quinta-feira, 17 de abril de 2008

IMPRENSA / EXPRESSO


OS TESOUROS DO IRAQUE
texto de Clara Ferreira ALVES


NUMA DAS SALAS do Museu Britânico, perto dos centauros alados da Assíria e dos tesouros da Mesopotâmia, existe um mapa com fotografias na parede. Nele se assinala que a guerra do Iraque, as duas guerras e invasões do Iraque destruíram monumentos e vestígios de brilhantes civilizações da região, e que no lugar da cidade de Babilónia existe hoje um campo militar americano.

Vê-se na fotografia, numa terraplanagem, helicópteros e soldados armados vagueiam sobre os restos da cidade de Nabucodonosor. Nos desertos de areia e nas montanhas rochosas que fazem a fronteira com o Irão, à beira dos rios Tigre e Eufrates ou no Chat-al-Arab, nos confins com a

Turquia ou a Síria, em Bagdade ou em Bassorá (onde uma guerra civil alastra agora entre xiitas), tudo o que constituía a herança patrimonial e arqueológica de uma das regiões mais importantes da História do homem foi destruído, saqueado, bombardeado, queimado, pulverizado. Todos nos lembramos da famosa frase de Donald Rumsfeld quando lhe perguntaram a opinião sobre o saque do Museu de Bagdade, que ocorria ao mesmo tempo que a Casa Branca celebrava mais uma das suas vitórias militares libertadoras dos povos. "Stuff happens", disse o homem que inventou Guantánamo.

Esta é uma das consequências da guerra que os que ainda andam por aí a tentar defender com argumentos falaciosos a sua falha de razão nunca mencionam. Em 1999, estive em Babilónia. Ou no que restava então de Babilónia, a cidade ajudada a construir pelos judeus de Jerusalém no degredo. Uma cidade repartida por alguns dos maiores museus do mundo, entre eles o Museu Pergamon de Berlim, o Museu de Istambul e o Museu Britânico.

Os grifos e seres alados das paredes e do Corredor das Procissões que conduzia à Porta de Ishtar, uma das maravilhas do Mundo Antigo, estão reconstituídos em Berlim ou deixados com a patine do tempo noutros lugares, que não consegue ocultar a beleza dos tijolos pintados com pigmento amarelo e turquesa e que parecem cobertos de uma camada de verniz, uma técnica de revestimento semelhante à da loiça vidrada que preservou as cores e os desenhos.

Em 1999, com Saddam no poder, Babilónia estava deserta e parecia uma paisagem de Chirico, com o sol e a sombra a desenharem ângulos oblíquos que tornavam o conjunto arquitectónico uma cidade fantasma, onde um ou dois guardas fingiam vigiar os muros de tijolo e pediam um dólar. Não havia visitantes. Apenas os vestígios de uma reconstituição artificial dos muros da cidade, com tijolos de barro amassado, que tinha por objectivo devolver a Saddam Hussein a glória e esplendor de Babilónia de que ele se sentia o novo rei e o descendente directo de Nabuco.

A megalomania tinha acrescentado, mesmo ao lado da cidade e encostado aos seus muros periféricos, um gigantesco palácio de cor de betão, com a forma mais ou menos deformada de uma mastaba, impenetrável e guardado por tanques e solados armados. Supõe-se que Saddam gostava de ali se recolher para contemplar o crepúsculo dos deuses. A obra e a reconstituição de Babilónia, com a participação monetária e simbólica dos governos que transaccionavam com Saddam (todos os europeus e mais os americanos, antes de 1991), fora interrompida durante a primeira guerra do Golfo. Antes, durante a longa carnificina com o Irão, e quando o Iraque começou a deixar de ter dinheiro para o esforço de uma guerra que não conseguiu ganhar, Babilónia ficou para trás.

O palácio, hoje sede dos militares americanos, transformado em caserna e quartel-general, é a representação de tudo o que aconteceu de errado no Iraque.E quem quiser ver Babilónia ou o Código de Hamurabi (ou Ur, ou Ctesiphon), é melhor ir à Turquia, à Alemanha, a Londres, onde os muros de Babilónia suspiram no exílio que os protegeu da loucura humana. É pena que do Iraque vá sobrar tão pouco, como sobrou tão pouco no Afeganistão, cujas antiguidades e relíquias budistas menores ainda há bem pouco tempo eram vendidas embrulhadas em papel de jornal nos hotéis, antiquários e bazares de Islamabade por milhares de dólares. Muito do que foi roubado nos últimos anos foi roubado por americanos, muitos deles oficiais da CIA que passavam no aeroporto com caixas de alumínio carregadas de tesouros (eu vi, em Cabul) que escapavam ao controlo oficial.

E o que sobrar, fora o que os responsáveis e arqueólogos conseguiram esconder, terá de ser recomprado aos privados por estes países espoliados, se alguma vez saíram do atoleiro. Em Nova Iorque, muitos dos artefactos da Mesopotâmia, da Suméria e da Assíria continuam a ser vendidos a coleccionadores particulares. Pode ser que um dia os vejamos numa fundação ou num museu de um mecenas generoso. Pode ser que se percam para sempre no labirinto da ganância.

Este é um preço da guerra do Iraque de que ninguém fala, para não o comparar ao preço em vidas humanas. Nenhum país pode ser espoliado do seu passado ou da sua história, e os tesouros do Iraque ajudavam a fundar uma identidade comum que hoje se esboroa e se acaba. O Iraque, enquanto país, acabou. O Iraque será pelo menos três países e etnias que disputam uma interpretação religiosa e os poços de petróleo. Cinco anos mais tarde, vir dizer que valeu a pena esta guerra é uma obscenidade moral e intelectual.

Publicação de
João brito Sousa

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