sábado, 26 de abril de 2008

DA IMPRENSA /EXPRESSO


SOCORRO, ELE QUER VOLTAR
artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares


Santana e Jardim representam bem a mentalidade daqueles cuja carreira política foi feita unicamente à custa do esbanjamento de dinheiros públicos. E quem vier a seguir que pague a conta, porque a sua responsabilidade se limita a ganhar eleições. há coisa verdadeiramente previsível na política portuguesa é que jamais nos conseguiremos livrar de Santana Lopes. Numa das mais geniais - e indecentes - jogadas da política portuguesa, Durão Barroso, que bem o conhece, concebeu o célebre plano ‘dois em um’: ele, Barroso, livrava-se a tempo do governo e do país e embarcava para o lugar europeu, exactamente adaptado ao seu cinzentismo político e onde tem cumprido exemplarmente o que dele se esperava e, sobretudo, o que não se esperava; e, simultaneamente, oferecia a Jorge Sampaio e ao país a oportunidade de testarem de vez a absoluta incompetência de Santana Lopes. Esperava Barroso (ou melhor, sabia, como muitos outros um pouco mais inteligentes do que as célebres ‘bases’ do PSD) que, por onde tinha passado o menino guerreiro - Secretaria de Estado da Cultura, Câmara da Figueira da Foz, Câmara de Lisboa - Pedro Santana Lopes nunca falhara em deixar tudo arruinado e de pantanas, sendo certo que a receita se repetiria no governo do país.

Há uma tese que defende que também Jorge Sampaio achou que o melhor era correr aquela lebre de uma vez por todas, enquanto um PS destroçado pela investigação do caso Casa Pia (nunca saberemos se séria, se politicamente orientada) encontrava tempo e líder para poder resgatar o brinquedo ao PSD.


Assim, o poder caiu na rua, que outra coisa não era a sua entrega àquela tropa fandanga de Santana Lopes.. E, tal como se esperava, ele fez o que pôde para dar cabo disto em apenas nove meses: deixou o défice em 6,2% e transformou a governação e representação de Portugal num espectáculo tão indigno que o próprio Sampaio teve de se mover, de vergonha. E o resto já se sabe: tentando manter o poder, que lhe caíra nos braços por golpe palaciano, Santana foi forçado a defendê-lo em eleições, onde conduziu uma campanha eleitoral abaixo do limiar mínimo eticamente aceitável e foi despachado com o pior resultado de sempre do PSD - ele, que se gabava de ganhar eleições como ninguém. Contrariando anteriores juras públicas, regressou à Câmara de Lisboa, onde ficou sentado à espera que o tempo passasse, e regressou ao Parlamento, onde Menezes, com medo dele, lhe entregou a liderança parlamentar.


Como de costume, “andou por aí”, ele que nunca soube fazer outra coisa na vida. Passaram apenas dois anos, mas bastaram-lhe dois dias em silêncio (que, para ele, significa uma longa reflexão) e ei-lo que se anuncia de volta “para o combate” - com a mesma tropa fandanga de sempre. Mais o dr. Jardim e, como se dizia de um presidente americano, “com um exército de frases pomposas movendo-se pelo horizonte em busca de uma ideia”.

No caso de Santana, como no de Jardim, a ideia é simples: os “combates”, como eles chamam às peixeiradas internas do partido e às eleições mais ou menos fáceis de ganhar. Nenhum deles fez jamais outra coisa na vida nem consta que o saibam fazer. Ambos são o expoente absoluto da demagogia basista - agora consagrada pelas directas dentro do partido, de que Menezes se serviu a primor.


Mas, enquanto Menezes ainda é um principiante nestas coisas, capaz de desistir em lágrimas porque “meia dúzia de intelectuais” lhe deram cabo da vida, já Santana e Jardim são muito mais frios e racionais, por baixo da sua capa de ‘emocionais’. Santana conduz a sua eterna campanha basista com mais inteligência do que Jardim, e por isso é que este se queixa de “não ter tropas no continente”.


Pois nunca entendeu que, se queria ser um político ‘nacional’, tinha de mudar o seu discurso: não se fala para o ‘povo’ das autarquias e distritais do PSD como se fala para os regedores de freguesia e cabos eleitorais da Madeira. E também não se pode dizer a primeira coisa que vem à cabeça em cada momento, num dia gritando que o PSD tem de ser social-democrata e no outro apelando à restauração da AD para não perder os votos da direita. E, já agora, não dizer disparates que possam pôr as bases a meditar, como essa de Aguiar Branco não servir porque “vem da burguesia portuense e o PSD sempre foi um partido do povo” (e Menezes, veio de onde - de Miragaia? Balsemão e Marcelo terão vindo do mundo rural da Quinta da Marinha? Durão Barroso veio da zona operária do Barreiro, secção maoísta? E Sá Carneiro, já agora, se não veio da burguesia portuense, terá vindo de onde?).

Para se ter uma ideia da profundidade ideológica e da radiosa perspectiva de Alberto João Jardim poder um dia governar Portugal, via PSD, atente-se no que antevê um fulano chamado Carreiras, chefe da coisa em Lisboa: “Jardim tem todas as condições para fazer em Portugal inteiro aquilo que fez na Madeira”. Todas as condições? E quem pagaria as contas - Espanha? Já com Santana Lopes, as perspectivas são ainda mais claras.


Tal como ele próprio explicou anteontem ao Conselho Nacional do PSD onde anunciou que “estava disponível”, há “duas vias para ganhar 2009” (note-se que não são duas vias para governar Portugal, mas para o PSD conseguir ganhar as eleições de 2009). “Há - diz ele - uma via igual à do PS, preocupada com a contenção e o défice” (que será a de Manuela Ferreira Leite); e há “a aposta no crescimento económico” (que é a via dele). Santana propõe-se assim, e com todo o descaramento possível, levar o PSD de volta ao poder prometendo mais forrobodó: se o elegerem agora, ele vai prometer aos portugueses a baixa dos impostos, o aumento das pensões sem olhar a números, mais despesa pública e que se lixe o défice e a ‘contenção”.


Depois de dois anos e meio a fazermos sacrifícios para recuperar as contas públicas dos seus nove meses de festa e na iminência de uma crise económica global como há muito não se via, o homem propõe-se deitar fora os ganhos dos sacrifícios feitos, em troca de termos o PSD de volta e o menino guerreiro de novo instalado em S. Bento a brincar aos primeiros-ministros. Ele e Jardim representam bem a mentalidade daqueles cuja carreira política foi feita unicamente à custa do esbanjamento de dinheiros públicos. E quem vier a seguir que pague a conta, porque a sua responsabilidade se limita a ganhar eleições.

Tudo isto seria apenas trágico-cómico, se não se desse o caso de já termos sobejas provas de que o ‘povo’ do PSD, primeiro que tudo, quer é que lhe prometam o poder, e só depois é que tem um vago interesse em saber como e para quê. É chão fértil para demagogos de feira. Deve ser por isso, aliás, que se costuma dizer que o PSD é ‘o mais português’ de todos os partidos.

MEU COMENTARIO
Este artigo de MST está claro na exposição e bem escrito. Mas quererá dizer o quê?
Será que MST no terreno fazia alguma coisa de melhor? Acho esta forma de criticar fácil e sem frutos à vista, por isso é que questiono estas crónicas. Apesar de me parecer que neste tipo de jornalismo MST seja isento.
É caso para perguntar onde será melhor aproveitável este talento? É que mesmo este trabalho que publica no Expresso não conduz a nada. Dizer mal na imprensa de Jardim ou Santana para eles é o mesmo que dizer bem.
O caminho não é este.
publicação de
João Brito Sousa

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