domingo, 28 de setembro de 2008

IMPRENSA / Visão

EM AGOSTO
por António Lobo Antunes


O mês de agosto passado em casa, a escrever, almoçando e jantando nos restaurantezitos em torno. Sinto-me bem nestes sítios modestos, de ementa escrita a lápis, onde me fazem a conta na toalha de papel e me tratam por senhor António, com o respeito devido ao melhor escritor da rua. Conheço os sem-abrigo, as prostitutas, os travestis, oshomens que comem sozinhos

(tantos homens que comem sozinhos, a começar por mim)

e de quem, a pouco e pouco, vou decifrando a vida: retratos de fi lhos puxados da carteira, doenças, viuvezes. Mostram-me análises, queixam-se da tensão, sabem mais de mim do que eu pensava: sou a celebridade do bairro, até nas lojas de paquistaneses, que me servem de supermercado, me topam. E perdoam-me se por distracção não respondo a um cumprimento
– Está sempre a olhar para dentro, o senhor António

eu que julgava olhar para fora, na minha qualidade de gatuno, porque tenho levado os anos a roubar caras, gestos, palavras, coisas de que não dou conta e me aparecem depois. Um templo adventista aqui perto, onde no domingo passado um casamento de africanos. Dúzias deles. E uma alemã de penteado esquisitíssimo, a pedir esmola nos semáforos com um saco de plástico em cada mão. Pensõezinhas manhosas para encontros rápidos. Consultórios de dentistas a dar com um pau, sei lá porquê. Automóveis antigos. Lustres barrocos, à noite, para além das janelas abertas. O correio deixa-me as encomendas na mercearia ao lado, com o retrato da neta na prateleira do fundo. Parece que voltei à minha infância, a Benfi ca, a Nelas. Não me lembro se era feliz nessa época.

Se calhar era. Esqueci. Quer dizer não esqueci as casas nem as travessas: esqueci-me a mim, ou era outro então. Toda a gente viva nesse tempo. Tardes mais que compridas, infinitas, relógios preguiçosos. Hoje nem mastigam as horas, engolem-nas e o senhor António perde-se nas datas embora as ponha no alto das páginas em que faz o livro. Que livro estás a escrever, senhor António? Não sei. Mesmo depois de acabados não sei. E ainda que soubesse, de livros não falo.

Tantos prémios, tanto reconhecimento, tanta medalha, tanta tradução. Não sou velho mas pergunto-me se a unanimidade respeitosa não fará parte das doenças da velhice, a mais grave de todas. Se alguém diz mal de mim, alegra-me: ainda não apodreci, que bom.

Estranho agosto este na casa que o vazio aumenta e as férias da empregada vão embaciando de pó. Roupa que nunca mais acaba à espera dela no cesto. A mudez do telefone de que quase ninguém tem o número e eu nem triste nem contente, a visitar- me de manhã no espelho na altura da barba. Lá está o sujeito dos livros que não se diz bom dia, vai aparecendo à medida que rapa o creme. Em criança, quando me davam a sopa, fi xava-me no prato à espera da rã que saltava um muro, impressa no fundo. A partir de não sei quantas colheres ia surgindo a pouco e pouco, colorida, feliz, de suspensórios e calções

– Não quero mais, já se vê a rã
e insistiam
– Só esta
a mentirem-me porque o esta eram várias. Até rapavam a loiça
– É a última, a sério

e ao deslaçarem o babete da nuca magoavam-me sempre. Sopa de couves, sopa de feijão, sopa de ervilhas, a quantidade de sopas que me obrigaram a empanzinar, meu Deus. E bife raspado. E puré. E xarope no fim, de frascos de rótulo peganhento, tanto xarope que cá canta também. Bananas cortadas às rodelas e esmagadas com o garfo

– Quem quer crescer come bananas

e embora crescer não me dissesse grande coisa comia. Apesar de não se achar à frente na lista dos meus sonhos a ideia de ter óculos e tosse não me desagradava. E deitar-me às horas que queria, ler o jornal, botar opiniões. Usar anel isso sim, o que eu desejei usar um anel. E, já agora, um braço em gesso. Uma perna então nem se fala, com canadianas e tudo, coxear com majestade no corredor. Os meus pais a falarem francês ou inglês para a gente não perceber, e eu tentando decifrar aqueles mistérios que permanecem. Há qualquer coisa nos adultos que continua a escapar-me.

Certos olhares. Certas frases. Os suspiros desalentados de uma tia solteira. Conseguir argolinhas de fumo: nunca aprendi. O meu avô calado: não me recordo de nenhum contentamento nele, recordo-me que lia na varanda para a vinha e é tudo. O vento nos castanheiros à noite. Um senhor que anunciava ao ir-se embora

– Eu vou-me chegando

e o mês de agosto passado em casa, a escrever. Se eu conseguisse exprimir, sem ser nos livros, tudo o que tenho dentro, que mundo em chamas não seria, que nortada. Coisas tranquilas também, pequenas doçuras, dedos lentos pelas costas acima. Este inexplicável sentimento de eternidade, a rã do fundo que não aparecerá nunca. Duro cinco minutos: sou eterno. Duro vinte anos: sou eterno. Olha o senhor António que não acaba. A cabeça na lua e o corpo junto a nós, até que a cabeça se aproxima, os olhos, o nariz, a boca, vai baixando, baixando, e começa a sorrir.


Está no fi m desta crónica. Uma ou duas frases e pronto. Depois lanchauma torrada no cafezinho em frente e torna a escrever. Imenso sol lá fora, um par de gatos pequeninos, ainda sem medo, espantados. Não têm nome, não têm passado, a mãe inventou-os há dias. Não pertencem seja a quem for, são deles mesmos. Despeço-me de vocês. Ou seja

– Vou-me chegando

e desço as escadas, volto-me a acenar e desapareço no bairro para sempre. Há quantos anos não me ouviam assobiar uma cantiga qualquer, há quantos anos me não viam dar uma pirueta na rua, ou seja bater os calcanhares um no outro a meio de um saltinho? Não vale a pena correrem à esquina a procurar-me: não estou lá.

publicação de
JOÃO BRITO SOUSA

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