quarta-feira, 14 de maio de 2008

A MINHA CIDADE (II)


FARO, A MINHA CIDADE

Como me competia, estive lá no funeral dele e o senhor padre, que acompanhou a cerimónia final, teve um discurso deste tipo: Tens muito dinheiro...olha (e com o indicador apontava para o caixão...), como que a dizer que isso não vale de nada, tens ar condicionado?... e apontava, tem isto tens aquilo e apontava sempre. Saí de lá convicto que somos mesmo pó e que não valemos nada.

Continuando, agora à esquerda, ficava aí a sapataria Limpinho, cujo “boss” era casado com a Teresinha, que tinha sido minha mestra de escola paga, na Senhora da Saúde. E seguindo, estava agora à esquerda uma casa que recebia raparigas estudantes e depois entrava-se no Largo de S. Pedro, onde está a Igreja e onde eu fui baptizado pois sou natural de S. Pedro e afilhado do Padre Zé Gomes.

Quem vem da rua da cadeia, dos lados de S. Sebastião e quartel da GNR vai desembocar ao Largo de S. Pedro. É aí que está a igreja do mesmo nome, onde eu ia à missa nos anos cinquenta e tais. Apesar de puto ainda, gostava da solenidade daquele acto e assistia sempre que podia. Hoje perdi o hábito. A igreja enchia de fiéis e eu ficava impressionado com a pompa do senhor Abade, o meu padrinho de crisma o Padre José Gomes. Era um homem que, dentro da igreja via tudo, tinha um poder de observação terrível e atirava-se aos paroquianos quando o assunto era sério.

Mas era bom homem e foi lá que fiz a primeira comunhão. Como fui órfão de pai muito cedo, a minha mãe casou lá pela segunda vez e eu ainda me lembro de ter assistido à cerimónia. A missa durava aí uma hora, mais ou menos, o senhor Padre lia o Missal e, tal como hoje, explicava o significado daquele domingo em termos bíblicos. Às tantas vinham os “cobradores”, tal como hoje e lá se iam cinco ou dez tostões. Quando tocava o sino, já sabia que era para baixar a cabeça com fé em Cristo. As coisas não mudaram muito, só que hoje beijam-se à direita e à esquerda e apertam as mãos. Não tenho nada contra.

Antes da entrada no Largo, à esquerda, ficava ali uma oficina de reparação de bicicletas, cujo proprietário era o senhor Zé Linocas que era genro do senhor Virgílio Rosa , lá da minha terra, o Patacão. Uma vez, na récita da Sociedade Recreativa lá do sítio, o actor e poeta, e muitas coisas mais, Clementino Baeta, que era um génio no palco, representou uma cena com uma bicicleta que tinha a campainha avariada. Recordo-me que a páginas tantas, o actor se virou para a campainha muito sério e, falando com ela disse-lhe: “Então puta, tu também não tocas?... então, estou aqui estou a levar-te à do Zé Linocas. (desculpar o palavrão.)

Já dentro do Largo, ficava à esquerda de quem vem de S. Sebastião uma mercearia, que não sei como era porque nunca me abasteci lá. Depois ficava a Escola de Condução, cujo filho, Jacinto, andou lá na Escola Comercial e Industrial comigo e havia ainda outro filho, o Alfredo, que andava nos carros a ensinar a malta a conduzir e jogava à bola, a defesa direito, no Olhanense e a imprensa desportiva da época, chamava-lhe o “Bassora.”

Faro, uma saudade.

Quem vem de S. Pedro até ao Largo da Palmeira ela lá está. É uma rua que só tem sentido descendente, com dois hectómetros de comprimento e em menos de nada estamos na barbearia do Nugas, onde a malta do campo cortava o cabelo e mandava fazer a barba, quando ia à “cedade”. Quando era puto e ia para estas bandas com a minha mãe, íamos muitas vezes à mercearia do senhor Gago, o primeiro estabelecimento de mercearias finas, à esquina da rua e à direita quando se desce. Os Gagos, ele e a esposa, eram segundo creio, naturais de Santa Bárbara de Nexe e ter-se-iam instalado em Faro em tempos idos. E recebiam bem a malta do campo, pois, naquele tempo, as pessoas conheciam-se umas às outras, mais que hoje e perguntavam uns pelos outros, então como é que vai lá o mê compadre Xico e mais este e mais aquele e vivam felizes como diria a Maria Vilhena.

Texto de
João Brito Sousa

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