sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

CONTOS DO NORTE

(na Inatel da Costa da Caparica)
CENAS DO CAMPESINATO


Quando recebeu o animal do Miguel que o conduzira até ele, já o das Bouças tinha preparado o local onde iria proceder à operação matança. Como levava já alguns anos deste trabalho, o homem do punhal não facilitava e tinha já dado as suas instruções firmes ao pessoal. Ó Carrelhas desta vez ficas aí atrás, convinha-me isso sabes, o animal é grande e é preciso que alguém o segure bem. E tu tens experiência neste trabalho que eu bem sei. Ficas ai atras ó Carrelhas, está bem, sim ó Manel , não tenhas problemas que eu seguro o bicho. E tu ó Santiago, fazes aí parelha com o Carrelhas, estás a ouvir?... Nas mãos da frente quero o Alcindo e está o conjunto feito, óviram?:...Quando o animal vier, a gente aproveita o balanço da corrida dele e deita o bicho em cima do balcão e o resto faço eu...

O balcão, era um cepo ou um tronco de uma árvore, com uma tábua lisa em cima, bem segura, onde o animal ia assentar as costas, ficando deitado de lado, com todas as possibilidades do matador cravar o punhal na zona do coração. O trabalho dos ajudas era receber o animal que vinha em corrida e transbordá-lo para cima da tábua, no balcão, apanhá-lo a jeito e o Manel meter-lhe o punhal. Se o serviço for bem feito num minuto a coisa estará pronta e o sangue na panela, apanhado pela velha Alzira, que está atenta a tudo e também faz parte da equipa e diz asneiras como os homens.

No fim desta operação os assistentes batiam palmas e comentavam as dificuldades dela. Viste-te àrrasca com ele ó Manel, dizia o Zé Grilo. E o Manel.. náh, isto foi canja... o bicho está morto. Olha lá ó Zé, tens o fogo preparado?.. tudo está pronto.. é só transferir para lá o bicho para que seja chamuscado e retirado dele a cabeleira dizia o Grilo. E assim se fez... o animal à custa de força de braço foi transferido para a chamuscada, sempre debaixo do olho do Manel. Esta operação é uma coisa leve e uma vez feito o trabalho aqui é o animal levado para uma cama de tojos, onde se arrasta de um lado para o outro, com as costas viradas para baixo. Após esta tarefa, o bicho é transferido de novo para o balcão e, com a ajuda de um regador com água, a Alzira ia deitando dela sobre o lombo do animal, enquanto o “matador” o ia limpando todo até que ficasse minimamente aceitável em termos de limpeza da parte exterior.

Seguia-se o esquartejamento. O animal era aberto e era a Alzira que se ocupava de dar saída às partes, nesta fase. Separavam-se os miúdos, as cacholas, fígado, o coração, as carnes gordas e magras mas isso era assunto já para a Alzira, que era mestra nesse serviço.

Eram onze e tal horas da manhã e esta era a hora de o pessoal começar a matar o bicho do meio dia. A Alzira dirigia as operações e ia dizendo, ó Manel das Bouças, prepara aí o teu pessoal para almoço que o sangue está cozido e a cachola está pronta

E à mesa sentavam-se os que trabalharam mais, o Carrelhas, o Santiago e o Zé Grilo. Depois os filhos do Esteves, o Miguel e a moça mais nova, essa sim, um diabo à solta para por aquilo tudo a rodar. O Pai, o Esteves, até costumava dizer, com a minha Jacinta sim, a lavoira anda para a frente, que aquilo é uma mulher dos diabos, agora o Arlindinho isso fica p´rá í tudo perdido. O meu filho não tem jeito nenhum para isto e ... é uma pena, porque podia estar bem... mas vejam, esta de não poder ver matar um porco tem que se lhe diga...Bom!.. .Vamos para a mesa ó Manel?:. perguntava ele que era o primeiro a sentar-se. E o Manel ó moços , vamos embora, enquanto com o braço em movimento os chamava fazendo gestos.

Por
João Brito Sousa

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