terça-feira, 8 de janeiro de 2008

NUMA CIDADE DO NORTE

(viver no Porto)

O PERCURSO

O Dr. Henrique Silva é hoje um advogado de sucesso e tem escritório numa das artérias de maior movimento da cidade de Lisboa.

Estávamos nos anos cinquenta do século passado quando o hoje Dr. Henrique veio ao mundo. Diz a Ti Joquina, a mãe, que o Henrique pesava três quilos e tal. Foi sempre uma criança saudável e não deu muito trabalho. Até ajudou a criar os irmãos que vieram a seguir.

Aos seis anos, entrou para a escola oficial e aprendia tudo bem e depressa. Fez um curso brilhante por onde passou até chegar à licenciatura. Escola Primária, Colégio, Universidade sem dificuldade nenhuma. Nesta última fase da sua vida era trabalhador estudante. Quando se licenciou, ocupou um lugar de chefia na empresa, e, como era dotado de boa capacidade intelectual, fisicamente bem constituído, dispunha ainda de uma boa dose de capacidade negocial, fazendo tudo isto dele um excelente quadro superior.. .

Nas festas e férias vinha à terra e passava uns dias na aldeia. Era muito considerado por todos . Às vezes até lhe pediam opiniões sobre questões de terrenos, animais, direitos de propriedade, obrigações, tornas e coisas assim Tinha habilidade para esse relacionamento. E conseguia funcionar.

Como bom transmontano gostava da caça. Comprou arma e cartucheira e lá ia. Gostava da literatura de Miguel Torga e, tal como o poeta, gostava dos ambientes do Norte.. Às vezes dizia, no Norte trabalha-se; em Lisboa divertem-se.

Quando lhe ouvi aquilo pela primeira vez fiquei um pouco apreensivo, porque não via relevância tão evidente assim nessa matéria. Às vezes via na TV como é que no Norte se pegava na enxada e concluía que nós no Sul éramos mais poderosas.. A diferença começava logo pelo cabo da ferramenta, muito mais comprido que o nosso, o que não permitia o bom engajamento do homem à ferramenta e vice versa. Aquilo até tem que ver. A garra com que o trabalhador do Sul põe no golpe que com a enxada dá na terra, não tem comparação com a utilização da enxada no Norte do País, onde os trabalhos de enxada são mais lentos. O trabalhador no Norte mal se debruça ao manejar o utensílio enquanto no Sul, o homem que trabalha o campo dispõe de uma ferramenta de cabo mais curto, deitando-se sobre o joelho esquerdo onde se apoia, na altura em que a enxada cava e puxa a terra. O movimento é harmonioso e à saída da terra, a enxada é levada atrás e ao alto, onde a mão esquerda segura no cabo à frente da direita para que daí resulte manejo mais eficiente, voltando de novo a incidir sobre o terreno.

Mesmo em termos de arados, os do Norte eram de madeira enquanto no Sul, pelo menos, as aivecas eram de ferro. Hoje há tractores que resolvem os trabalhos do campo com igual desempenho. Todavia, o que se não via era razão alguma para se dizer que no norte se trabalha mais do que no Sul.. .

Isto não é nada,
João Brito Sousa

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