sábado, 13 de dezembro de 2008

IMPRENSA / VISÃO


CRÓNICA COM UM SORRISO NO FIM...
por António Lobo Antunes


Hoje, um de novembro de dois mil e oito, sábado às treze e dez, acabei a primeira versão do livro, o que significa que falta escrever tudo não mencionando o trabalho de corte e costura e o frete de professor de Português a corrigir um teste que não lhe agrada até ficar em paz com ele. Depois batem no computador, emendo, volta ao computador, torno a emendar e andamos meses nisto.

Ao achar-me contente com o material emendo mais, ao achar-me muito contente emendo ainda, ao achar-me feliz desconfio, ao achar que consegui aquilo que pretendia segue para a máquina e publica-se. A partir desse momento deixa de pertencer-me e começo a esquecê-lo. Ao esquecê-lo de todo principia a longa espera do livro seguinte: virá, não virá? Até agora tem vindo. O medo que não venha, o pavor de haver secado.

Rapei o fundo à panela, acabou-se. E a pergunta angustiada: no caso de se ter acabado o que será de mim? Como viver sem estas vozes, esta necessidade estranha que desde os sete anos ou oito anos é a minha razão e o meu sentido? Nunca pensei publicar, aconteceu por acaso, o que me interessava era escrever. Foi-me sempre claro que enchia o papel de mediocridades e patetices mas tinha uma fé cega no meu génio. Anos e anos a insistir, a compreender que

(– Ainda não encontrei, ainda não encontrei)

todos eram melhores que eu e no entanto a certeza que seria melhor que eles um dia. De onde me vinha essa certeza? Sentia a força, ignorava como manejá--la. Levei séculos. Agora que consegui a questão é

– Não chega, tens obrigação de ir mais longe

de modo que me sinto de novo no princípio. Tens obrigação de ir mais longe. E nem que deixe a pele nessa luta hei-de ir. Nem que deixe a pele é um eufemismo: deixo-a mesmo. E sem pele continuo. Se perder os pés continuo com os cotos, se não houver cotos continuo com as unhas, se não houver unhas continuo com os dentes. Não pretendo ensinar nada, mostrar nada, ajudar nada: apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo. Até cegar de tanto ver. E, uma vez cego, paro e deito-me. Acabou-se a viagem. E a do leitor comigo: não precisamos de mais nada.

Um de novembro de dois mil e oito, a minha cabeça cheia de coisas, o que fiz da vida, o que vou fazer com ela, um sol gelado na rua, que me não alegra. A água da piscina de um hotel, trémula, azul

(devem ter pintado a piscina de azul)

a reflectir nuvens. Uma chaminé deitando fumo, há quanto tempo não via uma chaminé deitando fumo? Ou não olhava? Arbustos rígidos de frio. Por uma associação que me escapa vem-me à ideia Gertrude Stein a morrer.

– Qual é a resposta?

dizia ela, e como os outros calados insistiu

– Então qual é a pergunta?

Acabei a primeira versão do livro

(a chaminé não pára)
e eu com estas duas frases a perseguirem-me. De certo modo acho que, postas desta forma uma após outra, resumem o que é escrever. A arte é apenas isto, qual é a resposta, qual é a pergunta.

E a arte é apenas isto porque somos apenas isto. Pelos vidros reparo num homem preto a subir a ladeira com o filho. Quase vestidos de igual, ou seja pobres. Apenas isto. Depois são duas mulheres, também pretas, que descem, a do ladode cá grávida até aos olhos, o que traz na barriga ocupa-a toda.

Está bem, acabei a primeira versão. E vai daí o que lhes importa a eles? Ou à piscina? Ou à chaminé? Que presunção imaginar o que faço importante: o facto de dar cabo de mim a aperfeiçoar palavras, ou julgando que as aperfeiçoo, não vale um caracol. Vou amontoando estas linhas com uma esferográfica trazida do hotel em Nova Iorque. Kimpton, é o que está impresso, Kimpton every hotel tells a story. Este, o da piscina, não me tela story nenhuma, com uma mulher feia a sair de uma porta de vidro com um toldo por cima a anunciar Recepção. Auto-colantes no vidro.

A mulher feia empurra o cabelo para trás, some-se-me da cabeça e um jornalista da West Virginia ocupa o seu lugar, chama-se Jeff, gostei dele. Há uma canção sobre a West Virginia, de John Denver salvo erro. Tem piada, a mulher feia voltou e o Jeff sumiu-se. Deu-me uma primeira edição de Céline, no fim da entrevista contou da mulher, das crianças. Mora numa cidade de menos de mil habitantes e sabe tudo sobre mim. Fiquei parvo. Levo os dias a ficar parvo, aliás. O que te apetece agora, António? Apetece-me ser um homem preto a subir a ladeira com o filho. Apetece-me que me sorriam mas não há aqui ninguém senão eu. Portanto sorrio-me a mim mesmo

puiblicação
JBS

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