhante e dos melhores de sempre da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL com quem tive dúvidas na atribuição do melhor aluno de sempre, tendo sido prejudicado por ser de uma ou duas gerações depois da minha.

Para o Dr. José Martins Bom, outro brilhante aluno da Escola COMERCIAL E INDUSTRIAL e para o igualmente brilhante e talentoso ARNALDO SILVA..

Para o Dr. Eduardo Graça e o seu ABSORTO

Para o grande poeta ROBERTO AFONSO

Para o Engº SOUSA DUARTE, esposa e filho

Para o amigo Carlos BARRIGA E ESPOSA e Filha nas FERREIRAS.

Para o Luís José Isidoro em ESTOI, amigo inesquecível

Para o Engº Neto e esposa em ESTOI ainda.

Para o Engº Manuel Carvalho e esposa

Para os meus compadres, Dr. Manuel Rodrigues e Drª Fátima Rodrigues e filha, a Drª Ana Luísa Rodrigues.

Para o enorme MÁRIO MONTEIRO que agora mora em CAMPO

e para o Guilherme, Marta esposo e filho,

Para a viúva do CARLINHOS LOURO, filhos e irmãos e respectivos.

aló Custódio Clemente e Zé Mendes na AUSTRÁLIA,

Zé Lúcio, Florentino, Rosendo e Joaquim Carrega...

Victor e Célia Custódio e Leonilde Filhos e filhas.

Aló Montenegro SÃO E FILHAS ,

Tia Amélia.

Tias Alzira e Ti Manel

Eusébio e Júlia Lucília e Armando e Filhos

Silvina e Luís Alcantarilha e filhos

Mercedes e Alviro, BICAMA e BIZÉ E RESPECTIVOS

Maria do Carmo e Zé Maria e filhos (meu afilhado João Manuel) e noras netos

FLORIVAL EM França, esposa e filhas Para o CUSTOIDINHO, o filho do APOLINARIO, que diz que é teu amigo e com quem tive uma pega no restaurante o Jorge, no PATACAO.

Para: VIEGUINHAS de Pechão e respectiva equipa do almoço de sábado, o ZÉ GRAÇA, o BOTA de ESTOI e o ENGENHEIRO

Para a malta do 1º ano 1ª Turma de 52/53

Chefe de turma: CÉLIO MARTINS SEQUEIRAALUNOSJosé Bartílio da PalmaLuís Rebelo GuimarãesHerlander dos Santos EstrelaReinaldo Neto RodriguesAntónio Inácio Gago ViegasHumberto José Viegas GomesManuel Cavaco Guerreiro.Joaquim André Ferreira da CruzJoão BaptistaJosé Mateus Ferrinho PedroJosé Vitorino Pedro RodriguesIvoFrancisco Gabriel Carvalho CabritasJoão António Sares ReisFernando Manuel MoreiraAntónio Manuel Ramos JoséFrancisco Paulo Afonso ViegasManuel GeraldesJoão Manuel de Brito de SousaJorge Manuel AmadoJoão Vitorino Mendes BicaCarlos Alberto Arrais CustódioJosé Júlio Neto ViegasManuelJoão dos SantosJosé Pedro SoaresJosé Marcelino Afonso Viegas


Para o meu afilhado em Washington CARLOS ALBERTO DIOGO esposa e filhos

Para o DIOGO TARRETA e esposa e filho, o grande Engº JOÃO PAULO SOUSA

Para o REINALDO TARRETA, esposa e filho, o Engº Rui Tarreta e para a SOLEDADE e respectivo...

Aló ESTORIL Mário Fitas, Aló Porto Carlinhos Pereira, Adelino Oliveira em AZEITÃO. Romualdo Cavaco, Jorge Valente dos Santos e Zé Pinto Faria em Portimão. ADOLFO PINTO CONTREIRAS NOS GORJÕES E SOARES em TAVIRA. Feliciano Soares e Xico LEAL em Olhão e Zé Júlio na ilha da Culatra. Para a malta da Escola Comercial e Industrial de FARO, grandes amigos e colegas,

ROGÉRIO COELHO, LUÍS CUNHA, JORGE CACHAÇO E FRANKLIM MARQUES.

Para o JORGE CUSTÓDIO, o JORINHO que andou comigo na escola primária em Mar e Guerra, irmão da Fernanda e que agora mora em Faro e para o GABRIEL ferreiro na Falfosa.

Para CUSTÓDIO JUSTINO esposa e filhos, ANÍBAL PEREIRA e esposa no Patacão e João ALCARIA em Mata LOBOS , distintos bancários.

Para as minhas primas Maria Emília na Falfosa, filhos e respectivas, Margarida em Santa Barbara de Nexe, Maria em Faro e Glorinha em Tavira.

Para o primos ROBERT em Nice, JOÃO no Patacão.

Para os tios Zé Bárbara e Vitalina em Vila Moura e tio António no Canadá..


UM BOM FIM DE SEMANA PARA TODA A GENTE

João Brito Sousa

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

IMPRENSA/ DN


CRÓNICA DE BB

No Público, sempre na virtuosa gazeta, o dr. José Miguel Júdice faz uma acusação crudelíssima: "A inveja dá-nos lugar no Guinness." A curta frase já bastava para nos aterrar. O ferrete da ignomínia crestava os nossos corpos trémulos, trespassava-os e carregava de torpeza a nossa alma miserável. Porém, o famoso advogado, inclemente, fero e definitivo, apoiou-se no épico e adiantou esta tenebrosa abjecção: "Camões terminou simbolicamente Os Lusíadas usando essa palavra, que é a que melhor nos define como povo."

Um amigo abraçou-me na rua. Soluçava de comoção: "Achas que sou invejoso?" Impressionado com tamanha dor, respondi: "De quê? De quem? De mim?" E ele: "Do mundo!" Acalmei-o. O sofrimento atroz do meu amigo moldava-se-lhe nos gestos desencontrados, no olhar assustadíssimo. Correu, rua abaixo, esmagado pela acusação do vasto intelectual e soltando gritos estridentes: "Sou um desgraçado! Sou um invejoso!"Pessoalmente, sou capaz de reconhecer-me atingido pelo infame sentimento.

Toco, há anos antiquíssimos, no batente da prosa; escrevo com razoável dose de gramática e equilibrado senso; até houve um amável crítico, doublé de mavioso poeta, que, em tempos, publicou esta frase gloriosa: Fulano de Tal [eu] "não sabe escrever mal" -, mesmo assim, rateio a mensalidade com a minúcia e a desconfiança de um prestamista. Disfarço, faço de conta que, mas rói-me o espírito e escangalha-me o sono o pensamento denso, a ideia fustigante de ser o chefe nominal de uma família secularmente empobrecida. Mas a leitura do magno artigo do dr. Júdice também me atiçou uma felicidade absurda.

Afinal, não era apenas eu, e milhões de outros portugueses, os desafortunados que rangiam os dentes de despeitada raiva. "Os gestores em Portugal ganham em regra pouco. Mesmo as empresas que funcionam bem, como a CGD, remuneram claramente abaixo dos valores do mercado", asseverava o articulista sem que a irresistível locução apresentasse qualquer esgar de dúvida.

A inveja não mordia, somente, aqueles portugueses únicos, definitivos e inequívocos que não ascenderam, nem nunca irão ascender, à primeira escala do ranking. Numa vil lubricidade, os "gestores" [que], "em Portugal ganham em regra pouco", devem odiar-se uns aos outros: a inveja nasce do ressentimento, o ressentimento não tem rosto e é tão contundente como a luta de classes.

E, entre outras, uma dúvida persistente instalou-se na minha malvada curiosidade: como o dr. Júdice não selecciona o português despeitado do que, eventual e dubitativamente o não é; como o dr. Júdice pluraliza a medonha acusação, e escreve, firme e sólido: "os portugueses", - será que admite, com doce humildade, e contrito remorso, ser, ele também, um invejoso irretorquível, macerado pelo êxito alheio?

Publicação de
JBS

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

IMPRENSA/ EXPRESSO


PARAÍSOS PERDIDOS
Por MST

Em muitos e muitos casos a razão pela qual o litoral alentejano e o barlavento algarvio foram saqueados, sem pudor nem vergonha, tem apenas um nome ; corrupção

A primeira vez que passei uns dias de Verão em Porto Covo, ainda o Rui Veloso não tinha imortalizado a aldeia e a sua ilha do Pessegueiro. Pouco mais havia do que aquela simpática praceta central, de onde irradiavam três ou quatro ruas para baixo, em direcção ao mar, e duas ou três para os lados. Tinha nascido uma pequena urbanização de casas de piso térreo, uma das quais me foi emprestada por um amigo para lá passar uns quinze dias. Havia a praia em frente, magnífica, e a angustiante dúvida de escolher, entre três restaurantes, em qual deles se iria comer peixe, ao jantar.

Nos dois anos seguintes, arrastado pela paixão pela caça submarina, aluguei uma parte de casa em Vila Nova de Milfontes, com casa de banho autónoma e duche no pátio interior, ao ar livre. Instalei-me com o meu material de mergulho e um pequeno barco de borracha, no qual ia naufragando quando o motor pifou e comecei a ser arrastado pela corrente do rio Mira em direcção aos vagalhões à saída da baía. Mas não era o sítio adequado para caça submarina e rapidamente troquei a incerteza da minha destreza pelo esplendor de uma tasquinha branca, de quatro mesas apenas, onde escolhia de manhã o peixe que iria comer à noite. Foram dias de deslumbramento, naquela que eu achava ser provavelmente a mais bonita terra do litoral português.

Mas foi Lagos, claro, a primordial e mais duradoura das minhas paixões. Tudo o que eu possa escrever sobre a fantástica beleza da cidade caiada de branco, com ruas habitadas por burros e polvos secando ao sol pregados aos muros, uma gente feita de dignidade e delicadeza, praias como nenhumas outras em lado algum do mundo, a terra vermelha, pintada de figueiras e alfarrobeiras, prolongando-se até às falésias que ficavam douradas ao pôr-do-sol, enquanto as traineiras passavam ao largo em direcção aos seus campos de pesca nocturnos, tudo isso parece hoje demasiadamente belo para que alguém possa simplesmente acreditar. Se eu contasse, diriam que menti - e eu próprio, olhando hoje Lagos, também acho que seguramente foi mentira.

A partir de Lagos, fui descobrindo todo o barlavento algarvio, cuja luz é tão suave que parece suspensa, como se não fizesse parte do próprio ar. Descobri a solidão agreste de Sagres, onde se ia aos percebes ou apenas olhar o mar do Cabo de S.. Vicente, na fortaleza, que era rude como o vento e o mar de Sagres, e hoje é uma casamata de betão que, ao que parece, se destina a homenagear a moderna arquitectura portuguesa. Descobri o charme antiquado da Praia da Rocha, onde se ia à noite ver as meninas de Portimão, ou o «souk» em cascata de Albufeira, onde se ia ver as inglesas e dançar no Sete e Meio.. E descobri outras terras de pescadores e veraneantes, como Armação de Pêra ou Carvoeiro, praias de areia grossa e mar transparente como eu gosto, cigarras gritando de calor nas arribas, polvos tentando amedrontar-me quando os olhava debaixo de água.

Não vale a pena contar. Quem teve a sorte de viver, sabe do que falo; quem não viveu, não consegue sequer imaginar. Porque esse Sul que chegava a parecer irreal de tão belo, esse litoral alentejano e algarvio, não é hoje mais do que uma paisagem vergonhosamente prostituída. Sim, sim, eu sei: o desenvolvimento, o turismo, a balança comercial, os legítimos anseios das populações locais, essa extraordinária conquista de Abril que é o poder local. Eu sei, escusam de me dizer outra vez, porque eu já conheço de cor todas as razões e justificações. Não impede: prostituíram tudo, sacrificaram tudo ao dinheiro, à ganância e à construção civil. E não era preciso tanto nem tão horrível.

Podiam, de facto, ter escolhido ter menos turistas em vez de quererem albergar todos os selvagens da Europa, que nem sequer justificam em receitas os danos que em seu nome foram causados. Podiam ter construído com regras e planeamento e um mínimo de bom gosto. Podiam ter percebido que a qualidade de vida e a beleza daquelas terras garantiam trezentos anos de prosperidade, em vez de trinta de lucros a qualquer preço.

E todos os anos, por esta altura, percorrendo estas terras que guardo na memória como a mais incurável das feridas, faço-me a mesma pergunta: Porquê? Porquê tanta devastação, tanto horror, tanta construção, tanta estupidez? Tanto prédio estilo-Brandoa, tanto guindaste, tanto barulho de obras eternas, tanta rotunda, tanta ‘escultura’ do primo do cunhado do presidente da câmara, e sempre as mesmas estradas, os mesmos (isto é, nenhuns) lugares de estacionamento, os mesmos (isto é, nenhuns) espaços verdes? Não, nem mesmo o mais incompetente dos autarcas pode olhar para aquilo e não entender a monumental obra de exaltação da estupidez humana que está à vista. Não, não é apenas incompetência, nem mau gosto levado ao extremo, nem simples estupidez. Em muitos e muitos casos a razão pela qual o litoral alentejano e o barlavento algarvio foram saqueados, sem pudor nem vergonha, tem apenas um nome: corrupção.


Acuso essa exaltante conquista de Abril, que é o poder local, de ter destruído, por ganância dos seus eleitos, todo ou quase todo o litoral português. Acuso agora José Sócrates de não ter tido a coragem política de cumprir uma das promessas do seu programa eleitoral, que era a de progressivamente financiar as autarquias a partir do Orçamento do Estado, em exclusivo, deixando de lhes permitir financiarem-se também com as receitas locais do imobiliário - deste modo impedindo que quem mais construção autoriza, mais receitas tenha. Acuso o Governo de José Sócrates de ter feito pior ainda, inventando essa coisa nefasta dos projectos PIN (de interesse nacional!), ao abrigo dos quais é o Governo Central que vem autorizando megaconstruções que as próprias autarquias acham de mais. Acuso esta gente que só sabe governar para eleições, que não tem sequer amor algum à terra que os viu nascer, que enche a boca de palavrões tais como “preservação do ambiente” e “crescimento sustentado” e que não é mais do que baba nas suas bocas, de serem os piores inimigos que o país tem. Gente que não ama Portugal, que não respeita o que herdou, que não tem vergonha do que vai deixar.

Eu sei que não serve de nada. Ando a escrever isto há trinta anos, em batalhas sucessivamente perdidas - ontem por uma praia, hoje por um rio, amanhã por uma lagoa. E lembro-me sempre da frase recente de um autarca algarvio contemplando a beleza ainda preservada da Ria de Alvor e sonhando com a sua urbanização: “A natureza também tem de nos dar alguma coisa em troca!”. Está tudo dito e não adiante dizer mais nada.

Acordo às oito da manhã destas férias algarvias, longamente suspiradas, com o ruído de chapas onduladas desabando, martelos industriais batendo no betão e um pequeno exército de romenos e ucranianos construindo mais um projecto PIN numa paisagem outrora oficialmente protegida. “É o progresso!”, suspiro para mim mesmo, tentando em vão voltar a adormecer. Sim, o progresso cresce por todos os lados, sem tempo a perder, sem lugar para hesitações, como um susto. Tenho saudades, sim, dos sustos que os polvos me pregavam no silêncio do fundo do mar. E tenho saudades de muitas outras coisas, como o polvo do mar. Sim, eu sei: estou a ficar velho.

Publicação de

JBS

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

UM ABRAÇO PARA O JOÃO CAPELA.

Ao

JOÃO MARIA SERRA CAPELA

Meu velho amigo JOÃO

Quando foste “roubar” a Palmira à Escola e a levaste para junto de ti, João, meu velho, fiquei radiante porque tu merecias levar a nossa menina para junto de ti; vocês eram duas criaturas amorosas. E a Palmira era tão bonita com os seus cabelos pretos, compridos e à solta.

Estou a falar assim, com este à vontade todo, porque eu e a Palmira éramos muito bons amigos. Não me lembro em que raio de turma foi, .. talvez nas secções preparatórias para os Institutos com o Dr. Jorge Monteiro a matemática..

Ou seria no MAGISTÉRIO PRIMÁRIO? Sei que fomos colegas, onde?...

Fiquei triste de a PALMIRA dizer que não se lembra de mim.. e que já não usa a trança preta de cabelos ao vento que lhe ficava tão bem.. ah vida vida....

Quem me contou do vosso infortúnio, foi o CARLOS SANTOS gerente do BPA recentemente falecido E também o MÁRIO COELHO PROENÇA LEONARDO, gerente do BPA e director do jornal “O OLHANENSE”, que me arranjou lá uma coluna na página 2. com o título, EU GOSTO DE OLHÃO.

No dia 4 de Outubro próximo, vou estar presente no almoço convívio dos alunos do Liceu e vou pedir para dizer umas palavras e quero começar assim,

“As minhas primeiras palavras são para o bife JOÃO MARIA SERRA CAPELA e para sua excelentíssima esposa, a Professora PALMIRA, minha colega e ambos meus amigos. ... porque são pessoas encantadoras e de uma beleza extraordinária e velhos companheiros..

Para o casal aqui deixo o meu abraço de solidariedade.

Meu velho e querido amigo, a saudade é a ternura da vida.

Meu caro João, o teu olhar era uma mistura de bondade, de alegria de viver, de rebeldia, um pouco de engatatão, de muita amizade... Foste sempre um homem solidário. E quando me encontravas, parecias ter pena de mim Dizias-me naquele teu jeito tão simples, atão Brite....

Velho amigo, quero encontrar-te para te abraçar e dizer-te; ESTOU AQUI. !...


JOÃO MANUEL BRITO SOUSA