quinta-feira, 16 de agosto de 2007

CRÓNICA DA CORTELHA



CENAS DA ESCOLA COMERCIAL DE FARO

Por Romualdo Cavaco


Recebi do Romualdo, velho amigo e colega lá na Escola em Faro, década de 50, a crónica que aí deixo a seguir.


Caro João Brito Sousa:
Um abraço do Sul.
Vou ser breve. Ass.: Óculos do Dr. Uva:
Sempre rimos da desgraça que acontece aos outros".
Estão presentes no nosso coração quer o Dr. Uva quer o aluno a ser chamado nesse dia: O João Manuel Pinheiro Canal. (a cuja campa poderemos deslocarnos um dia em romagem, desde que juntemos um grupo de ex~clegas. Ele tem uma rua com o seu nome em Estoy (não Estói como alguns querem que seja)
O João Canal foi chamado e levava como habitualmente o Livro de Direito e o Caderno..Na pasta, juntamente com os livros, quando os alunos não tinham a senha para a cantina vinha uma marmita com o conduto para o almoço, da qual, por vazes transbordava gordura servindo o caderno de mata-borrão.
O Dr, Uva ao vê-lo, disse logo ..."isto é caderno que se apresente?" ... Entretanto fez menção de rasgar o caderno ao meio, Como eram 30 folhas, desistiu. E fechou o caderno deixando o par de óculos dentro a marcar a página da lição desse dia,Foi quando o Quinta Nova entrou em sena, como sabes. Aí, o Dr. Uva dá uma palmada sobre o caderno para pôr respeito na aula, esquecendo-se de que entre as folhas estavam os óculos.
Um abraço e até breve.

Romualdo Cavaco.


ALGUMAS NOTAS (para quem desconhece).

O Dr. Uva foi um professor único, daqueles que se tem uma vez na vida. Duma maneira geral, poderemos dizer sem falhar, que o Zé da Uva não ensinava corno, mas também é justo dizer que a rapaziada estudava muito menos ainda ou nada mesmo.

Não obstante isso todos os seus alunos trazem o velho professor Uva no coração. E contam-se histórias engraçadíssimas desse tempo e dessas aulas. O Dr. Uva ou o Velho Uva , como nós também lhe chamávamos (com o máximo respeito) era macaco.

A avaliação era feita mediante chamadas orais. Em todas as aulas havia chamadas à lição e o Uva não explicava nada. No início da aula o Velho, dizia: apresenta-se algum voluntário? No primeiro dia de aulas do período oferecia-se o Alex , que dizia ele, não se chateava mais até ao início do próximo período. De resto... excepção a mais um ou dois dos bons alunos, não havia mais oferecimentos.

Como era preciso ter alunos a responder à chamada e ocupar o tempo da aula., quando não havia voluntários o Velho atirava a caderneta ao ar e segurava-a na queda, de forma a que esta ficasse aberta na ficha do aluno.

Este método infalível dava quase sempre DONALDO, e, perante tal escolha, o velho dizia : venha cá o Pato E era um alívio, porque ninguém sabia nada mas o Donaldo ainda sabia menos que nós.

Interessante saber que na turma dos iguaisinhos, que eram gémeos, quando a caderneta abria num deles, o Velho chamava os dois à lição. Para não ser enganado, dizia ...

Os ingredientes para a operação, era levar o livro e o caderno diário, impecavelmente apresentado. E é aqui que entra o João Canal, de que falaremos um dia destes..

Só uma última nota: disse-me o João Mário de Moncarapacho, que se licenciou em Direito, que fez a cadeira de Direito Comercial na Faculdade com aquilo que aprendeu com o Velho Uva. Por ser verdade aqui fica esta pequena homenagem ao método de ensino do Dr.Uva.

Quanto à homenagem ao Prof. João Canal, vamos programá-la.

João Brito Sousa

1 comentário:

  1. Amigos!
    O Velho Uva deixou, de facto, marcas, bem marcantes, em todos quantos passaram pelas suas aulas na Escola de Faro. Fui também aluno dele e ainda hoje consigo dizer, sem gaguejar, toda a redacção do artigo 2ª. do Código Comercial, aquele onde se vai buscar a caracterização dos Actos de Comercio. E posso também assegurar, tal como o João Mário, que fiz a cadeira de Direito Comercial, na Faculdade de Direito de Lisboa, sem dificuldades acrescidas, porque o encornanço para as chamadas do Uva estava ainda bem presente.
    Foi, como disse, um velho professor que nos marcou a todos, pelo seu temperamento e pela sua forma de ensino que, não ensinando nada, nos forçava a empinar o raio da matéria para se conseguir uma positivasita no final de cada período e para evitar os epítetos com que nos brindava quando as nossas respostas não eram as por ele pretendidas.

    Saudade!

    arnaldo silva
    felizmente reformado

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