terça-feira, 9 de novembro de 2010

A PRIMEIRA PÁGINA DO MEU QUINTO ROMANCE

FUI EU QUE ESCREVI MAS ACHO LINDO.

SEM TÍTULO, AINDA

São 7 horas e vinte minutos da tarde e vou começar o meu quinto romance. Sei apenas que já comecei a escrever. E agora não há hipótese de voltar para trás.. Falar de quê? Zero de ideias e quero escrever trezentas páginas. Uma por dia e no dia dos meus anos a obra vai chegar ao fim. Não tenho dúvidas nenhumas. E mais, até o posso acabar antes. Quando estou de maré escrevo com bastante fluidez até. Sou uma espécie de Torga nas fragas; aqui a poesia brota, costumava dizer esse “velho” combatente das letras, homem admirável que nunca se vergou, nem perante a vida nem perante nada, Torga é um exemplo a seguir, homem do norte do País, que discutiu a vida com a vida, numa luta incessante de desafio permanente, palmo a palmo, procurando os melhores argumentos para vencer, venceu umas vezes e perdeu outras, mas não se aguentou no último combate, aquele onde todos perdemos.
A vida não agradou a Torga, como não agradou a Raul Brandão, como penso não terá agradado nunca a ninguém. Insisto nisto porque entendo ser este o ângulo certo para a apreciar. A vida terá que ser vista por esta janela, pois estou convencido que muitas arbitrariedades que se têm processado seriam facilmente evitáveis. O verdadeiro valor da vida é precisamente não ter valor nenhum, na opinião de Torga.. Porque pode acabar de um momento para o outro sem se justificar e sem ter um pouco de sensibilidade para adiar essa momento. e sem respeito por um projecto que tínhamos começado, com todo o empenho e dedicação. Mas se ela quiser nada disto chega ao fim; nem projecto, nem empenho, nem vitória, nem nós, nem nada. Ela, a vida, é que é a mais forte. Devíamos todos saber disto porque estou convencido que nos tornaríamos mais humildes. E fazendo aquilo que mais gostamos poderíamos ter a esperança de ser felizes.
Eu, por exemplo gosto de escrever e procuro a felicidade por essa via. Haverá outras vias mas a minha, aquela onde me sinto melhor, é na convivência com o teclado. Num certo sentido, diria, que a minha forma de escrever ou aquilo que escrevo vai na direcção daquilo que eu gosto de ler. Escrevo e gosto do que escrevo. Mas diria que aprecio um romance simples, que fale das coisas simples da vida, porque a vida é o meu lema e entendo que deverá ser simples e se não for, temos a obrigação de a tornar simples. De forma a torná-la mais saborosa. No fundo, o que se pretende é vivermos uma vida próxima da vida e viver de bem com ela. Sorrir para ela. A vida vive-se levando-lhe emoções através das palavras. Mas precisamos de saber lidar com ela, de a saber ler, mais no sentido de a saber interpretar, mais de a perceber, que ao fim e ao cabo é tão difícil como a saber escrever. Eu disse sabê-la ler, entendido. Porque eu por mim procuro entendê-la saber escrever, luto por isso e sei que é um objectivo nunca conseguido. O escritor quer sempre mais, anseia, procura, despe-se de tudo para fazer o melhor. Ele e a noite debatem-se por uma conclusão. Victor Hugo começava a escrita da vida às oito da manhã, Teixeira de Pascoaes também escrevia de manhã, António Lobo Antunes iniciava os trabalhos às duas da tarde e Miguel Sousa Tavares ligava bem com a noite. Todos grandes talentos, grandes mestres.
Comecei a escrever por influência da professora primária. Senti que tinha jeito, ou julguei que tinha ou pensei que tinha e meti-me à estrada. Tive os meus mestres e descobri com Vergílio Ferreira que o escritor terá como missão fazer tocar a mensagem no coração do leitor, tinha que o pôr pensar, teria que o motivar para a vida, para a luta, para o desafio, para a vitória possível, porque a vitória total não existe, o que é isso de vitória, não há vitórias, há a ética, sim, esse talvez que possa conduzir a um estatuto de honra, de seriedade, de dignidade, dessas coisas todas que tornam um homem livre e decidido, frontal e ganhador, dos que arriscam. O escritor sabe disso e é dele a obrigação de estudar a matéria e ensinar. Não, não vou por aí, diz o poeta.

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