segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

TEXTOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES na visão


SAUDADES DA VIDA

Voltando a Vinicius de Morais, de que terei saudades? De acordar de manhã, no verão, rodeado de cheiros que zumbem? Do mar em Vila Praia de Âncora? Dos cães ferrugentos de Colares e dos seus olhos lamentosos? Da Beira Alta? Da Beira Alta sem dúvida, e do juiz que se gabava de parar o pensamento. Dos gatos que ao fecharem os olhos cessam de existir e se transformam em almofadas de sofá?

Uma ocasião uma jornalista perguntou a Vinicius de Morais se tinha medo da morte.
O poeta respondeu com um sorriso:

- Não, minha filha. Tenho saudades da vida.

De tempos a tempos esta frase de Vinicius regressa-me à ideia. Penso: de que terei saudades, eu? Maça-me morrer porque se fica defunto muito tempo. Estou certo que o meu pai anda chateadíssimo no cemitério, sem livros, sem música, sem oportunidades para ser desagradável. O meu avô, tão diferente do filho, já deve ter feito montes de amigos por lá, todos a comerem percebes à volta de uma mesa grande. E o meu tio Eloy joga às cartas com os outros, a sorrir de satisfação quando lhe saem naipes bons. Costumava inchar na cadeira, a olhar para eles, repetindo

- Muito bem, senhores oficiais

da mesma maneira que, se as coisas corriam mal, se lamentava

- Há muitos anos que sou beleguim e nunca vi uma coisa assim

e vejo-o daqui, sem uma prega, elegantíssimo. A minha tia Madalena lê livros grossos, a minha tia Bia ensina piano e eu sinto medo de não haver papel, nem caneta, nem amigos, nem mulheres. Mas, voltando a Vinicius de Morais, de que terei saudades? De acordar de manhã, no verão, rodeado de cheiros que zumbem? Do mar em Vila Praia de Âncora? Dos cães ferrugentos de Colares e dos seus olhos lamentosos? Da Beira Alta? Da Beira Alta sem dúvida, e do juiz que se gabava de parar o pensamento. Dos gatos que ao fecharem os olhos cessam de existir e se transformam em almofadas de sofá? Da minha filha Isabel ao levá-la a um museu para lhe encher de amor pela beleza os tenros neurónios:

- Estás a gostar?

- Acho um bocado aborrecente

e não tive coragem de dizer que também acho os museus um bocado aborrecentes. Não ligava muito aos quadros, ou antes não ligava um pito aos quadros mas, na época de eu criança, havia escarradores cromados, a cada dez telas, que me interessavam muitíssimo. O problema é que nunca soube cuspir em condições. Ainda hoje não sei cuspir decentemente e, não estou a brincar, envergonho-me disso. No transporte para o liceu sempre admirei os cavalheiros que tiravam um lenço muito bem dobrado da algibeira, o abriam numa lentidão preciosa, puxavam a alma dos pulmões, depositavam-na no lenço num gorgolejo de ralo, competente, profundo, examinavam a alma com satisfação, tornavam a dobrar o lenço e faziam o resto do trajecto com ela nas calças. Talvez seja por isso que nem lenço uso: quando me acho fungoso luto comigo mesmo para não limpar o nariz na manga: a maior parte das vezes consigo. Vou ter saudades daqueles que se assoam com dignidade e estrondo e dos outros, mais comuns, detentores de um poder de síntese que, desgraçadamente, me falta. Passa uma rapariga e eles, logo

- És muita boa

numa concisão admirável, a acotevelarem um sócio distraído

- Viste?

O sócio já só apanha a rapariga ao longe mas concorda por solidariedade

- Chega o verão e descascam-se logo

e o do poder de síntese remata

- Todas umas putas

que é um ponto final que não admite acrescentos, ei-las catalogadas em definitivo, de modo que se passa aos méritos da cerveja preta que, além de acabar com a sede, é óptima para tirar nódoas, seja na camisa, seja no estômago

- Até limpam as úlceras

limpam as úlceras e amortecem o presunto:

- Se as pessoas mamassem uma preta a meio da tarde ninguém adoecia.

Segue-se a inspecção da sola do sapato

- Olha-me para a porcaria deste buraco aqui

e um discurso acerca das fragilidades e misérias do cabedal. Terei saudades disto? Do senhor da mercearia ao pé de mim vou ter de certeza. Está sempre sozinho na loja, atrás do balcão, educadíssimo. Se lhe comprar um maço de cigarros e disser

- Obrigado

responde de imediato

- Obrigado somos nós

num tom papal, que me leva a imaginá-lo cercado de criaturas invisíveis para mim mas óbvias para ele, uma multidão de espectros sobre os quais reina com benevolência. Tem sobrancelhas grossíssimas que não vão inteiramente com os seus gestos fidalgos. Nunca vi ninguém entrar na mercearia a não ser eu. Mentira: uma ocasião estava lá uma velhota que comprou dois pêssegos, a contar o dinheiro como se estivesse a despedir-se para sempre de um filho único. Lembro-me que fitou as moedas, até elas se sumirem na gaveta, numa ternura que me rasgou ao meio o coração. Depois sumiu-se numa portinha ao lado, com uma pantufa no pé esquerdo e uma bota no direito. O degrau da portinha levou-lhe um quarto de hora a escalar. O senhor da mercearia, esquecido do

- Obrigado somos nós

abriu-me os horizontes

- É a dona Esperança que já foi muito rica.

Foi muito rica e agora um pêssego, uma sopinha talvez, os restos da riqueza no prego. Terei saudades disto, também? Para citar a Isabel a vida, de tempos a tempos, é aborrecente. Será que, há séculos, a dona Esperança muito boa? Será que o marido cuspia em condições? É pouco provável porque o marido, segundo o senhor da mercearia, doutor.

- Doutor de tribunais

especificou ele com admiração

- Doutor de tribunais

escutei eu já na rua. Penso que se o meu tio Eloy visse aquilo comentava

- Há muitos anos que sou beleguim e nunca vi uma coisa assim.

Eu também não, tio, eu também não. E, já agora, quando Vinicius de Morais se referia a saudades da vida em que vida pensava ?


Recolha de

JBS

domingo, 27 de fevereiro de 2011

TEXTOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES na visão


INVERNO

Em Vila Praia de Âncora as gaivotas poisam na varanda do Licínio, que andou comigo em África e tem um quase museu referente à guerra na garagem. Livros, fotografias, granadas, um ror de objectos. Sabe tocar acordeão. Eu não sei tocar nada: Uma boa parte sua continua em Angola, fala da tropa no presente, conserva tanto material, para ele precioso, e para mim dores passadas que, de longe em longe, tornam

Dias gelados, tristes e feios, que apesar de curtos me parecem intermináveis. A luz acesa muito cedo sobre os móveis melancólicos, nos quais a chuva lá de fora dá ideia de tombar. Acabei um livro no mês passado e a minha cabeça, oca, demora-se no tecto. Nem uma memória nem um presságio: vazio, junto a um calorífero que frita mais do que aquece. O telefone de vez em quando: as pessoas dizem coisas. Não me dizem grande coisa. Leio, sem vontade, não importa o quê. A humidade enche-me os ossos de água parada: sinto-me uma espécie de charco com folhas podres à tona. Se chego à varanda gente apressada, automóveis a garantirem que não com os limpa-vidros, distinguem-se mal as pessoas nos carros.

- Se ao menos

penso eu, e depois penso

- Se ao menos o quê?

A agência de viagens em frente sem clientes, a merceariazinha dos paquistaneses, que mal me entendem, vazia. Os paquistaneses escuros, secretos. Conheci uma outra mercearia mais acima, de outro paquistanês, que presidia ao balcão com as suas duas mulheres. A última tarde que lá fui segredou-me

- Não se vende nada, vou fechar.

Perguntei-lhe

- Para trabalhar onde?

e a cara caiu-lhe ao comprido dos ossos:

- Não sei.

A loja desapareceu, ele e as mulheres também: mudaram-se não faço ideia para onde. Um sujeito gordo, bem disposto, de barba. Gostava de conversar com ele, gostava de saber o que lhe aconteceu. E às duas mulheres, sempre impassíveis, misteriosas. Interessei-me

- Dão-se bem uma com a outra?

e o sujeito gordo

- Têm de dar

enquanto elas me fitavam para além de mim, uma mais velha, outra mais nova, quase tão feias como este dia, chinelando em silêncio. O sujeito gordo uma barba grisalha:

- Têm de dar

e elas plantadas à espera não se percebia de quê, de lenço, opacas. Veio-me à ideia a frase de Oscar Wilde, bigamia é ter uma mulher a mais; monogamia também, e passou na rua a senhora de boina, reformada dos seguros, a morar com a mãe paralítica. Muito gorda, move-se numa majestade de navio de carga, quase deixando um rastro de gaivotas no passeio: quer dizer, onde os outros notam pombos eu noto gaivotas, que bicam não gasóleo, pontas de cigarro, caricas, papéis, porcaria. A senhora sorri-me dentro de uns óculos enormes, cheios de dioptrias benevolentes. Deve ter uma vida de inferno e sorri.

- A gente habitua-se a tudo

esclarece ela

- A gente habitua-se a tudo

e a gente habitua-se a tudo, de facto, só eu é que não me habituo ao inverno. Compra revistas cor de rosa no quiosque, cochicha com a dona. Acerca da mãe? Da vida? Do facto de a gente se habituar a tudo? Em Vila Praia de Âncora as gaivotas poisam na varanda do Licínio, que andou comigo em África e tem um quase museu referente à guerra na garagem. Livros, fotografias, granadas, um ror de objectos. Sabe tocar acordeão. Eu não sei tocar nada: Uma boa parte sua continua em Angola, fala da tropa no presente, conserva tanto material, para ele precioso, e para mim dores passadas que, de longe em longe, tornam. Mas há gaivotas poisadas na varanda e, na minha, nem um pardal para amostra. Vila Praia de Âncora, o mar, tão lindo, meu Deus. Não esqueço o jantar na casa dele, a ternura e a fidalguia com que me trataram, estava eu a ser feliz ali perto, em Caminha. Quase em Caminha, no meio do campo, a tirar o saco do pão da maçaneta da porta: há lá país mais bonito do que o meu, há lá língua mais bonita. Se lhe tirassem a televisão e os políticos era um sítio perfeito. E os jornais, já que estamos com a mão na massa. No jantar do Licínio o Costa, rádio também:

- Manda mosca, manda mosca

gritavam eles para os aparelhos. Alfa, Beta, Charlie, Delta, Eco, Fox-Trot, Golfe, Hotel, etc., olha, nem sabia que me recordava disto e, com isto, aluvião de nódoas negras. Em que sítio estará o paquistanês das duas mulheres? Nunca as vi contentes: mudas e graves, sempre. Pequeninas.

- Manda mosca

e lá chegava o helicóptero. Pequeninas, com roupas que se me afiguravam sobrepostas. E se eu vivesse com elas? Dormem os três na mesma cama? Não arranjei coragem para me informar. O meu pai contou-me que em Benfica havia um homem com duas mulheres também, todos muito satisfeitos, e que lhe chamavam o Zé do Meio. Tinha uma carroça. Mal o Zé do Meio morreu começaram as discussões entre as esposas. Para andar com aquilo tudo na ordem o Zé do Meio devia ser um sujeito e pêras. E não uma carroça de burro, uma carroça de mula, que exige mais autoridade. Segundo o meu pai, e jamais lhe escutei uma mentira, o Zé do Meio bebia que se fartava e ao entrar em casa malhava logo na família. As bofetadas, distribuídas, custam menos. A mula recebia também a sua parte e, por conseguinte, a harmonia era total. Comia a mula e comiam elas, que mais se pode desejar? Isto no topo da Travessa dos Arneiros, quase ao pé do cemitério, uma zona de respeito, que eu evitava no pavor que um esqueleto me perseguisse. Até hoje nenhum me aborreceu, a cochichar atrás de mim

- Chega aqui, menino

mas dá azar afirmar isto porque a regata ainda não acabou. Um dia, estou eu descansado da silva, e começa um agitar de ossos no corredor. Se tivesse as paquistanesas pedia-lhes que averiguassem o que se passava:

- Cheguem ali ao corredor a ver o que se passa

e elas iam, que remédio, mudas e graves, de maneira que em vez de me comer a mim o esqueleto as comia a ambas. Dias gelados, tristes e frios. Peço ao Licínio

- Manda vir a mosca

o Licínio agarra-se às manivelas

- Manda mosca manda mosca

subo para o helicóptero, explico ao piloto

- Leve-me a Agosto

e dali a nada estou de papo para o ar, na praia, a olhar sorvetes e a lamber biquinis, perdão, ao contrário, a olhar biquinis e a lamber sorvetes. Pensando bem, a primeira frase fica melhor.


Recolha de

JBS

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

TEXTOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES


NÃO É MEIA NOITE QUEM QUER



Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras. Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher

- Da parte do Zé

embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.

Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo

- É só dor, é só dor

e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje

- É só dor

e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:

- Os meus rapazes

dizia ele dos filhos

- Os meus rapazes

e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las

- Não lhes apetece entrar?

começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico

- Uma ajudinha, amigo

e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo

- Uma ajudinha, amigo

vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre

- Uma ajudinha, amigo

a eterna queixa do Zé

- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?

e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem

- Vinho branco na sua idade?

e se queixem à minha mãe

- O miúdo bebe às escondidas

a minha mãe, severa

- Que história é essa do vinho?

mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres

- Quero lá saber do Hemingway

confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar

- E que fazes tu nos aviões, já agora?

quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo

- Não sei nada da vida, senhor, desculpe

e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste

- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?

eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.


Recolha de

JBS

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

TEXTOS DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES


O PONTINHA

Quem te deu licença de morrer?

"Agora já não lhe batem, nem dá banho ao polegar em nenhuma sopa. Porque é que a sua morte me entristece? Por ele, claro, mas por mim também. Por ele, dado que o Pontinha apreciava viver, mesmo no meio da aflição dos seus dias. Por mim, pelo facto de o meu mundo se ir despovoando. Não me agrada que me roubem o passado, me depenem de recordações, memórias, torradas, panos sujos


Soube ontem que o Pontinha morreu em agosto. Era pobre demais para que alguém se interessasse por ele, falasse dele. Viva na franja da miséria, com uma reforma ridícula, que tentava melhorar engraxando sapatos, aos domingos, no Campo Grande. Nunca o vi maldisposto, nunca o ouvi queixar-se. Aceitava. Foi ordenança da messe de oficiais em Marimba, cortava-me a comida em bocadinhos de dois por três centímetros, que eu conferia com uma fita métrica, no pretexto do tamanho da minha goela. Um milímetro a mais e soltava um berro

- Pontinha

mostrando-lhe, de dedo apontado, que não cabia. O Pontinha levava aquilo para dentro e procedia a novas medições. No encontro anual da Companhia fazia questão de me preparar o almoço, às vezes mandava-o sentar-se ao meu lado e o Pontinha, impante, designando os outros

soldados

- Mijam-se todos de inveja de eu estar aqui à sua beira

a triunfar, radiante de júbilo, torto, feio, feliz. Não usava arma, trazia um pano sujo pendurado do ombro. A higiene não era o forte dele mas, na desgraça em que vivíamos, quem se ralava com isso? Várias vezes lhe ordenei

- Tira o polegar da minha sopa

O Pontinha tirava, chupava-o, perguntava-me

- Já está limpo, não está?

e, sem dar por isso, metia-o lá dentro outra vez. No meio daquela água chilra distinguia-lhe o cuspo, e engolia o polegar, água morna e alguns feijões. À tarde, se estava no aquartelamento, pedia-lhe chá e torradas, mais duras que os meus dentes, com uma leve sombra de manteiga em cima. Quanto ao chá sabia, em partes iguais, a borras de café e a Pontinha. O Pontinha era atirador, mas como a sua coragem se mostrava um bocado vacilante passou para a messe, um casinhoto horrível, diante do pau da bandeira e das trovoadas. O segundo comandante, de quem eu gostava

- Porque é que vocês têm aqui esta coisa?

fitando o Pontinha num desgosto à beira das lágrimas, e no entanto mantivemo-lo firme, com a sua sujidade e os seus dentes mal plantados, porque o Pontinha era tão mau que se tornava esplêndido e dava um vago colorido às nossas tristes existências. Acho que acabámos por ter uma certa ternura por ele

(que palavra tão esquisita na guerra, ternura)

e nos comovia o seu desamparo. Se calhar ele também tinha uma certa ternura por nós e comovia-o o nosso desamparo. Epidemias de cólera, solidão, saudades. Só o Pontinha se me afigurava contente no meio dos seus tachos em desordem: servir os senhores oficiais, que privilégio. E este agosto morreu. Nos encontros da companhia admitia que a mulher lhe dava porrada:

- E tu?

o Pontinha, convicto

- Lá lhe vou batendo também

mas menos que ela, mais desembaraçada no bofetão. Não parecia sofrer com essas lutas, orgulhava-se sinceramente da ferocidade da esposa:

- Não é para graças

exultava ele

- Não é para graças

orgulhoso da sua padeira de Aljubarrota, que lhe ficava com o dinheiro porque o Pontinha sofria de inclinações para o tinto. Na última ocasião não veio, alguém comentou vagamente

- Parece que não está muito bem

e não sei quê nos ossos enfiou-o numa caixa. Agora já não lhe batem, nem dá banho ao polegar em nenhuma sopa. Porque é que a sua morte me entristece? Por ele, claro, mas por mim também. Por ele, dado que o Pontinha apreciava viver, mesmo no meio da aflição dos seus dias. Por mim, pelo facto de o meu mundo se ir despovoando. Não me agrada que me roubem o passado, me depenem de recordações, memórias, torradas, panos sujos. Apetece-me berrar

- Pontinha

e o Pontinha vir a correr, relativamente a correr visto que a pressa não fazia parte das suas características, suspender-se no limiar com o pano sujo, interrogar

- É o lanchinho senhor doutor?

(não me tratava pelo posto, tratava-me por

- Senhor doutor)

e proceder, num imenso chinfrim de metais, à confeção das suas fatias de granito. Apetece-me inquirir

- Enfiaste o dedo na caneca do chá?

escutar de volta

- Quer que prove a ver se tem bastante açúcar?

Uivar-lhe

- Não

com o Pontinha já a sorver um golo, chamar-lhe

- Seu cabrão

e no fundo achar graça a tanto desvelo maternal, tanto cuidado. Há anos anunciou-me

- Você precisa é que vá para sua casa tomar conta de si

e quase estive de acordo com ele. Insistiu

- Não quer que vá para sua casa tomar conta de si?

por uma unha negra não disse

- Quero

e de novo as mangueiras de Marimba, tão lindas, entre a Administração e o posto médico, e de novo a comida cortada em dois por três centímetros, e de novo as imensas noites de Angola na estreiteza de Lisboa. E de novo nós com vinte anos e de novo estrelas desconhecidas, sem fim, a garantirem-nos que éramos eternos, que seríamos eternos eternamente. Alguns cadáveres à nossa volta, claro, mas a gente eternos. Foste-te com uma coisa nos ossos, imagine-se. Com que direito? Se caíres na asneira de me aparecer à frente torno a chamar-te

- Seu cabrão

já que, vendo bem as coisas, não era má ideia estares em minha casa a tomar conta de mim.

- Se eu tomasse conta de você o senhor doutor andava aí como uma rosa
e palavra que me dava jeito andar aí como uma rosa, as pessoas

- Anda aí como uma rosa

e eu

- É que tenho o Pontinha comigo

para os que não possuem a sorte de ter o Pontinha com eles, nem de exigirem

- Dois por três centímetros, Pontinha, nem mais um milímetro

e o Pontinha, de fita métrica, a conferir o rosbife.

recolha de

JBS

sábado, 19 de fevereiro de 2011

COMO SE GOSTASSE


COMO SE GOSTASSE
de João Brito Sousa

O Blog dos antigos alunos da Escola tem proporcionado alguns contactos muito interessantes com Amigos de outras Escolas.Pois bem o João Manuel Brito de Sousa, um Algarvio que fez o Curso Geral do Comércio na Escola Industrial e Comercial de Faro, teve a gentileza de me enviar um livro que publicou.“Como se Gostasse” conta-nos a história de José Lázaro um homem cheio de virtudes e defeitos, por isso é um romance da vida para a vida.A acção decorre no princípio do século XX, quando a Primeira República dava os primeiros passos.“Lázaro foi um homem do Amor, deu brado nas noites de Lisboa, conviveu de perto com as coristas de Revista e dizem que teve um caso com a fadista Maria Mendes. Era um homem das arábias”Diz o autor - a literatura não é História, por isso algumas passagens do romance estão escritos como eu gostaria que fosse -.
Publicado por Zé Ventura
Colocado
JBS

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

CARTA

Uma carta de Abraham Lincoln ao professor do seu filho

Caro professor,
ele (o filho) terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, por cada vilão há um herói, que por cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que por cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales
.Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.
Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando esta triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço, deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.Eu sei que estou a pedir muito, mas veja que pode fazer, caro professor."
(Abraham Lincoln, 1830)
recolha de
João Brito Sousa

domingo, 13 de fevereiro de 2011

artigo de mario freitas


Aeconomia não se faz com , medidas superficiais. A complicadíssima fase que se vive também veio afectar a "estão de certas autarquias pelo desgovemo que tiveram no passado. O tempo das vacas gordas esvaiu-se! Concordamos todos com as empresas municipais? A Valores e atitudes, padrões de comportamento,tornaram-se desertores do actual sistema! É urgente definir, sim, uma política e estratégia de crescimento económico sustentável e ter uma cultura de exigência ao nível dos gastos públicos compatível com os tempos difíceis que atravessamos.
Exercemos o consumo de rico para providade de pobre! _ A nossa sustentabtlidade poderá não durar mais do que uma década. Temos a obrigação de assegurar o futuro dos nossos netos. As forças políticas têm que concertar uma solução corrente para execução imediata porque a sua degradação actual é evidente.
Ou se mudam os parâmetros (lateral ou colateral)da economia Portuguesa, a redução que o défice público assoma, os encargos descabidos dos juros ou esta antinomia permitirá que a "Nação"venha a ser «avaliada». Temos uma carga fiscal incomensurável superior a países industrializados com uma economia muito superior à nossa. Olhar a realidade e partios A que distância estamos do ciclo do empobrecimento?
Denomino de "traficantes financeiros" os causadores desta crise que não é, essencialmente, importada. O nosso pretérito recente está historicamente esvaziado. Deveríamos ter arte e engenho para o debelar e recuperar a dignidade que herdámos do passado. Mais e maior dignidade e honra, maior maturidade política com o reforçar de-uma-Elemocracia adulta e liberdade de ideias que siga contra a exclusão social e proteja, incondicionalmente, os jovens. Parte da experiência retirada da Guerra Colonial não foi suficiente para saber que quem decide uma "guerra" é a vontade do povo!
"Umguerrilheiro moçambicano revelou, a propósito da operação «Nó Córdio», referida num programa televisivo 1que esteve, na época, ais de 45 dias sem tomar banho por não terem sabão
e que os militares portugueses sabiam dessas dificuldades colocadas à população.
Contudo ele 2 considerou essa questão - falta de sabão - menosprezada porque a causa principal por e erdade do território. Por ela tudo fariam até a conquistar! E conquístarám.. . Os "estrategas militares" portugueses dessa época ajuizaram ser mais relevante a falta de sabão do que o patriotismo daqueles que defendiam, inteiramente, um princípio básico: fazer crescer o modelo de protecção social anómalo 3 contra o sistema que lhes era imposto.
E a força não venceu a .. "llnião"!
Entretanto', - acabámos de reconduzir o Presidente da República. Incontestável vitória, em todos os Distritos e Regiões Autónomas, de um homem que sociologicamente é oriundo do povo
contra uma candidatura errática, ambígua com um discurso antagónico, que deslumbrou pela negativa apoiado por dois partidos -PS e BE - que em S. Bento se maltratam verbal e politicamente dando um péssimo exemplo de que nem sempre o "vale tudo" é bom conselheiro.
Transpareceu-nos, claramente, que houve uma desobriga de socialistas ao "acompanhar" o candidato.
O que nos espera o futuro não muito distante? Os principais orquestradores do 2~ de Abril estão a finar-se ... quem se segue? 1 '~ Guerra" RTP l jornalista Joaquim Furtado) 2 Ex-guerilheiro moçambicano (Frelimo) 3 Imparcial.
recolha de
JBS

sábado, 5 de fevereiro de 2011

COM O DEVIDO RESPEITO

GENTE QUE MERECEU

Temos perante nós uma velha fotografia, reproduzida num dos últimos números do prestigiado mensário “Notícias de São Brás”, editado na Vila de São Brás de Alportel.
Sob o título “Recordando o Passado”, a foto enuncia-nos um “Grupo Ilustre”. Assina J. B., colaborador do referido jornal.
“Grupo Ilustre”. E na verdade - para quem os conheceu a quase todos, à época - trata-se de um grupo de gente de certo modo ilustre. Gente da cultura, da religião, da medicina, da engenharia, do comércio, da indústria. Tudo vultos do Algarve e ligados ao Algarve, de então. À vida algarvia doa anos 40/50 do século que findou há pouco.
Fotografados à porta da Pousada de São Brás, velho edifício, de um tempo muito antes das obras de beneficiação de que veio a ser alvo e que de pouco lhe valeram nos dias de hoje, pois presentemente encontra-se encerrada a dita Pousada, por alegada inviabilidade económica, dado o surgimento recente da nova Pousada de Estói. Coisas que o império da hotelaria tece…
Aqui, aos Almargens, ao Poço Ferreiros, a este serro com uma vista panorâmica ainda agora deslumbrante, admirável, aqui a São Brás de Alportel, vieram António Ferro, ministro de da Propaganda do Regime de Salazar, acompanhado por Duarte Pacheco (outro algarvio), também ministro e das Obras Públicas, com o fim de escolherem o melhor local para edificar a segunda Pousada Portuguesa, e a primeira da Região Algarvia.
Quanto a nós, escolheram bem o local, sobranceiro à Vila. A Pousada veio a tornar-se para o tempo que se vivia uma acolhedora, moderna, e aconchegante unidade hoteleira regional. Vão longe esses tempos…
Reunidos na foto, ei-los que aí estão, depois de um provável opíparo almoço, com manjares tipicamente regionais, como era uso desta Pousada regional…
Vamos recordar os identificados, de modo leve, por razões de espaço, que esta crónica ocupa. Da esquerda para a direita, lá está com ar bem-disposto o Dr. Mário Dinis Porto (Pai), de chapéu na mão, fumando o seu cachimbo.
Com ele trabalhámos, na condição de médico de Saúde Pública em São Brás de Alportel. Já o Dr. Mário Porto ia entrado na idade… Por esta altura, princípios dos anos setenta, também fazia parte do mesmo grupo o Dr. João Dias (Filho), a quem todos os colegas chamavam com carinho e respeito… “o Joãozinho”. Ambos, já não pertencem ao número dos vivos, como aliás todos os outros que se deixaram fotografar naquela tarde longínqua, na Pousada.
A nossa relação com o Dr. Mário Porto foi sempre franca, leal, cerzida numa camaradagem inesquecível. Com ele aprendemos a dedicação à profissão, o trato lhano e sadio com os doentes, a prática de uma medicina rural com fracos recursos, mas com muito boas noções de semiologia clínica e excepcional êxito nos resultados. Igualmente nos ensinou, que a vida deve ser bem vivida e nunca levada muito a sério.
O Dr. Porto conhecia os seus doentes como as suas mãos, passe a expressão, e tratava-os a todos filialmente por tu. Bom conviva, tinha as suas horas próprias para “filosofar”. E era um nato contador de estórias, testemunho vivo de uma vida inteira a lidar com pessoas. Rematava sempre as nossas conversas com uma anedota brejeira ou com ditos recheados de imensa graça.
Deixou-nos a saudade da sua própria pessoa… E a saudade desse tempo de trabalho e de convívio, e igualmente a saudade de um Portugal rural e “doméstico”, apertadinho, com o fato cingido ao corpo, talhado à medida, onde tudo era sujeito a censura e repressão.
J. B., que assina por baixo da foto, não conseguiu identificar os dois outros indivíduos que estão colocados na foto por detrás do Dr. Mário Porto. Nós, também não. Um, por estar quase totalmente encoberto. O outro, bem visível, mas desconhecido para as pessoas deste tempo, provavelmente comerciante ou industrial, gente das redondezas (?) da Vila serrana de São Brás de Alportel.
À frente, sobressai o Padre Inácio, pároco de São Brás de Alportel, ao tempo. Grande figura humana e homem dotado de uma inteligência fora do comum, para além de uma sensibilidade e caridade notável. Quem conviveu com ele sabe quanto o seu humanismo, a sua cultura, a sua bondade pesavam. O povo “amava-o” e respeitava-o verdadeiramente.
– “Ah, Padre Inácio! Valha-nos, Padre Inácio!... Valha-nos Deus e os seus santos!” – gritava o povo nas horas de aflição e tormento.
E o Padre Inácio lá estava, no seu posto, nas horas em que necessitavam dele.
A figura do Padre Inácio (só ela, daria uma crónica…) foi sempre muito popular. Era muito querido por todos os lugares por onde passava. A sua morte tão precoce (que a morte é sempre precoce…) deixou viva saudade em todos quantos com ele lidaram, ou por ele foram baptizados ou consorciados pelo casamento, todos os que a sua humanidade “tocou”.
(continua)
Por: Varela Pires

Recolha de
JBS

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ALMEIDA GARRETT

OS 212 ANOS DO NASCMENTO DE ALMEIDA GARRETT.
Por João Brito Sousa


Nasceu no Porto em 4 de Fevereiro de 1799. Foi o Iniciador do Romantismo, refundador do teatro português, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador, Garrett é um exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta.

É considerado, por muitos autores, como o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no seio de uma família burguesa, que se refugia em 1809 na ilha Terceira, a fim de escapar à segunda invasão francesa. Nos Açores, recebe uma educação clássica e iluminista (Voltaire e Rousseau, que lhe ensinam o valor da Liberdade), orientada pelo tio, Frei Alexandre da Conceição, Bispo de Angra, ele próprio escritor.

Em 1817, vai estudar Leis para Coimbra, foco de fermentação das ideias liberais. Em 1820, finalista em Coimbra, recebe com entusiasmo e optimismo a notícia da revolução liberal. Em 1821, representa o Catão e publica em Coimbra O Retrato de Vénus, obras marcadas ainda por um estilo arcádico.

Arcádicos são igualmente os poemas que escreve durante este período e que serão insertos, em 1829, na Lírica de João Mínimo. Em 1822, é nomeado funcionário do Ministério do Reino, casa com Luísa Midosi e funda o jornal para senhoras O Toucador. Em 1823, com a reacção miguelista da Vila-Francada, é obrigado a exilar-se em Inglaterra, onde inicia o estudo do Romantismo (inglês), e depois em França, onde se torna correspondente de uma filial da casa Lafitte.

Contacta então com a literatura romântica (Byron, Lamartine, Vítor Hugo, Schlegel, Walter Scott, Mme de Staël), redescobre Shakespeare e, influenciado pelas recolhas de cancioneiros populares, começa a preparar o Romanceiro. Em 1825 e 1826, publica em Paris os poemas Camões e Dona Branca, primeiras obras portuguesas de cunho romântico, fruto da metamorfose estética em si operada pelas novas leituras. Em 1826, publica também o Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa, como introdução à antologia de poesia portuguesa Parnaso Lusitano. Em 1826, durante um período de tréguas, regressa a Portugal e mostra-se confiante na Carta Constitucional acordada entre D. Pedro e D. Miguel, mais moderada que o programa vintista.

Dedica-se ao jornalismo político nos jornais O Português e O Cronista. Em 1828, depois da retoma do poder absoluto por parte de D. Miguel, exila-se novamente em Inglaterra. Em 1829, publica em Londres a Lírica de João Mínimo e o tratado Da Educação. Em 1830, publica o tratado político Portugal na Balança da Europa, onde analisa a história da crise portuguesa e exorta à unidade e à moderação. Em 1832, parte para a ilha Terceira, incorpora-se no exército liberal, e participa no desembarque em Mindelo. Escreve, durante o cerco do Porto, o romance histórico O Arco de Santana e colabora com Mouzinho da Silveira nas reformas administrativas.

Em 1834, é nomeado cônsul-geral em Bruxelas, numa espécie de terceiro exílio motivado pelo cada vez maior desencanto em relação à política portuguesa (a divisão dos liberais, a corrida aos cargos públicos), onde contacta com a língua e a literatura alemãs (Herder, Schiller e Goethe). Também exerceu funções diplomáticas em Londres e em Paris. Em 1836, regressa a Lisboa, separa-se de Luísa Midosi e funda o jornal O Português Constitucional. No mesmo ano, após a Revolução de Setembro, é incumbido pelo governo setembrista de Passos Manuel da organização do Teatro Nacional.

Nesse âmbito, desenvolverá uma acção notável, dirigindo a Inspecção Geral dos Teatros e o Conservatório de Arte Dramática, intervindo no projecto do futuro Teatro Nacional de D. Maria II e escrevendo ao longo dos anos seguintes todo um repertório dramático nacional: Um Auto de Gil Vicente (1838), Dona Filipa de Vilhena (1840), O Alfageme de Santarém (1842), Frei Luís de Sousa (1843). É por esta altura que inicia um romance com Adelaide Deville, que morrerá em 1841, deixando-lhe uma filha (episódio que inspirará o Frei Luís de Sousa). Em 1838, torna-se deputado da Assembleia Constituinte e membro da comissão de reforma do Código Administrativo. No ano de 1843 publica o 1.º volume do Romanceiro, uma recolha de poesias de tradição popular.

Em 1845, lança o livro de poesias líricas Flores sem Fruto e o 1.º volume do romance histórico O Arco de Sant'Ana. Em 1846, sai em volume o "inclassificável" livro das Viagens na Minha Terra, publicado um ano antes em folhetim na Revista Universal Lisbonense. Com este livro, a crítica considera iniciada a prosa moderna em Portugal. Em 1851, depois de um período de distanciamento face à vida política, regressa com a Regeneração, movimento que prometia conciliação e progresso. Nesse ano, funda o jornal A Regeneração, aceita o título de visconde e reassume o seu papel de deputado, colaborando na proposta de revisão da Carta. Em 1852, torna-se, por pouco tempo, ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 1853, publica o livro de poesias líricas Folhas Caídas, recebido com algum escândalo: o poeta era, na época, uma figura pública respeitável (deputado, ministro, visconde), que se atrevia a cantar o amor desafiando todas as convenções, e muitos souberam ver na obra ecos da paixão do autor pela viscondessa da Luz, Rosa de Montufar. Em 1854, morre em Lisboa, aos cinquenta e cinco anos.


JBS

domingo, 30 de janeiro de 2011

OPINIÃO

ACERCA DO DISCURSO DE VITÓRIA DE CAVACO
Toda a gente da política criticou severamente o discurso de vitória do reeleito Pesidente. Se um (o) discurso não primou pela elegãncia as opiniões também não foram nada representativas de uma boa conduta social, visto achincalharem o nome do Presidente ,as sobretudo o cargo.
Foi deprimente.
Estes comportamentos, de pessoas todas elas com responsabilidades no panorama político português, que conduziram a este estado em que o País se encontra, deveriam ser um pouco mais moderados.
Mas isso não conta; o que vale é a bordoada.


Dará alguma coisa ?

JBS

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

OPINIÃO


BAPTISTA-BASTOS NO DN - mais palavras para quê?

Mário Soares foi o vencedor das eleições. A astúcia e a imaginação do velho estadista permitiram que Fernando Nobre, metáfora de uma humanidade sem ressentimento, lhe servisse às maravilhas para ajustar contas. É a maior jogada política dos últimos tempos. Um pouco maquiavélica.
Mas nasce da radical satisfação que Mário Soares tem de si mesmo, e de não gostar de levar desaforo para casa. Removeu Alegre para os fojos e fez com que Cavaco deixasse de ser tema sem se transformar em problema. O algarvio regressa a Belém empurrado pelos acasos da fortuna, pelos equívocos da época, pelo cansaço generalizado dos portugueses e pelos desentendimentos das esquerdas (tomando esta definição com todas as precauções recomendáveis).
Vai, também, um pouco sacudido pelo que do seu carácter foi revelado. Cavaco não possui o estofo de um Presidente, nem um estilo que o dissimulasse. Foi o pior primeiro-ministro e o mais inepto Chefe do Estado da democracia. Baço, desajeitado, inculto sem cura, preconceituoso, assaltado por pequenas vinganças e latentes ódios, ele é o representante típico de um Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa. Nada fez para ser o que tem sido.
Já o escrevi, e repito: foi um incidente à espera de acontecer. Na galeria de presidentes com que, até agora, fomos presenteados, apenas encontro um seu equivalente: Américo Tomás. E, como este, perigoso. Pode praticar malfeitorias? Não duvido. Sobre ser portador daqueles adornos é uma criatura desprovida de convicções, de ideologia, de grandeza e de compaixão. Recupero o lamento de Herculano: "Isto dá vontade de morrer!"
(Baptista-Bastos, DN)
RECOLHA DE
JBS

domingo, 23 de janeiro de 2011

CRÓNICA PARA O ANTONIO PEREIRA

DESPORTO AO FIM DE SEMANA (22 e 23 Janeiro)
Por João Brito Sousa

Sou um adepto do desporto. Hoje, com 68 anos e com uma operação hospitalar à coluna, não pratico nada, mas, na altura própria, joguei futebol no clube da minha terra, o SCPatacão, pelas várias empresas onde trabalhei, pela escola do Magistério de Faro, joguei andebol na Escola e fui finalista no torneio interno contra a turma dos electricistas que tinha à baliza o Tony Casaca, mais tarde guarda redes titular de futebol no Olhanense, joguei golfe e ténis de campo e de mesa na Companhia de Diamantes de Angola, joguei voleibol no Magistério Primário onde fui colega de turma do Marcelino Viegas, distinto jornalista do Algarve, sou um pedagogo, pois comecei a minha vida profissional como professor primário e terminei-a como professor do Ensino Superior, no ISCAL e tentei um doutoramento na Universidade de Badajoz, não discutindo tese (Favor ver meu CV que segue à parte).

AS COMPETIÇÕES QUE VI EM DIRECTO

1 - Final da Supertaça em andebol, Benfica / Águas Santas

Gostei do jogo. O Benfica ganhou bem mas com a ajuda do treinador. Aliás esta ponta final da prova foi o treinador que no banco viu as lacunas da equipa e corrigiu-as. Carlos Carneiro do Benfica e os três guarda redes que jogaram, foram os melhores em campo, na minha opinião. Emoção quanto baste a proporcionar um bom espectáculo.

2 – BENFICA / NACIONAL DA MADEIRA

Boa vitória do Benfica. Mas o Nacional entrou melhor. Queriam ganhar e demonstraram isso ao longo de toda a partida. Ainda assustaram. A equipa do Benfica acusou alguma dose de intranquilidade apesar de facilmente chegar aos 3 / 0. Mas o Nacional foi sempre um perigo. Os golos foram limpos e nada há a apontar. No final do jogo houve cenas que não quero comentar.

3 – O jogo BRAGA / VITÓRIA DE SETÚBAL

O Braga esteve a perder por dois a zero e chegou ao empate o que foi bom, Mas o empate foi mau.


João Brito Sousa


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ELMANO OU MARTINS DS SANTOS

OPINIÃO
DECLARAÇÕESDO SENHOR PINTO DA COSTA.
Em declarações à imprensa, JORNAL o JOGO de hoje, Pinto da Costa disse: "O único do Benfica que queria era o Elmano Santos".
Ora, Elmano Santos é árbitro de futebol, para que é que o quereria o senhor Pinto da Costa. Não teria querido dizer Martins dos Santos?

No final do encontro com o Beira-Mar, Pinto da Costa desmentiu categoricamente o interesse do FC Porto em Salvio, encontrando justificação na notícia apenas no eventual interesse de o Atlético de Madrid inflacionar o preço do jogador.
"'A Bola' costuma dar títulos ao FC Porto quando as coisas não são verdade, portanto está tudo dito.
Aqui não se rouba nem há ladrões. Nunca ninguém aqui foi condenado por roubar o que quer que fosse, repito, nunca no FC Porto ninguém foi condenado por roubar o que fosse.
Se a notícia fosse verdadeira não era ali que saía. Aproveito para garantir que não estamos interessados nesse jogador. E se o Atlético de Madrid o disse - e já sei que não o disse - só se justificaria para fazer preço, mas não vai fazer porque não nos interessa. Nem nenhum outro do Benfica, para quê? Se calhar do Benfica o único que queria era o Elmano Santos", ironizou
Este assunto deveria ser explicado.
Retrado do jornal O JOGO.
JBS

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

HEMINGWAY

O SOL TAMBÉM SE LEVANTA

Escrito por Ernest Hemingway

O Sol Também se Levanta retrata o cotidiano de um grupo de expatriados boêmios, ingleses e norte-americanos, após o término da Primeira Guerra Mundial. Os cenários escolhidos para o romance foram as cidades de Paris e Pamplona, durante o Festival de San Firmin.O norte-americano Jacob Barnes é o protagonista e narrador da história. Conhecido como Jake, ele trabalha como repórter em Paris. Jake volta impotente da guerra e acaba se apaixonando por Lady Brett Ashley, mulher de personalidade fútil, que trata os homens como simples objeto e envolve-se com vários deles, apesar de ser comprometida.Para O Sol Também se Levanta Hemingway criou tipos humanos complexos, representando assim uma geração contaminada pela ironia e pelo vazio diante da vida, com seus valores morais destruídos pela guerra e irremediavelmente perdidos. Temas como a solidão e a morte, os preferidos do escritor, são explorados de forma brilhante.Escrito originalmente em 1926 e publicado em 1927, O Sol Também se Levanta foi o primeiro romance de Ernest Hemingway, sendo considerado, por muitos, como sua obra mais refinada em termos de técnica literária.
Os homens, no alto do muro, inclinaram-se ergueram a grade do corral. Depois ergueram a porta da jaula. Curvei-me sobre o muro e esforcei-me por enxergar lá dentro. Mas estava tudo escuro. Alguém bateu na grade com uma barra de ferro. No interior, algo pareceu explodir. O touro batia na madeira, à direita e à esquerda, com seus chifres, e fazia um grande ruído.Divisei então um focinho negro, a sombra dos chifres e depois ouvi patadas na madeira da caixa oca. O touro precipitou-se no corral e parou, com as patas dianteiras deslizando na palha. Ergueu a cabeça, a grande corcova de músculos do pescoço inchada, retesada, a musculatura do corpo fremente, enquanto olhava a multidão sobre os muros de pedra. Os dois bois retrocederam e se encostaram à parede, de cabeça baixa, vigiando o touro.
O touro os viu e arremeteu. Atrás de uma das caixas um homem pôs-se a gritar e a bater com o chapéu de encontro às tábuas. O touro, deixando os bois, voltou-se e arremeteu para o ponto onde estava o homem, tentando atingi-lo atrás das tábuas, com meia dúzia de golpes rápidos e fustigantes com o chifre direito.
- Meu Deus! Como é belo - exclamou Brett.Estávamos bem acima dele.- Vejam como sabe servir-se bem dos chifres - disse eu. - Conhece a sua direita e a sua esquerda, como um jogador de boxe.- Pois não é?- Olhe!- Ele vai muito depressa.- Espera. Vai chegar outro dentro de um minuto.
Haviam trazido outra jaula para a entrada. Numa extremidade, por trás de um abrigo de tábuas, um homem atraiu o touro; e, enquanto este olhava para o outro lado, levantaram a grade e um segundo touro entrou no corral.
Fez uma arremetida direta contra os bois, e os dois homens, saindo de trás das tábuas, gritaram, para afastá-lo. O touro, contudo, não se desviou e os homens gritavam: "Ha, ha, ha, toro", e agitavam os braços. dois bois puseram-se de lado, para resistir ao choque, e o touro investiu contra um deles.
- Não olhe - disse eu a Brett, que olhava, fascinada.- Fabuloso! - exclamei. - Você não se impressiona- Eu o vi - disse ela. -Vi-o mudar do chifre esquerdo para o direito.- Formidável!
O boi estava por terra, com o pescoço estendido, a cabeça retorcida, da maneira como havia caído. Subitamente, o touro deixou-o, para correr em direção ao outro que permanecera ao fundo, balançando a cabeça, olhando o que se passava. Correu, desajeitado, e o touro o alcançou, feriu-o ligeiramente no flanco e olhou a multidão, sobre os muros, erguendo a corcova de músculos. O boi aproximou-se dele como se quisesse empurrá-lo com o focinho e o touro investiu ao acaso. Em seguida, empurrou o boi e ambos se dirigiram, trotando, para o outro.

HEMINGWAY

ENREVISTA COM Ernest Hemingway


Escrito por George Plinton
Pergunta: As horas que o senhor dedica à escrita propriamente dita são agradáveis?
Hemingway: Muito.
Pergunta: Poderia falar um pouco sobre esse processo? Em que período trabalha? O senhor segue uma programação estrita?
Hemingway:Quando estou trabalhando em um livro ou um conto, escrevo diariamente de manhã, a partir da hora em que surge a primeira luz. Não tem ninguém para perturbar, é fresco, ou mesmo frio. Começo a trabalhar e vou esquentando conforme escrevo. Leio o que fiz no dia anterior e, como sempre paro num trecho a partir do qual sei o que vai acontecer, prossigo desse ponto. Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida; paro e tento sobreviver até o dia seguinte, para voltar à carga. Se começo às seis da manhã, digamos, posso ir até meio-dia, ou interromper o trabalho um pouco antes. A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte.
Pergunta: Consegue tirar da cabeça um projeto, seja ele qual for, quando está longe da máquina?
Hemingway:Claro. Mas é preciso disciplina para se fazer isso, e essa disciplina se conquista. Tem de ser assim.
Pergunta: O senhor reescreve alguma coisa ao reler o que escreveu no dia anterior? Ou isso vem depois, quando já está tudo pronto?
Hemingway:Eu sempre reescrevo, na manhã seguinte, o trecho do dia anterior. Naturalmente, quando acabo, repasso tudo outra vez. E tem-se mais uma chance de corrigir e reescrever quando outra pessoa datilografa, e se vê o texto passado a limpo, datilografado. A última oportunidade é nas provas. É bom ter tantas chances diferentes.
Pergunta: Quantas vezes reescreve um texto?
Hemingway: Depende. Reescrevi o final de A farewell to arms, a última página, trinta e nove vezes, até ficar satisfeito.
Pergunta: Por quê? Havia algum problema técnico? O que o preocupava?
Hemingway: Pôr as palavras do jeito certo.
Pergunta: Essa releitura que recupera a "seiva" o "gás"?
Hemingway:A releitura me coloca no ponto exato onde tem que haver a continuação, dando a noção de que tudo está tão bom quanto possível. A seiva sempre está em algum lugar.
Pergunta: Mas existem momentos em que a inspiração não vem de jeito nenhum?
Hemingway: Sem dúvida. Mas ao parar num ponto em que sabia o que viria depois, posso ir em frente. Desde que consiga começar, tudo bem. O gás aparece.
Pergunta: Thornton Wilder fala de recursos mnemônicos que ajudam o escritor a saber a quantas anda o seu dia de trabalho. Ele diz que uma vez o senhor contou que apontou vinte lápis.
Hemingway:Acho que nunca cheguei a ter vinte lápis ao mesmo tempo. Gastar sete lápis n. 2 é um bom dia de trabalho.
Pergunta:Pode citar alguns dos lugares que considera mais propícios para trabalhar? O hotel Ambos Mundos deve ter sido um deles, a julgar pelo número de livros que escreveu lá. Ou, na sua opinião, o ambiente tem pouca influência sobre o trabalho?
Hemingway: O Ambos Mundos, em Havana, foi um lugar muito bom para se trabalhar. O Finca é um lugar fantástico, ou melhor, foi. Mas eu trabalho bem em qualquer lugar. Quer dizer, consigo trabalhar tão bem quanto me é possível nas circunstâncias mais variadas. Telefone e visitas são inimigos mortais do trabalho.
Pergunta: É necessário ter estabilidade emocional para se escrever bem? O senhor me disse uma vez que só conseguia escrever bem quando estava apaixonado. Poderia se estender um pouco mais nesse assunto?
Hemingway:Mas que pergunta! Nota dez pela tentativa. Você consegue escrever sempre que as pessoas deixam você em paz e não interrompem. Quer dizer, consegue se for duro o bastante com relação a isso. Mas, com toda certeza, escreve-se melhor quando se está apaixonado. Se você estiver de acordo, prefiro não me estender sobre esse assunto.
Pergunta: E a questão da segurança financeira? Pode prejudicar a qualidade do que se escreve?
Hemingway: Se ela vem relativamente cedo e você ama a vida tanto quanto o seu trabalho, é preciso ser muito forte para resistir às tentações. Uma vez que escrever tenha se tornado seu maior vício e seu maior prazer, só a morte pode acabar com isso. A segurança financeira, então, é uma grande ajuda, já que evita que você fique se preocupando. A preocupação destrói a capacidade de escrever. Uma doença incomoda, na medida em que gera uma preocupação subconsciente, minando suas reservas.
Pergunta: Na sua opinião, qual o melhor treino intelectual para o aspirante a escritor?
Hemingway:Digamos que ele estivesse pensando em sair e se enforcar, porque chegou à conclusão de que escrever bem é tremendamente difícil. Neste caso, deveria cortar a corda sem piedade, de forma a se ver obrigado, pelo seu próprio eu, a escrever o melhor possível pelo resto da vida. Pelo menos teria a história do enforcamento para começar.
Pergunta: E sobre as pessoas que seguem a carreira acadêmica? Acha que os muitos escritores que mantêm cargos acadêmicos comprometeram suas carreiras literárias?
Hemingway: Depende do que você considera comprometer. Tem o mesmo sentido de "uma mulher comprometida"? E o compromisso de um estadista? Ou é o compromisso que você firma com o dono da mercearia ou com o alfaiate, no qual se estabelece que você paga um pouco mais daqui a alguns dias? O escritor que consegue escrever e lecionar deve ser capaz de fazer as duas coisas. Muitos escritores competentes provaram que isso é possível. Eu não conseguiria, sei disso, e admiro aqueles que têm capacidade para tanto. Mas acho que a vida acadêmica pode pôr um ponto final na experiência mais ampla, externa, e que provavelmente isso limitaria o conhecimento do mundo. O conhecimento, no entanto, exige responsabilidade do escritor, e faz com que escrever se tome ainda mais difícil. Tentar escrever algo que tenha valor permanente é uma ocupação que exige péríodo integral, mesmo que no processo em si sejam gastas apenas apenas algumas horas por dia. Pode-se comparar o escritor a um poço. Existem muitos tipos de poços, como de escritores. Mas o importante é que o poço tenha uma água boa, e é melhor tirar um pouco todos os dias do que esvaziá-lo de uma só vez, e ficar esperando que ele se encha novamente. Sei que estou fugindo da pergunta, mas essa pergunta não era muito interessante.
Pergunta: Recomendaria o trabalho jornalístico aos escritores jovens? A sua experiência no Kansas City Star foi útil?
Hemingway:No Star se era forçado a aprender a escrever sentenças informativas simples. Isso é útil para qualquer um. O trabalho jornalístico não prejudica o jovem escritor e pode até vir a ajudá-lo se ele cair fora a tempo. Esse é um dos clichês mais velhos que conheço e peço desculpas por isso. Mas quando se fazem as velhas perguntas de sempre, deve-se estar preparado para receber as velhas respostas de sempre.

Pergunta: Escreveu uma vez no Transatlantic Review que a única razão pela qual trabalhou com jornalismo era por ser bem pago. E disse: "E quando se destroem coisas importantes, escrevendo-se sobre elas, é preciso receber um bom dinheiro por isso". Acha que escrever é uma espécie de autodestruição?

Hemingway: Não me lembro de ter escrito isso algum dia. Mas me parece idiota e violento o bastante para eu ter dito, só para não ter que ficar roendo as unhas e dar uma declaração sensata. Com toda certeza eu não acho que escrever seja uma espécie de autodestruição, se bem que o jornalismo, depois de um certo ponto, pode vir a se tornar uma autodestruição diária para um escritor sério e criativo.

Pergunta: Na sua opinião, o estímulo intelectual da companhia de outros escritores contribui de alguma forma para o escritor?

Hemingway:Sem dúvida.

Pergunta: Na Paris dos anos 20, o senhor tinha algum "sentimento de grupo" com relação aos outros estritores e artistas?

Hemingway:Não. Não existia nenhum sentimento de grupo. Sentíamos respeito uns pelos outros. Eu respeitava muitos pintores, alguns da minha idade, outros mais velhos - Gris, Picasso, Braque, Monet, ainda vivos na época e escritores: Joyce, Ezra Pound, o que havia de bom em Stein...

Pergunta: Quando está escrevendo, alguma vez já se viu influenciado pelo que estava lendo na época ?

Hemingway:Não, desde a época em que Joyce estava escrevendo Ulysses. Não foi uma influência direta. Mas naqueles dias, quando as palavras que conhecíamos nos eram interditas, e tínhamos que brigar por uma única palavra, a influência do trabalho de Joyce mudou tudo, e fez com que pudéssemos nos livrar das restrições.

Pergunta: Outros escritores lhe ensinaram alguma coisa sobre a arte de escrever? Ainda ontem o senhor estava me dizendo que Joyce, por exemplo, não suportava falar sobre o assunto.

Hemingway:Junto a pessoas de seu próprio ramo, você normalmente fala dos livros de outros escritores. Quanto melhores forem os escritores menos vão falar sobre o que eles mesmos escrevem. Joyce era um grande escritor e só explicava o que estava fazendo a imbecis. Acreditava que os outros escritores que respeitava eram capazes de entender o que ele fazia no momento em que o lessem.

Pergunta: Parece que o senhor tem evitado a companhia de outros escri tores há anos. Por quê?

Hemingway: Isso é mais complicado. Quando se escreve, quanto mais fundo se vai, mais sozinho se fica. A maioria dos antigos e melhores amigos morre. Outros se mudam.. Você não os encontra mais a não ser em raras ocasiões, mas escreve e mantém o mesmo contato de antes, como se estivessem juntos num café, como nos velhos tempos. Trocam-se cartas cômicas, às vezes descaradamente obscenas e irresponsáveis, e é quase o mesmo que conversar. Mas você fica mais sozinho, porque é assim que tem de trabalhar, e o tempo para trabalhar fica cada vez menor, e, se você desperdiça esse tempo, sente que cometeu um pecado para o qual não existe perdão.

Pergunta: Já tocou algum instrumento musical?

Hemingway: Costumava tocar violoncelo. Minha mãe me tirou da escola um ano inteiro, para que eu estudasse música e contraponto. Achava que eu tinha jeito, mas eu não tinha o menor talento. Tocávamos música de câmara ­ alguém tocava violino; minha irmã tocava viola e minha mãe, piano. Eu tocava violoncelo pior que qualquer outra pessoa na face da Terra. E claro, naquele ano fiquei livre para fazer outras coisas também.

Pergunta:Relê os escritores de sua lista? Twain, por exemplo?

Hemingway: É preciso dar um prazo de uns dois ou três anos com Twain. Você grava muito as histórias. leio um pouco de Shakespeare todo o ano.Sempre Lear. É só ler i fico mais estimulado.

Pergunta: A leitura é, então, uma ocupação e um prazer constantes?

Hemingway:Vivo lendo livros - todos que aparecem. Faço um certo racionamento, de forma a ter sempre algum de reserva.

Pergunta: Quer dizer então que um conhecimento profundo das obras das pessoas em sua lista ajuda a preencher o "poço" de que falou há pouco? Ou foram uma ajuda consciente no desenvolvimento das técnicas de redação?

Hemingway:Fizeram parte do aprender a ver, a ouvir, a pensar, a sentir e a não sentir, e a escrever. O poço está onde está seu gás. Ninguém sabe do que ele é feito, muito menos você. Você já sabe se está com ele ou não, se vai ter que esperar até que ele venha novamente.

Pergunta: O senhor admitiria a existência de símbolos em seus romances?

Hemingway:Acredito que existam símbolos, já que os críticos continuam a encontrá-los. Se não se importa, não gosto de falar sobre símbolos, e nem que me façam perguntas sobre isso. Já é bastante difícil escrever livros e contos, e ainda por cima lhe pedem para ficar explicando o sentido. Isso também acaba tirando o emprego dos explicadores. Se cinco ou seis, ou mais explicadores profissionais podem dar conta da coisa, por que eu iria me meter? Leia tudo que escrevo só pelo prazer da leitura. Qualquer outra coisa que venha a encontrar será a medida daquilo que você trouxe à leitura.

Pergunta: Essas perguntas que abordam a criação artística são realmente uma chateação.

Hemingway:Uma pergunta inteligente não deve ser nem um prazer nem uma chateação. Mas ainda acho que é muito desagradável para o escritor falar sobre como ele escreve. Escreve para ser lido com os olhos e nenhuma explicação ou dissertação deveria ser necessária. Pode ter certeza que existe muito mais no que se escreve do que aquilo que se lê numa primeira leitura e, por ser assim, não é função do escritor explicar o que escreve ou organizar excursões, como um guia turístico, através da região mais difícil de sua obra.

Pergunta:Poderia dizer quanto de esforço consciente de elaboração entrou no desenvolvimento do seu estilo pessoal?

Hemingway: Essa é uma pergunta cansativa e exige muito tempo para ser respondida. Se você passasse dois dias respondendo, ficaria tão consciente de si mesmo que não conseguiria mais escrever. Eu diria que aquilo que os amadores chamam de estilo geralmente é apenas a inevitável falta de jeito da piimeira tentativa de se fazer algo que até então nunca havia sido feitô: Quase nenhum dos novos clássicos se parece com os antigos. No início, as pessoas só consegem ver a falta de jeito. Depois isso não é mais tão perceptível. Quando se revela uma falta de jeito ímpar, as pessoas pensam que isso é estilo e muitas passam a copiar. O que é Jamentável.

Pergunta: Como se apresenta em sua mente a concepção de um conto? O tema, o enredo, algum personagem muda conforme vai escrevendo?

Hemingway: As vezes sei a história. As vezes vou compondo conforme escrevo e nem tenho idéia de como vai ficar. Tudo muda conforme o desenroIar. É isso que faz o movimento, que faz a história. As vezes o movimento é tão lento que parece que não há movimento algum. Mas sempre há mudança e sempre há movimento.

Pergunta: É assim também com o romance, ou o senhor elabora todo um plano antes de começar e segue rigorosamente esse plano?

Hemingway:For whom the bell tolls foi um problema que tive de enfrentar diariamente. Em princípio sabia o que ia acontecer. Mas inventava o que acontecia a cada dia.

Pergunta: The green hills of Africa, To have and have not e Across the river and into the trees começaram todos como contos e acabaram se transformando em romances? Se foi esse o caso, essas duas formas são tão semelhantes que o escritor pode passar de uma para a outra sem ter que rever por completo o tratamento dado?

Hemingway:Não, isso não é verdade. The green hills of Africa não é um romance, foi uma tentativa de escrever um livro absolutamente fiel à verdade, para ver se o contorno de uma região e o esquema de um mês de ação poderiam, se apresentados de maneira verídica, se equiparar a uma obra fictícia. . Depois de tê-lo escrito, escrevi dois contos, "The snows of Killimanjaro" e "The short happy life of Francis Macomber". Esses contos, inventei com base no conhecimento e na experiência que havia adquirido naquele mesmo mês de longas caçadas do qual tentei dar um relato fiel em The green hills. To have and have not e Across the river and into the trees começaram, os dois, como contos.

Pergunta: Acha fácil passar de um projeto literário para outro, ou o senhor segue direto num só projeto, para acabar o que começou?

Hemingway: O fato de estar interrompendo um trabalho sério para responder a essas perguntas prova que sou tão idiota que merecia receber um castigo terrível. E vou receber. Não se preocupe.

Pergunta: Vê-se competindo com outros escritores?

Hemingway:Nunca. Costumava tentar escrever melhor do que certos escritores já falecidos, aqueles que julgava terem realmente valor. Já há um bom tempo venho apenas tentando fazer o melhor que consigo. As vezes tenho sorte e escrevo melhor do que posso.

Pergunta: Acha que a força de um escritor diminui conforme ele envelhece? Em The green hills of Africa o senhor diz que os escritores norte-americanos com uma certa idade se transformam em "vovozinhas".

Hemingway:Não sei de nada disso. Pessoas que sabem o que fazem deveriam permanecer em atividade desde que suas cabeças continuassem em atividade. Nesse livro a que se referiu, se você olhar direito, vai ver que eu estava falando horrores sobre a literatura norte-americana com um austríaco completamente sem humor, que estava me forçando a conversar, quando o que eu queria era fazer outra coisa. Fiz um relato exato dessa conversa. Não para fazer pronunciamentos imorredouros. Uma boa porcentagem das opiniões é bem razoável.

Pergunta: Até agora não discutimos personagens. Os personagens de suas obras são, sem exceção, tirados da vida real?

Hemingway:Claro que não. Alguns vêm da vida real. A maioria você inventa a partir do conhecimento, da compreensão e da experiência com pessoas.

Pergunta: Poderia dizer alguma coisa sobre o processo de transformar um personagem real num personagem fictício?

Hemingway: Se fosse explicar como isso às vezes é feito, ia parecer um manual para advogados de acusação.

Pergunta:Faz alguma distinção - como faz E. M. Forster - entre personagens "planos" e "redondos"?

Hemingway: Se você descreve alguém, é plano, é como uma fotografia, e, no meu ponto de vista, uma falha. Se você cria esse alguém a partir daquilo que você conhece, ele terá todas as dimensões.

Pergunta:Dos seus personagens, quais são os que vê com um carinho especial?

Hemingway:Isso daria uma lista enorme.

Pergunta: Então gosta de reler seus próprios livros -sem sentir que existem coisas que gostaria de mudar?

Hemingway:Leio, às vezes, para me sentir incentivado quando está difícil escrever; então me lembro que sempre foi difícil e de como às vezes era quase impossível.

Pergunta: Como dá nome aos personagens?

Hemingway: O melhor que posso.

Pergunta: Os títulos lhe ocorrem enquanto está no processo de criação da história ?

Hemingway:Não. Faço uma relação de títulos depois que termino o conto ou o livro - às vezes chega a uns cem. Então começo a eliminar alguns, às vezes todos.

Pergunta:Faz isso até mesmo com uma história cujo título foi sugerido pelo próprio texto -"Hills like white elephants", por exemplo?

Hemingway:É. O título vem depois. Conheci uma garota em Prunier, onde eu tinha ido para comer ostras antes do almoço. Fiquei sabendo que ela havia abortado. Me aproximei e conversamos, não falamos sobre o aborto, mas no caminho de volta para casa fui pensando na história, não almocei, e passei a tarde escrevendo o conto.

Pergunta:ArchibÍlld MacLeish falou de um método de transmitir experiência que, segundo ele, o senhor desenvolveu quando cobria jogos de beisebol nos dias do Kansas City Star. O método consistia simplesmente na transmissão da experiência através de pequenos detalhes que, relatados tintim por tintim, acabavam dando a idéia do todo, fazendo com que o leitor ficasse consciente daquilo que ele já sabia, mas em seu subconsciente...

Hemingway:Essa historinha é apócrifa. Nunca cobri beisebol para O Star. O que Archie tentava se lembrar era de como eu estava tentando aprender, em Chicago, por volta de 1920, e de como eu procurava pelas coisas despercebidas, que revelavam a emoção, coisas como o jeito pelo qual o jogador de beisebol jogava a luva para trás sem olhar onde ela havia caído, o chiado da sola do lutador sobre a lona encerada, a tonalidade cinzenta da pele de Jack Blackburn assim que ele saía de uma luta, e outras coisas que eu anotava, como um pintor faz esboços. Você via a cor estranha de Blackbum, as cicatrizes de navalha e o jeito como ele acertava um homem, antes de saber a sua história. Eram essas as coisas que lhe davam emoção antes que você soubesse da história.

Pergunta: Já descreveu algum tipo de situação do qual não tivesse nenhum conhecimento pessoal?

Hemingway:Essa é uma pergunta muito estranha. Por conhecimento pessoal você quer dizer experiência? Nesse caso, a resposta é sim. Um escritor, se tem algum valor, não descreve. Ele inventa ou cria a partir do conhecimento pessoal e impessoal, e às vezes parece ter um conhecimento inexplicado que poderia vir da experiência familiar e racial já esquecida. Quem ensina o pombo­correio a voar como ele voa; de onde o touro tira a sua bravura, ou o cão de caça o seu faro? Isso é uma elaboração, ou uma condensação, daquilo que conversamos em Madri, quando a minha cabeça não estava muito confiável.

Pergunta: Poderia dizer até que ponto, na sua opinião, o escritor deve se preocupar com os problemas sócio-políticos de sua época ?

Hemingway:Cada um tem sua própria consciência, e não deveriam existir regras sobre como a consciência deve funcionar. Tudo que você pode ter cer teza a respeito de um escritor com preocupações políticas é que, se a obra dele permanecer viva, você vai ter que ignorar a política quando o ler. Muitos dos chamados escritores engajados mudam de ideologia a toda hora. Isso é muito estimulante para eles e para suas resenhas político-literárias. As vezes têm até que reescrever seus pontos de vista e na maior pressa. Talvez dê para se respeitar esse tipo de atitude como uma forma de se buscar a felicidade.

Pergunta:Existiria alguma intenção didática em sua obra?

Hemingway: Didática é palavra que tem sido usada erroneamente e se estragou. Death in the afternoon é um livro instrutivo.

Pergunta: Tem-se falado que os escritores trabalham apenas com uma ou duas idéias no decorrer de suas obras. Diria que a sua obra reflete uma ou duas idéias?

Hemingway: Quem disse isso? Parece simples demais. O homem que disse isso provavelmente tinha só uma ou duas idéias.

Pergunta: Bem, talvez fosse melhor colocar as coisas da seguinte maneira: Graham Greene disse que existe uma paixão predominante, que confere a um conjunto de obras a unidade de um sistema. Se não me engano, o senhor mesmo disse que grandes textos nascem de um senso de injustiça. Considera isso um fator importante, que o romancista seja dominado dessa maneira por tal senso de injustiça?

Hemingway: Graham Greene tem uma facilidade para fazer declarações que eu não tenho de modo algum. Para mim seria impossível tecer generaliza.; ções sobre um conjunto de obras, um bando de perdizes ou um pelotão de gansos. Mesmo assim, vou arriscar uma generalização. Um escritor sem senso de justiça e injustiça ganharia mais editando o anuário de uma escola para crianças excepcionais do que escrevendo romances. Outra generalização. Viu só? Até que elas não são tão difíceis, quando são óbvias o suficiente. O dom mais importante para um bom escritor é um detector interno de baboseiras à prova de choque. Esse é o radar do escritor e todos os grandes escritores ti veram um.

Pergunta: Para encerrar, uma pergunta essencial: como escritor criativo que é, qual considera ser a função da sua arte? Por que a representação do fato, em vez do fato em si?

Hemingway:Por que ficar quebrando a cabeça com isso? De coisas que aconteceram, de coisas que estão acontecendo, e de todas as coisas que você conhece e de todas aquelas que não pode conhecer, você cria algo com a jmagi­nação, algo que não é uma representação, mas sim uma coisa inteiramente nova, mais real do que qualquer coisa viva e real, e você dá vida a essa coisa, e se fizer isso bem o bastante, você lhe confere imortalidade? por isso que se escreve, não por qualquer outra razão que possa vir a conhecer. Ma!' e todas aque­las razões que ninguém conhece?

PARA O ZÉ ELIAS

FROM WASHINGTON
Por Diogo Costa Sousa

Abraco velho

Viste o " pros e contras"?

Os economistas estavam de acordo com o que escrevi e que esta aqui na " gaveta"A jornalista do " publico" , a meu ver mal informada ou poluida politicamente divagou contra a Alemanha....
Achava ela que os trabalhadores ( contribuintes) alemaes devem pagar de bom animo os desgovernos du sul europeu em nome da solidariedade para com gregos que nao trabalham a' terca e quinta a' tarde e sao pagos 15 meses por ano... E a diarreia mental continuou por ali adiante... Reformas aos 55 anos e a dos alemaes aos 65!
Enfim joao e' a informacao na mao de quem nao tem a minima ideia ou sentido do que e' a vida real!...
O ponto a retirar por mim e' este:-- a europa como esta' " desenhada" nao vai a lado nenhum!
Nao me surpreendia nada se visse a Alemanha sair do euro voltar ao Marco e deixar os outros numa moeda ficticia e mal gerida desde o principio com um valor artificial e mantido nao sobre uma verdadeira economia mas sobre o maniaquismos de politicos vaidosos!
Abraco meu caro!
Diogo

APETECIA-ME

Mandar este texto ao Zé Elias. Porque ele é que percebe disto.
A tua erudição e o teu olho clínico brilham mais neste terreno. Em política, aprecio-te a visão global e o sentido de equilíbrio. Tens boa capacidade de análise, tens vistas largas e és uma pessoa estimada e notada. È caso para dizer, não foste tu o parceiro de carteira do Bernardo; o Bernardo Estanco do s Santos é que foi teu parceiro.

Abraço

JBS



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

OS SALÁRIOS


OS SALÁRIOS


A Adm. Do Banco de Portugal vai reduzir os salários dos Administradores e do pessoal administrativo. A notícia até parece que encerra uma grande novidade e que contem em si grande significado.

Em meu entender os salários são, ou deveriam ser, intocáveis.

Ainda não vi nenhuma manifestação de desagrado e deveria haver. Entendo que em primeiro lugar se deveriam evitar situações BPN e outras que foram abusivamente realizadas.

A diminuição de salários é uma forma camuflada de tentar resolver uma situação caótica.
JBS

domingo, 16 de janeiro de 2011

ACADÉMICA / BENFICA

OPINIÃO

A Académica fez um bom jogo, teve dois lances de baliza aberta que falhou enquanto ao Benfica foram-lhe negados duas grandes penalidades limpas.

O lance do golo do Benfica, vi agora na televisão, foi limpo, apesar de Saviola estar adiantado não influencia no golo cuja, bola lhe vai bater à mão. Penso eu.

O Benfica acusou a responsbailidae do jogo. Ganhou.

JBS

OS COSTELETAS

TENHO ACOMPANHADO.

E é com agrado que verifico que a alma está lá. Surgiu agora o Montinho em grande estilo e tem estado muito bem. Não é fácl ter aquelas ideias. Aquela do idiota está muito bem metida. Só que, a pessoa, apenas é conhecida pela malta de 40.
A vida é aquilo que o Montinho diz, uma espécie de vida ao contrário, no fim de contas, uma coisa complicada.
Vou seguir os conselhos do Montinho.

JBS

sábado, 15 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

COMPLETAMENTE DE ACORDO

PARABENS Dr. Mário Soares

Os VENCIDOS DA VIDA de hoje.
por Dr. Mário Soares (Visão)

Irritam-me os portugueses que se comprazem em dizer mal de Portugal. Tudo é negro no nosso país e tudo vai ser pior. Esta moda, snob, vem desde os "vencidos da vida", uma tertúlia chique, criada em finais do século XIX, por reputados intelectuais, escritores e aristocratas, como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Carlos Mayer, Guerra Junqueiro, António Cândido, marquês de Soveral, conde de Ficalho, Lobo d'Ávila e outros mais, que marcaram a sociedade portuguesa da época, com o seu aristocrático pessimismo e a necessidade que sentiam de idolatrar a França e a cultura francesa.
O rei D. Carlos era também um apaixonado da França, que visitava regularmente. Era, aliás, mal casado com uma francesa, a rainha D. Amélia de Orleães, e quando ia a Paris, "respirar civilização", comprazia-se, à partida, a dizer aos seus acompanhantes: lá vamos voltar para "a nossa piolheira". Foi esse desprezo por Portugal e pelo Povo Português - sobretudo após a cedência ao ultimato inglês - que conduziu ao 31 de Janeiro, a primeira Revolução Republicana (frustrada) que teve lugar no Porto, e depois ao regicídio e ao 5 de Outubro.
O movimento republicano teve sempre, assim, um cunho acentuadamente patriótico, desde a celebração do tricentenário de Camões, em 1890, que levou, em 1916, a República a participar na I Grande Guerra, essencialmente para defesa das nossas colónias, ameaçadas pelos apetites de expansão de Inglaterra e da Alemanha, com origem no mapa ?cor-de-rosa e na Conferência de Berlim.Vem isto a propósito da irritação - e da tristeza - que me provocam as diatribes de muitos comentadores encartados e economicistas que só veem os números - e não as pessoas, que são o que conta - quando nos procuram convencer que "Portugal está falido, vai deixar de ser um país independente" e outras diatribes sem sentido. Até porque não nos dizem nunca o principal, isto é: como vamos sair da crise que nos afeta, vinda da União Europeia... A verdade é que a maioria dos portugueses, das nossas elites, não conhece o que se passa em Portugal e os progressos incomparáveis que fizemos desde o 25 de Abril. Desprezam os progressos materiais - que são incontestáveis - e o salto imenso que demos, quanto ao prestígio de Portugal no mundo, ao sucesso internacional da Revolução dos Cravos e a influência que teve em todos os continentes, bem como o patamar em que hoje os portugueses estão, em todos os domínios: Ciência, Artes, Tecnologia, Investigação, Cultura, Informática e até no Desporto...
Pertenço ao Júri do Prémio Pessoa e todos os anos, na reclusão do Hotel de Seteais, em Sintra, tenho o gosto de estudar e trocar impressões com os meus colegas, sobre os inúmeros candidatos que nos dão a escolher, em todos os domínios do conhecimento. É impressionante e reconfortante. Este ano, atribuímos o prémio a uma prof.ª, médica, investigadora chefe de um Centro que funciona na Faculdade de Medicina de Lisboa, com dezenas de investigadores doutorados, em Portugal e no estrangeiro, que estudam os mecanismos básicos nas células humanas. Trata-se de um Centro de excelência, de grande prestígio internacional, obviamente nos meios científicos da especialidade.A prof.ª que dirige o Centro e à qual foi atribuído o prémio chama-se Maria Carmo Fonseca. É uma cientista altamente reputada e reconhecida nos meios científicos. Discreta, portuguesa dos sete costados, com uns olhos glaucos, que revelam a sua extraordinária inteligência. É um exemplo - um simples exemplo - do Portugal livre em que vivemos, em que se fazem descobertas e estudos, admirados por todo o mundo, que os derrotistas, que todos os dias entram pelas nossas casas, pelas televisões, não conhecem, porque nada sabem das pessoas - o capital mais precioso - e só se ocupam dos dinheiros e das taxas dos juros, que todos os dias sobem ou descem, na economia virtual em que persistimos em viver..
Retirado da Visão
por JBS

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CRITICA LITERÁRIA

AO MEU LIVRO "COMO SE GOSTASSE"
Por Américo Pires Ramos

Amigo João.

Haja saúde.
Como me pediu, aí vai a minha opinião sobre o seu livro "COMO SE GOSTASSE".

Ora, o que dizer do livro (que sais je...)

Porquê?

A chave está na página 99

O que eu encontro neste livro encontrei também nos livros "LUCIDEZ DE PENSAMENTO" e "SONETOS IMPERFEITOS"

E o que é que eu encontrei?

Encontrei,

um professor,

De História, Geografia,Moral, Ciências Económicas e Financeiras, Filsofia, Amante 5 estrelas e poeta.

Haverá algum leitor, dito como tal, que exija mais do que isto? é impossível...

O lugar exacto deste livro e na biblioteca ao lado dum Atlas, dum Dicionário, pois é um verdadeiro guia.

Como vê goste imenso do livro.

CARO AMIGO,

Sinto-me grato pela apreciação que faz do livro
Deixo-lhe um abraço.

João Brito Sousa


Favor consultar o blogue

http://apcgorjeios.blogspot.com/

Livros, ofertas de Natal.

João Brito Sousa

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O MELHOR DO MUNDO

PARABENS.

Quando José Mourinho começou a carreira, vi nele grande futuro porque lidava bem com a polémica, que penso ser o seu ponto forte.

José Mourinho tem uma resposta provocadora que no futebol funciona. Ganha-se com as palavras.

Nunca foi nome sonante do futebol , como jogador, apesar de ter jogado federado, mas penso que não passou dos juniores.
Acho que o prémio é merecido, porque conhece bem os meandros do futebol. Veja-se como ele se comportou no palco na hora de receber o prémio.Falou pouco, em português, cara de poucos amigos, falou dos seus jogadores e da família.
De tácticas saberá igual aos outros, leitura de jogo idem, relacionamento com os jogadores sabe mais e é excepcional, relacionamento com dirgentes e outros agentes ligados ao clube o suficiente.
Pontos altos da sua carreira. Quando foi para o Chelsea Boby Robson convidou-o para almoçar e Mourinho disse não. Rejeitou. Disse que a esposa iria tomar chá com a senhora Robson. Este não foi uma grande vitória pessoal.
Fazer do Inter campeão com aquela equipa de "velhos" não está ao alcance de mais ninguém. Só de José Mourinho que por isso é o melhor.

O casamento parece-me sólido. A referência à família em todos ou quase todos os momentos é fundamental.

Os grandes trunfos de Mourinho estão na liderança.

Penso eu.

JBS

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

CAVACO E AS ACÇÕES


O LUCRO DE 140 %

Aníbal Cavaco Silva tem passado as passas do Algarve na campanha para a residência da REPÚBLICA. Manuel Alegre e Defensor de Moura têm-lhe chegado bem. Chegaram ao ponto de vir dizer que o homem tinha vendido as acções adquiridas na SLN uma empresa do BPN com um lucro de 140 %.

Até foi, mas esse indicador induz numa outra coisa, a raiar lucros fabulosos, quando na verdade os 140 % de lucro resultou de CS comprar as acções a um euro cada e vendê-las a 2. 40.

Sem contrato.

O contrato de venda das acções que o actual Presidente da República detinha na SLN, sociedade proprietária do BPN, afinal não existe. O diário "i" noticia hoje que os acordos de recompra eram feitos directamente com Oliveira e Costa, pelo que não há documentação a comprovar os negócios de Cavaco Silva.

Mas penso que há aqui uma instituição que MA poderá embirrar, que seria o Banco de Portugal, que tem como função principal fiscalizar as entidades bancárias.

E não o fez.

Alberto Queiroga Figueiredo, presidente da SLN Valor, membro da Comissão de Honra de Cavaco: "Não existe contrato. Os únicos contratos que existiam eram contratos de recompra, o que não é o caso".

Estranho o Banco de Portugal, não topar esta situação.
O preço de venda – 2,4 euros, o que representou uma mais-valia de 140% – até foi mais barato do que se pensava. O semanário "Sol" noticia hoje que, na altura em que Cavaco vendeu, houve acordos que previam um preço de 2,75 euros por acção. "As acções de Cavaco - adquiridas em 2001, por um euro cada - foram compradas pela SLN, dois anos depois, pelo preço unitário de 2,4 euros, quando o preço que esta já praticava era de 2,75. Cavaco perdeu, assim, cerca de 36.682 euros", escreve o semanário.
De qualquer forma, a operação esteve isenta de tributação. Isto porque, à altura da operação (2003), o Código do IRS previa a isenção do pagamento de mais-valias provenientes da alienação de acções detidas há mais de 12 meses.

A ser verdade o que deixo escrito, parte retirado da imprensa, agora sou eu que acho que MA deveria reequacionar o que disse, pois a sua pergunta “a quem vendeu Cavaco as acções” não é legítima.

Abater CS por abater não.
JBS