quarta-feira, 29 de agosto de 2007

FALECEU ALBERO LACERDA



FINDOU-SE "A VERTIGEM SOLAR"

do poeta Alberto de Lacerda


Alberto de Lacerda, um dos fundadores da "Távola Redonda", a marcante revista de poesia dos anos 50, morreu anteontem, na sua casa em Londres. Tinha 79 anos aquele que Eduardo Lourenço definiu como "um poeta que, como raros, bebeu até ao fundo a sua vertigem solar".

O corpo foi descoberto pelo célebre romancista inglês Ian McEwan, amigo pessoal de Lacerda que havia combinado um almoço de domingo e o procurou em casa, estranhando a sua falta de comparência.

Para Eugénio Lisboa, amigo do falecido e seu conterrâneo - ambos são naturais de Lourenço Marques, hoje Maputo -, Alberto de Lacerda "é um dos maiores poetas de língua portuguesa do séc XX.

Era alguém que tinha verdadeira paixão pela língua.

".Sobre Alberto de Lacerda, já em 1988 Eduardo Lourenço aludiria ao seu ar distante "de Pierrot lunar ou de anjo um pouco 'dandy', já de passagem para aquela espécie de pátria que só o poema lhe daria". Na altura, o ensaísta acentuou também que Lacerda, "como nenhum outro se revisitou revisitando a aventura arquetípica de Camões".

De jornalista a artista

"Ele é um dos líricos mais puros da língua portuguesa", sublinhou ontem o seu amigo Eugénio Lisboa quando tornou público o falecimento do poeta. Também se lhe referiu como "um homem de grandes convicções políticas - era de esquerda. A sua poesia, embora "contaminada" por uma grande empatia com o sofrimento humano, em nada alterava o seu lirismo".

Contudo, a poesia não foi a sua única vocação já que nos anos 80 se aventurou pelas artes plásticas, dando ênfase à técnica da colagem. Trabalhos seus chegaram mesmo a fazer parte de uma exposição específica na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa.

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda, de seu nome completo, nasceu em Moçambique em 1928 e veio para Portugal em 1946 para concluir os estudos secundários em Lisboa. Na época privou com nomes que se tornaram incontornáveis da poesia portuguesa, como David Mourão Ferreira, Ruy Cinati, Raul de Carvalho, Luís Amaro ou António Ramos Rosa.

No entanto Alberto de Lacerda viveu poucos anos na capital portuguesa. Em 1951 optou por expatriar-se fixando-se em Londres, onde trabalhou como jornalista para a BBC. Nesta conceituada emissora empenhou-se na divulgação da poesia portuguesa e em particular de autores como Camões, Pessoa ou Jorge de Sena.

Em 1955, Arthur Waley traduziu e prefaciou os seus "77 Poems", uma edição bilingue na altura calorosamente saudada pela mais ortodoxa crítica local, do "Spectator" ao "The Times Literary Supplement".


A paixão de Alberto de Lacerda pela poesia levou-o até ao Brasil e aos EUA. De acordo com o Dicionário Cronológico de Autores Portugueses foi a "a convite de instituições académicas brasileiras que fez uma demorada visita (1959-60) pelo Brasil, proferindo conferências e recitais em diversas cidades.


Mas só com a publicação de "Palácio" (1961) é que a sua poesia encontra ressonância crítica em Portugal.


A partir de 1967 começa a leccionar na Universidade de Austin (Texas), onde se mantém durante cinco anos, fazendo uma breve passagem pela Columbia University, de Nova Iorque, até se fixar, em 1972, como professor de poética, na Boston University".

Obra traduzida Da sua vasta obra - vasta mas mediaticamente silenciosa - destacam-se, além de "Palácio" e "77 sonetos", "Tauromagia", "Elegias de Londres", "Meio-dia", "Sonetos" e os dois volumes de "Oferenda" - que reúnem obra publicada entre 1955 e 1981 e alguns livros inéditos.

(texto retirado do Jornal de Notícias)


João Brito Sousa

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