sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A VENDA DO ALFREDO


ALFREDO SHOP; THE LAST,
texto retirado de apcgorjeios.gblogspot.com



A asae atacou e a última "venda" dos Gorjões fechou as portas. A asae atacou a última "venda" de mercearias e taberna mas sobretudo atacou o sítio fechando o único local aberto ao público e prestador de um serviço social necessário ao povo deste pequeno lugarejo do barrocal à beira da serra. E atacou a honorabilidade do Alfredo, seu impoluto proprietário com oitenta e dois anos e desde os quinze a trabalhar no ramo com elevada estima e amizade de toda a população local.


Que sabem os asaes, polícias burocratas da lei, de história de um lugar perdido no campo e de um Homem que dedicou a vida inteira a ter à venda, todos os dias, o necessário indispensável para as mulheres fazerem a marmita do almoço diário do dia de trabalho dos homens. Que sabem os asaes, homens-robot do tempo sem alma, dos tempos antigos quando a única vida social e convívio das gentes locais era feita, aos domingos apenas, à volta duma mesa e uma rodada de copos cheios ou um baralho de cartas.


Que sabem os asaes recém-nascidos sobre vender para "apontar" fornecendo um serviço de crédito baseado na confiança e integridade entre partes. Que sabem, afinal, os homúnculos asae, sobre bons e maus produtos ou sobre limpeza e higiéne comparados com o Alfredo que toda a vida comprou e vendeu sem uma única reclamação, briga ou inimizade com alguém. A "venda" do Alfredo não exibia o brilho ofuscante novo-rico do inox, nem as paredes e chão forradas dos lustrosos azulejos que bastam e enganam os olhos.


Não, na "venda" do Alfredo havia e sentia-se o asseio das mãos limpas cheias de nobreza humilde, metia-se na mesma bolsa batatas e pão com a mesma dignidade com que se distribuia bondade, honestidade e amizade a todos. Na "venda" do Alfredo todos tinham, à mão, um amigo há longo tempo, face à brutalidade asae vamos tê-lo no coração.


publicação de

joão brito sousa

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

IMPRENSA/ DN


AÍ ESTÁ ELE, DE NOVO!
Baptista-BastosEscritor e jornalista - b.bastos@netcabo.pt

Por mais que me custe interromper o alarido assanhado e obstrutivo por aí disperso, continuo a dizer da pátria, dos costumes e da fancaria. Falava dos ziguezagues da política, sob o modesto pretexto de criticar as suas tentações para a irresponsabilidade. Ia no ponto e vírgula. Eis que surge a campanha pró-município.

Não é fatalidade: é farsa. Se a esquerda parece uma daquelas escorrências do Miguel Sousa Tavares, a que ele chama artigos, a direita representa-se como hilariante comédia de Gervásio Lobato. Vivemos numa atmosfera de absurdo e dissimulação. Manuela Ferreira Leite concedeu, austera e firme, o nihil obstat à ressurreição de Santana Lopes. Nada a dizer: é lá com eles.

Especialmente com Pacheco Pereira, mentor político e ideológico da presidente do PSD, e crudelíssimo crítico de Santana, pelo qual nunca disfarçou o maior dos desprezos. O Pacheco deve estar espavorido. Ou perdeu crédito, ou foi exautorado ou, simplesmente, ignorado e colocado ante um facto concluído. Na assombrosa epopeia da nossa história cómico--política, Santana Lopes sempre passou de nome funerário à refulgente virtude de condestável. Pessoalmente, estou deveras preocupado com o Pacheco e seu destino. Não é que ele seja só testa. Notoriamente, possui mais do o que caracterizava o seu homónimo da Correspondência de Fradique Mendes; mas não deixa de ser um produto de Portugal: sujeito,

portanto, às oscilações do meio e à natureza que o impulsiona para astuciosos avanços - ou o remove para tormentosos recuos. O Pacheco, nesta cruzada de purificação que empreendeu, já há anos, Santiago o proteja!, perdeu estrondosamente. E Santana é, novamente, o estrénuo vencedor. Atrás dele, uma corte solene, leal e inabalável, detestada pelo Pacheco. Santana tem amigos e muitas amigas.

O Pacheco nem, sequer, instantes de amizade. Caso a dr.ª Manuela Ferreira Leite houvesse em atenção os seus avisos, as coisas seriam como são? Infere-se que abstraiu o conselheiro e decidiu por si própria ou após outro aconselhamento. Mas esta solução contraria o austero espírito da senhora que, propriamente, não traz a foto de Santana próximo do coração. Santana cultiva a frivolidade, aprecia a noite, é um courreur à femmes. A dr.ª Manuela é pessoa de recolhimento, dada ao agasalho do silêncio, contrária à agitação, à festa.

Que determinou a alteração da senhora, ao designar Santana como candidato ao município de Lisboa? A dr.ª Manuela cedeu às instigações da "visibilidade" e ilustrou a tese de que a política desconhece a ética e a função próprias. Como muito jornalismo circundante. Haja Deus e haja Freud! No momento. Os amigos presentes. Sempre. No meio do alarido, dezenas de mails, telefonemas, cartas e sinais de respeito e afecto.
publicação de
João Brito Sousa

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

IMPRENSA/ EXPRESSO


IMPUNIDADES

por MST


Enquanto as altas esferas do PSD conspiram para voltar a entregar Lisboa a Santana Lopes, a Câmara em funções entrega mais uma fatia de rio à Fundação Champalimaud e alguns dos 3200 beneficiários das habitações camarárias atribuídas por ‘cunha’ acham-se exemplos de transparência e ‘liberdade’. E ainda nos sobra ânimo para ir aplaudir Tony Blair pelo estado em que deixou o mundo. É uma casinha portuguesa, com certeza 1Tony Blair veio fazer uma palestra a Lisboa, para a habitual plateia de decisores políticos e económicos. Depois de dez anos a governar a Inglaterra em nome dos trabalhistas, Blair é hoje um dos homens mais bem pagos da Europa, cobrando entre 125 mil e 250 mil euros por cada uma destas conferências, além do salário de luxo que recebe como consultor de um desses bancos americanos que agora estão no olho do furacão da crise financeira mundial. Também é enviado especial da ONU para o Médio-Oriente, mas, nessas funções, tem-se revelado bem menos empenhado e eficaz do que a fazer conferências.


Como herança interna, Blair deixou um défice monumental nas contas públicas inglesas, arruinou o mítico Serviço Nacional de Saúde (ao ponto de ser o líder dos «tories», David Cameron, quem hoje faz o papel de defensor público do SNS), deixou umas centenas de mortos ingleses no Iraque e o país ligado ao desfecho da aventura de Bush (para a qual

Blair foi o primeiro dos apoiantes), e, para rematar em beleza, deixou toda a economia inglesa refém da tragédia de Wall Street.

Seria de esperar da sua parte talvez alguma humildade, algum embaraço, quem sabe mesmo, alguma vergonha: afinal de contas, ele foi um dos principais responsáveis pelo estado do mundo e ainda anda a facturar fortunas a falar dos ‘problemas’ que ajudou decisivamente a criar! Mas, se alguém esperava tal coisa, esperou em vão. Descontraído e sorridente, Tony Blair puxou de umas notas avulsas e deu conta das suas recentes andanças pelo mundo: esteve em Pequim, nos Jogos Olímpicos, esteve no deserto, numa tenda com Kadhafi, esteve aqui e ali, derramando a sua vasta experiência sobre os ‘problemas’, para poder concluir em Lisboa que “os problemas são globais e precisam de soluções globais”. Mais uns quantos lugares-comuns de profundidade semelhante e a repetição de que o trabalho tem de ser flexível e a Segurança Social tem de ser reestruturada. E pronto. Suponho que lhe terão batido palmas e agradecido muito a lição e o incómodo. E lá se foi Tony Blair, sorridente, para o seu próximo compromisso global. É assim que se governa o mundo, nos tempos de agora.

2 Já aqui falei antes sobre um problema particular que o PSD, o país e todos nós temos: ter de estar sempre a encontrar uma ocupação para Santana Lopes. E tem de ser uma ocupação política e um cargo público, porque é tudo o que ele quer e pode. Agora, germina no PSD a originalíssima ideia de voltar a entregar ao ‘menino-guerreiro’ o ‘combate’ pela Câmara de Lisboa. Não admira que o próprio tenha já esclarecido que combates desses “não se recusam”. O que admira e confrange é que a gente que sabe o que a casa gasta, como Manuela Ferreira Leite ou Marcelo Rebelo de Sousa, estejam dispostos a voltar a entregar Lisboa ao pior presidente da Câmara que Lisboa teve, desde um tal Aquilino, do PS. O raciocínio é este: nós livramo-nos do Santana e, se os lisboetas votarem nele, o problema é deles. Sim, eu sei, a culpa é da ordem natural das coisas: a democracia é uma senhora sem memória nem pudor, uma espécie de maria-vai-com-todos. E, se são os próprios eleitores que estão dispostos a cobrir tudo com um manto de impunidade, porque não aproveitar?

3 António Champalimaud foi um dos raríssimos milionários deste país que, por morte, deixou parte da sua fortuna a uma Fundação a sério, dedicada ao bem público e a uma causa utilíssima. Mais, teve a visão de escolher para gerir os destinos da Fundação alguém com a capacidade de não defraudar o seu gesto, como é Leonor Beleza. Dito isto, confesso o meu desapontamento com a forma como a Fundação Champalimaud quer começar a intervir na coisa pública. Primeiro, tentou por todas as formas conseguir uma excepção às regras do ordenamento paisagístico para instalar a sua sede em zona de construção vedada, na área de paisagem protegida Sintra-Cascais. Frustrados os seus intentos, virou-se para Lisboa e acaba de conseguir que a CML (com o verbo de encher que se está a revelar António Costa), consentisse em suspender o PDM da cidade para que a Fundação, contrariando as regras em vigor para todos, possa edificar a sua sede à beira-rio, na zona de Pedrouços. Ou seja, uma Fundação que nasce para fazer o bem público, começa por exigir e obter privilégios no espaço público que resultam no prejuízo de um bem comum, como é o direito a usufruir livremente da frente do rio, sem a ver tapada por construções avulsas, negociadas por favor político ou pessoal. É pena. Porque isto diz muito acerca da prática instalada entre nós de que não existe iniciativa privada sem favor do Estado.Ali em frente, temos a Fundação Berardo, a quem o CCB emprestou toda a sua ala de exposições para ele colocar a sua colecção de pintura que não tinha onde pôr, e que empresta ao Estado. Sem espaço para mais nada, o CCB vai agora construir um novo módulo para exposições e, para o financiar, quer também construir um hotel. Se a exploração do hotel correr mal, são mais dois encargos a acrescentar à despesa pública. Para sustentar uma necessidade que não existia e que só passou a existir porque o Estado resolveu abrir mão de coisa sua para a oferecer a um ‘mecenas’.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

IMPRENSA DE HOJE / JN


METRO DIZ RESPEITO AO NORTE

Entrevista a Marques dos Santos, Reitor da Universidade do Porto

Como comenta o volte-face do Governo quanto à extensão da rede do Metro?
Não conheço em pormenor os estudos do metro. Porém, custa-se a admitir que seja o Poder Central a decidir sobre um problema local e que diz respeito à Região Norte. Quem está no Porto e no Norte sabe quais são as melhores soluções e sente o problema com outra acuidade. Na minha opinião, devia ser a Junta Metropolitana do Porto a decidir e espanta-me que sejam feitos estudos atrás de estudos e depois, dá a ideia que uns valem mais do que outros.
As críticas que refere levam-me a concluir que, caso a regionalização existisse, o metro podia andar mais depressa...
Não tenho dúvidas disso. As polémicas à volta do metro e outras que têm surgido no Porto são exemplos típicos de um Estado concentrado e sem um projecto de regionalização do país.
Alguns políticos dizem que o Norte está a ser discriminado: para o metro não há dinheiro, mas para o Sul, projecta-se novo aeroporto e mais pontes sobre o Tejo. Acompanha estas críticas?
Sim e repito o que já disse: com a
regionalização nada disso acontecia. Por vezes, fico com a ideia que somos uma país muito rico, mas não. Temos escassez de receitas e riqueza, mas tentamos imitar os países mais desenvolvidos, com níveis de riqueza elevados. Depois, demoramos também muito tempo a tomar decisões.
Mesmo sem conhecer muito bem as questões técnicas, qual prefere: a linha da Boavista ou Campo Alegre?
Do ponto de vista da Universidade, não tenho dúvidas que seria vantajoso a ligação dos pólos do Campo Alegre, Asprela e o centro da cidade.
Considera existir um braço-de-ferro entre Rui Rio e o Governo?
Dá a ideia que sim, o que é sempre a pior solução para solucionar o problema.

MEU COMENTÁRIO

O Dr. Marques dos Santos é uma pessoa que eu considerava, antes de voltar a alinhar na lamúria portuense, que são uns desgraçadinhos e os maus são esses gajos de LISBOA, como de certo modo insinuou o Engº Ludgero Marques, o patrão dos empresários do Norte.

A isto chamo eu “encanar a perna `a rã”, porque o tecido empresarial do Norte, o que queria, penso eu, era que fosse o Norte a comandar as tropas, o que não me agride minimamente, pois alguém terá de fazê-lo.
Mas se fosse essa a direccção da política nacional, será que estaria tudo bem? Será que o Norte seria justo? Não me parece, porquanto a empresa mais, mais rentável do Porto é o FCPorto, uma Instituição, injustamente campeã....
Portanto, estou em crer que, se a política saisse dos Gabinees do Porto, as injustiças seriam maiores.
O Dr. Marques dos Santos não deveria esquecer-se nunca, que é, em primeiro lugar Reitor da Universidade de Economia e depois, não devia esquecer-se que é professor. Ora, um professor ensina os outros... não vai na onda.

Estado concentrado Dr. MS? Quem são os culpados? Penso que essa responsabilidade é dos empresários do NORTE, que, à excepção de BELMIRO, estão todos lá por Lisboa.

Dr. MS, mais regionalização? Ou o senhor quer dizer mais tachos?

Dr MS, deixo-lhe uma pergunta. Com estas suas respostas, pensa que a região Norte ficou beneficiada? Se acha que sim eu entendo que o senhor disse apenas vulgaridades. Se acha que não, então porque deu a paupérrima entrevista ?

João Brito Sousa

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

IMPRENSA/ O JOGO


OPINIÃO

FCPORTO; GRANDEZA E HUMILHAÇÃO
in jornal "O JOGO"

Não concordo com a observação que li no jornal "o JOGO", que o "FCPorto" deveria ter assumido a sua grandeza"... Humilhação?...

Bom, vamos lá por partes,

1 - ASSUMIR A GRANDEZA.

Mas qual é a grandeza do FCPorto? È a obtida ao longo das temporadas em que estiveram à frente do clube os mesmos dirigentes que estão hoje? È a obtida no período em que o Dr. ADRIANO PINTO e o Dr. GONÇALVES PEREIRA estiveram `a frente dos destinos da AFP?...

Neste período o FCPorto não foi grande em nada, a não ser na dúvida que deixou em muita gente na forma como ganhou os jogos.

Ou,

È a grandeza obtida após decisão incomprensível do TAS? Ou é a grandeza conferida por mais de cem clubes que apoiaram a instittuição FCPorto sem honra nem glória.

Em minha opinião, a imprensa não tem razão, porque não há grandeza a assumir. O FCPorto, neste jogo, até foi grande porque os jogadores deram tudo o que tinham para dar.

2 - HUMILHAÇÃO?.. Não concordo. Os jogadores do Porto não se deram como vencidos e não se renderam. Acho que estiveram em campo num jogo onde não foram os melhores Neste aspecto Jesualdo tem razão; O FCPorto perdeu apenas três ponto.s...

GRANDEZA E HUMILHAÇÃO, palavras inadequadas ...

Há um comentário de um blogista que está de acordo como que digo, diz ele.
Quero agradecer o gesto de solidariedade e referir que a imprensa disse hoje que as escutas são válidas. Será assim...
João Brito Sousa

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

IMPRENSA /RECORD


COMPETÊNCIAS, ARBITRAGENS e ETC...
Por RUI CARTAXANA

O prof. Jesualdo Ferreira, que nos delicia nas suas frequentes rodadas de imprensa com considerações filosóficas sobre o mundo e as espécies que o habitam, resolveu desta vez falar dessa coisa comezinha que é o futebol. Para ser mais concreto de arbitragens. Foi assim que, partindo de uma notável, mas subtil, análise às consequências do malfadado processo do Apito Dourado, aquele professor chega a três notáveis conclusões:

1ª - no famoso jogo de Vila do Conde, de má memória para a sua equipa, o problema foi de “competências”;

2ª - não foi só o FC Porto que foi incompetente, a arbitragem também o foi;

3ª - trata-se, como é evidente, de uma consequência do Apito Dourado, como aliás, ele já previra antes de começar a Liga, apelando a que o Apito Dourado não fosse pretexto para arbitragens em prejuízo do FC Porto - como já estava a acontecer! Este brilhante raciocínio de Ferreira foi ilustrado com exemplos de “casos” verificados com os seus “rivais” de Lisboa. Com o Sporting, o penálti “cometido” por Tonel em Braga e, no último jogo, o golo de Postiga fora de jogo. Quanto ao Benfica, quando há penáltis a favor, marcam-se (Paços de Ferreira), para não falar no escândalo do caso Luisão – e aqui, pelo mérito e brilhantismo da arguição, dou a palavra ao Professor: “O Luisão foi castigado por via de sumaríssimo, mas isso não impediu que tivesse continuado em jogo depois de ter agredido um jogador nosso!”

Bem, vamos mas é falar a sério sobre este lamentável e desconexo arrazoado em nome daquela velha táctica tão ao estilo do agora silencioso presidente de Jesualdo, que, no impedimento do “original”, o tenta imitar. Mas que não faz mais do que confirmar aquela máxima segundo a qual as imitações são sempre piores que o original. Estamos na 3ª jornada do Campeonato, o processo Apito Dourado começou há mais de 5 anos (com os árbitros e todos os implicados a serem ouvidos, etc.) e Jesualdo Ferreira descobre “agora” que os árbitros “vão” prejudicar o FC Porto! Pior ainda é aquela de lamentar que o Luisão, objecto de um sumaríssimo, “tivesse continuado a jogar até final do jogo depois de ter agredido um jogador nosso”. E por falar em competências, Jesualdo tem obrigação de saber que um sumaríssimo só pode existir por alegadas faltas não vistas nem penalizadas pelo árbitro e que, em caso de punição, ela será sempre aplicada à posteriori. Ora abóbora.

publicado por
João Brito Sousa
COMENTÁRIO
Estou totalmente ao lado de RUI CARTAXANA; e contra o clube de batoteiros como foi apelidado pelo Presidente da UEFA.
JBS

domingo, 28 de setembro de 2008

IMPRENSA / Visão

EM AGOSTO
por António Lobo Antunes


O mês de agosto passado em casa, a escrever, almoçando e jantando nos restaurantezitos em torno. Sinto-me bem nestes sítios modestos, de ementa escrita a lápis, onde me fazem a conta na toalha de papel e me tratam por senhor António, com o respeito devido ao melhor escritor da rua. Conheço os sem-abrigo, as prostitutas, os travestis, oshomens que comem sozinhos

(tantos homens que comem sozinhos, a começar por mim)

e de quem, a pouco e pouco, vou decifrando a vida: retratos de fi lhos puxados da carteira, doenças, viuvezes. Mostram-me análises, queixam-se da tensão, sabem mais de mim do que eu pensava: sou a celebridade do bairro, até nas lojas de paquistaneses, que me servem de supermercado, me topam. E perdoam-me se por distracção não respondo a um cumprimento
– Está sempre a olhar para dentro, o senhor António

eu que julgava olhar para fora, na minha qualidade de gatuno, porque tenho levado os anos a roubar caras, gestos, palavras, coisas de que não dou conta e me aparecem depois. Um templo adventista aqui perto, onde no domingo passado um casamento de africanos. Dúzias deles. E uma alemã de penteado esquisitíssimo, a pedir esmola nos semáforos com um saco de plástico em cada mão. Pensõezinhas manhosas para encontros rápidos. Consultórios de dentistas a dar com um pau, sei lá porquê. Automóveis antigos. Lustres barrocos, à noite, para além das janelas abertas. O correio deixa-me as encomendas na mercearia ao lado, com o retrato da neta na prateleira do fundo. Parece que voltei à minha infância, a Benfi ca, a Nelas. Não me lembro se era feliz nessa época.

Se calhar era. Esqueci. Quer dizer não esqueci as casas nem as travessas: esqueci-me a mim, ou era outro então. Toda a gente viva nesse tempo. Tardes mais que compridas, infinitas, relógios preguiçosos. Hoje nem mastigam as horas, engolem-nas e o senhor António perde-se nas datas embora as ponha no alto das páginas em que faz o livro. Que livro estás a escrever, senhor António? Não sei. Mesmo depois de acabados não sei. E ainda que soubesse, de livros não falo.

Tantos prémios, tanto reconhecimento, tanta medalha, tanta tradução. Não sou velho mas pergunto-me se a unanimidade respeitosa não fará parte das doenças da velhice, a mais grave de todas. Se alguém diz mal de mim, alegra-me: ainda não apodreci, que bom.

Estranho agosto este na casa que o vazio aumenta e as férias da empregada vão embaciando de pó. Roupa que nunca mais acaba à espera dela no cesto. A mudez do telefone de que quase ninguém tem o número e eu nem triste nem contente, a visitar- me de manhã no espelho na altura da barba. Lá está o sujeito dos livros que não se diz bom dia, vai aparecendo à medida que rapa o creme. Em criança, quando me davam a sopa, fi xava-me no prato à espera da rã que saltava um muro, impressa no fundo. A partir de não sei quantas colheres ia surgindo a pouco e pouco, colorida, feliz, de suspensórios e calções

– Não quero mais, já se vê a rã
e insistiam
– Só esta
a mentirem-me porque o esta eram várias. Até rapavam a loiça
– É a última, a sério

e ao deslaçarem o babete da nuca magoavam-me sempre. Sopa de couves, sopa de feijão, sopa de ervilhas, a quantidade de sopas que me obrigaram a empanzinar, meu Deus. E bife raspado. E puré. E xarope no fim, de frascos de rótulo peganhento, tanto xarope que cá canta também. Bananas cortadas às rodelas e esmagadas com o garfo

– Quem quer crescer come bananas

e embora crescer não me dissesse grande coisa comia. Apesar de não se achar à frente na lista dos meus sonhos a ideia de ter óculos e tosse não me desagradava. E deitar-me às horas que queria, ler o jornal, botar opiniões. Usar anel isso sim, o que eu desejei usar um anel. E, já agora, um braço em gesso. Uma perna então nem se fala, com canadianas e tudo, coxear com majestade no corredor. Os meus pais a falarem francês ou inglês para a gente não perceber, e eu tentando decifrar aqueles mistérios que permanecem. Há qualquer coisa nos adultos que continua a escapar-me.

Certos olhares. Certas frases. Os suspiros desalentados de uma tia solteira. Conseguir argolinhas de fumo: nunca aprendi. O meu avô calado: não me recordo de nenhum contentamento nele, recordo-me que lia na varanda para a vinha e é tudo. O vento nos castanheiros à noite. Um senhor que anunciava ao ir-se embora

– Eu vou-me chegando

e o mês de agosto passado em casa, a escrever. Se eu conseguisse exprimir, sem ser nos livros, tudo o que tenho dentro, que mundo em chamas não seria, que nortada. Coisas tranquilas também, pequenas doçuras, dedos lentos pelas costas acima. Este inexplicável sentimento de eternidade, a rã do fundo que não aparecerá nunca. Duro cinco minutos: sou eterno. Duro vinte anos: sou eterno. Olha o senhor António que não acaba. A cabeça na lua e o corpo junto a nós, até que a cabeça se aproxima, os olhos, o nariz, a boca, vai baixando, baixando, e começa a sorrir.


Está no fi m desta crónica. Uma ou duas frases e pronto. Depois lanchauma torrada no cafezinho em frente e torna a escrever. Imenso sol lá fora, um par de gatos pequeninos, ainda sem medo, espantados. Não têm nome, não têm passado, a mãe inventou-os há dias. Não pertencem seja a quem for, são deles mesmos. Despeço-me de vocês. Ou seja

– Vou-me chegando

e desço as escadas, volto-me a acenar e desapareço no bairro para sempre. Há quantos anos não me ouviam assobiar uma cantiga qualquer, há quantos anos me não viam dar uma pirueta na rua, ou seja bater os calcanhares um no outro a meio de um saltinho? Não vale a pena correrem à esquina a procurar-me: não estou lá.

publicação de
JOÃO BRITO SOUSA

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

OPINIÃO


NÃO ESTOU DE ACORDO COM

JOSÉ MOURINHO, que anda eufórico por causa das cem vitórias em casa e que começaram em 2002 num FCPorto/ Alverca.

Ora José Mourinho convenceu-me no Chelsea e está agora a convencer-me no INTER. No Porto nunca me convenceu porque foi sempre minha convicção que havia outros poderes acima de Mourinho parar ganhar os jogos. Em minha opinião esses jogos do FCPoro não deveriam contar para nada.

JESUALDO FERREIRA, porque anda a meter-se na arbitragem e quando devia fazê-lo esteve calado. Já lhe coloquei a questão nestes termos. Qual a sua opinião acerca do jogo U. LEIRIA /FCPORTO da época passada? Ainda não respondeu mas mantenho a pergunta. E qual o papel do Dr. ADRIANO PINTO no futebol português?

Só depois disto respondido poderá falar, mister JESUALDO, Ok.

Publicação de
João Brito Sousa

IMPRENSA / VISÃO


O COMBATE AO CRIME
Por JOSÉ CARLOS VASCONCELOS

A criminalidade e a violência são preocupantes e tendem, um pouco por toda a parte, a aumentar. Muitas vezes estão associadas ao próprio crescimento ou desenvolvimento, não humana e socialmente sustentado, das sociedades. Combatê-las com determinação e firmeza, na dupla vertente preventiva/repressiva, é um direito e um dever, até de cidadania. Combatê-las no respeito integral pela dignidade das pessoas e pelos Direitos do Homem, incluindo os acusados ou mesmo criminosos (sem esquecer que quem em primeiro lugar merece protecção e compaixão são as vítimas), é a obrigação de uma sociedade civilizada, democrática. E não há nem pode haver qualquer oposição entre estes dois termos.

Seria um erro grave para a esquerda ( já muitas vezes o foi...) pensar que a segurança é um valor de direita. A esquerda e um Governo que dela se reclama devem assumir como um dos seus objectivos fundamentais, com a consequente disponibilização de meios, aquele combate, a defesa da segurança das pessoas – condição também do exercício concreto da(s) liberdade(s). Como deve recusar o facilitismo das fórmulas segundo as quais tudo se resolve com mais polícia e penas mais pesadas, o que é falso, denunciar a demagogia e o alarmismo, não cair na tentação de usar métodos menos sérios.

VEM ISTO A PROPÓSITO da recente «onda de violência» e do clima que em redor dela se criou. A criminalidade opera também por surtos, cíclicos ou dependentes da actividade de um «bando», desmantelado o qual a situação se normaliza. E a sua percepção depende da repercussão nos media. Sendo certo que estes, após um crime de grande impacto (como o do assalto à dependência bancária em Lisboa, com uma morte em directo nas TVs ), passam a dar relevo aos crimes menores.

Sobretudo quando há pouca matéria noticiosa: por isso é verdade que se neste Verão tivesse havido mais fogos, teria havido muito menos tiros... Enfim, embora pense que a criminalidade vai a breve prazo diminuir na agenda mediática (para voltar mais cedo ou mais tarde, é certo), deve-se aproveitar para tomar algumas medidas. Como a correcção, mesmom que por um caminho ínvio, das normas sobre a prisão preventiva, evitando perigos para os quais se alertou aquando das últimas alterações à lei penal (perigos que não existiriam se todos os magistrados fossem inteligentes, competentes? Talvez. Mas como não são...). E como as medidas tendentes a melhorar a operacionalidade das polícias, mesmo sem aumentar os seus efectivos (excepto os da PJ), dado que a ratio polícias-cidadãos já está acima da média europeia.

Já agora, convém restaurar o sentimento de segurança e confiança na Polícia de outra forma que não com aquelas megaoperações para inglês ver, com as câmaras de televisão atrás, de cerco a bairros «problemáticos», que só os tornam mais problemáticos, difi cultam a vida a quem não tem culpa nenhuma e não conseguem quaisquer resultados, ocupando entretanto dezenas ou centenas de polícias que podiam estar a fazer algo mais efi caz.

PAULO PORTAS OCULTOU AOS OUTROS membros da direcção do CDS/PP, durante cerca de um ano, o pedido de demissão de Luís Nobre Guedes, no que constitui mais um expressivo episódio da degradação de um partido que desempenhou um papel assinalável no arranque e consolidação do regime democrático português. Desempenhou-o, aliás, desde que apareceu, em 1974, até que se foi autodestruindo. Sobretudo com Portas, que este episódio mostra, além de sem confiança sequer nos colegas de direcção, cada vez mais isolado. Tanto mais que Nobre Guedes, conhecido advogado, sempre foi dos seus principais sustentáculos, dos tempos de O Independente até aos da tomada do poder num partido que o actual líder quis moldar à sua imagem e semelhança. Com os resultados que estão à vista.

Mas este episódio mostra também uma espécie de inexistência, ou singularíssima existência, de um partido, e com representação parlamentar, em que foi possível um vice-presidente pedir a demissão e naturalmente afastar-se, há um ano, sem ninguém dar por isso, nem mesmo os seus colegas de direcção!

Publicado por
João Brito Sousa

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

UMA FIGURA NEXENSE


FIGURAS NEXENSES
por João Brito Sousa

O PROFESSOR. LEITÃO E OUTOS

O Professor Leitão era o professor primário de SANTA BÁRBARA DE NEXE, aí por volta dos anos cinquenta. Naquele tempo, um professor tinha aulas o dia inteiro e tinha as quatro classes e um bocado de trabalho com aquilo, porque tinha que leccionar leitura e divisão de orações, aritmética (com aquele problema das torneiras, muito complicado, que perguntava assim: Em quantas horas encheu o tanque?) A coisa não era fácil pois na quarta classe desse tempo não se ensinava a regra de três simples, era tudo raciocínio lógico. Ensinava-se também História, com os reis todos e mais as dinastias e sobretudo a revolta de 1820 entre os Miguelistas e os Liberais, que era uma matéria difícil para uma criança de dez anos perceber. Havia ainda as Ciências Naturais, onde se estudava o corpo humano, com os ventrículos e as aurículas e, ainda, os batráquios, mais não sei quê, mais não sei quanto. A sala, que ficava ao pé da Torre da Igreja, era um armazém asseado. O professor morava ali também e a sala estava cheia de rapaziada (rapazes e raparigas) e havia um cântaro de água, com um copo para os alunos beberem. Um dia o Elias, que era um “Choninhas” e que se queixava muito dos outros ao professor, foi beber água ao cântaro. Escorregou, caiu, levou o cântaro atrás e o cântaro lá se foi... Ao ouvir tal sarrabulho, o Leitão veio e... perante tal situação, virou a cara para o lado, respirou fundo e disse: “Elias, dá cá a mão! Agora são vinte, menino Elias, ouviu?” Nesse tempo, o grande auxiliar, do professor primário em geral e do professor Leitão em particular, era a régua que fazia milagres, como dizia o Mestre-Escola dos “Meus Amores”, do Trindade Coelho. E nisso o Professor Leitão era Mestre. Era cada dose de reguadas que a malta gritava. De tal maneira e força que quase se ouvia na venda do Amadeu. Apesar de tudo, é importante dizer que havia cooperação entre a Escola e a Família, resultando a (boa) educação do aluno do esforço das duas partes.

O melhor cliente que o professor Leitão tinha, que era simultaneamente a melhor cooperação Escola/ Família, era o António de Sousa Bárbara, o filho da Ti Ermelinda e do Ti Manuel de Sousa Farias, que mais tarde foi coveiro aí no cemitério local O António era um rapaz destemido, não tinha medo de nada, tanto dormia em casa como na rua ou dentro do forno e a mãe, a D. Ermelinda, não dava conta dele. Então, levava-o à Escola e recomendava ao Professor que lhe desse uma tareia das fortes. Só que o Professor Leitão nunca teve muita sorte com isso, porque o António fugia da Escola, fugia da Guarda Nacional Republicana, fugia de todo o lado. Uma vez quiseram metê-lo na cadeia e os Guardas não conseguiram, porque ele punha os pés à parede e daqui ninguém me tira.

O melhor aluno desse tempo era um dos filhos do Pai da Malta, o hoje Eng.º José Pinto Faria, grande aluno quer na primária, quer na Escola Comercial e Industrial, quer no IST, onde se licenciou em Engenharia. Quando eu cheguei à Escola Comercial em Faro, em 52, estava ele de saída, mas era um rapaz muito popular lá na Escola, jogava muito bem à bola, a defesa central, e nos jogos com o Liceu brilhava porque fisicamente era muito poderoso. De tal modo era assim, que chegou a campeão nacional de judo. E ainda está por aí...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

CRÓNICA FROM WASHINGTON


MARX E O CAPITALISMO'

por DIOGO COSTA SOUSA


....Como disse Marx...o capitalismo entregue a ele próprio destruir-se-à...eu acrescentaria ou corrigiria...para capitalismo selvagem que foi o praticado pela administração Bush....1 trilião a injectar na economia para corrigir sem fazer mais "SANGUE" .....outro trilião e...contando, para a guerra estúpida em que se meteu.....onde vamos "parar"?....em realidade ninguém sabe...o impensável aconteceu pela mao dos maiores inimigos da intervenção do estado no privado.....Um plano "Marchal" para reconstruir a economia ?


A teoria Reganista de que o mercado se acerta a ele próprio não funcionou......de que a maré alta levanta todos os barcos não funcionou......A trickal down tão pouco !.....Os candidatos contradizem-se ao que parece "so" para serem diferentes......um marasmo que o "zé povinho" se encontra enleado e, a impressão que me da' e' que esta boquiaberto esperando para ver.
E.......vem ai' a general motors....espera para ver se me engano....e vai ser outra conta calada.

p/s....o fenómeno Sarah esta-se diluindo sob o efeito da economia....parece que nem de propósito

MEU COMENTÁRIO

Bela análise.
Yr John

sábado, 20 de setembro de 2008

FROM WASHINGTON


HONRA; ALGUÉM SE LEMBRA?

No antigo faroeste americano, os que eram apanhados a fazer batota ao jogo eram despidos de tudo, pintados com alcatrão, cobertos de penas e expulsos da cidade. Hoje recebem milhões de indemnização para se irem embora e eformas vitalícias que são um escândalo público.

1 Há apenas uns meses, o senador McCain, que em Janeiro se poderá tornar o próximo Presidente dos Estados Unidos, afirmava ainda que o governo federal se deveria “manter fora” dos assuntos que tinham que ver com o funcionamento do sector financeiro e do “livre mercado” capitalista. Embora já então fosse mais do que evidente que a chamada crise do «subprime» no sistema financeiro americano estava ainda longe de mostrar o fundo e que o fundo era um lamaçal onde alguns dos mais incensados ‘colarinhos brancos’ dos Estados Unidos estavam atolados em práticas impensáveis de batota e especulação irresponsável, o velho senador mantinha-se ainda atado de pés e mãos à crença de que o capitalismo é conforme à vontade de Deus e que qualquer veleidade de vigilância sobre ele é um erro económico e um atentado aos “valores” da “sociedade liberal”.
Mas esta semana, confrontado com a decisão do Tesouro de injectar 85.000 mil milhões de dólares na AIG para evitar a falência da maior seguradora mundial e o colapso de milhões de pensões de reforma de americanos que trabalharam toda a vida confiando no sistema, McCain teve de rever o seu discurso, embora talvez não as suas convicções. Agora, já veio falar na necessidade de regulação de um sector que revelou “excesso de ganância e de
irresponsabilidade”.
Com dezenas de milhões de votos de pensionistas a serem disputados em Novembro, com o dinheiro dos contribuintes americanos largamente empenhado para salvar a AIG, os dois maiores gigantes do crédito hipotecário e vários bancos entre os quais o sagrado JP Morgan, mesmo o mais doutrinário dos nefastos «neocoms» americanos não pode ignorar esta verdade vexatória: o capitalismo americano, o farol da terra, está a tentar ser salvo pelo Governo dos Estados Unidos com recurso a medidas que fazem lembrar o PREC português, dos anos 70. Só que, se então eram os comunistas que tratavam de nacionalizar a economia por questões ideológicas, agora são os próprios capitalistas a aplicar medidas comunistas para se salvarem a si próprios. Quem paga? Pagam os contribuintes, os que trabalharam em troca de um salário, enquanto os administradores do falido Lehman Brothers recebem milhões a título de prémio de ‘boa gestão’ ou indemnização para se irem embora, depois de terem afundado o navio.
Anos e anos a fio, os ‘liberais’ têm-nos explicado que as empresas têm de crescer, crescer sem limite, para “ganharem dimensão estratégica” numa “economia global”. E os governos tudo têm feito por isso: consentem e estimulam as fusões e aquisições, mesmo sabendo que tal diminui e falseia a concorrência - que é um dos pilares do mercado livre - e que, quando um gigante assim insuflado, como a AIG, tropeça na sua própria dimensão, são milhões de postos de trabalho de gente inocente que vão ser postos em causa e um efeito de cascata que se desencadeia, abalando toda a economia. Bem dizia Marx, que, entregue a si próprio, o capitalismo se devoraria.
O que falhou? Falhou a noção de honra dos capitalistas e a noção de dever dos governantes. Falhou a consciência da responsabilidade social do dinheiro, substituída pela simples ganância de mais e mais lucros, sem olhar sequer a regras de prudência elementares. Vimos como, entre nós, um banco que era apontado como um «case study» de modernidade e inovação, onde mandavam os gestores profissionais e não os accionistas parasitários, se transformou num «case study» de tropelias de toda a ordem, em que o objectivo principal da gestão parecia ser, não o de servir os accionistas, os clientes, os trabalhadores do banco ou a economia nacional, mas sim a luxúria e o desejo de acreditação social dos seus gestores. No antigo faroeste americano, os que eram apanhados a fazer batota ao jogo eram despidos de tudo, pintados com alcatrão, cobertos de penas e expulsos da cidade. Hoje recebem milhões de indemnização para se irem embora e reformas vitalícias que são um escândalo público. Porque, quando a honra deixa de ser um valor na vida em sociedade, a vergonha não pesa nada.
2 Consta que vamos mandar três polícias para a Geórgia. Não vão para dirigir o trânsito nem caçar multas por excesso de velocidade: vão, por mais ridículo que isto seja, para mostrar o nosso compromisso para com o objectivo da NATO de conter o “expansionismo russo” no Cáucaso. Ora, recapitulemos:
- a Geórgia é um dos países que se separaram da órbita da ex-URSS e que, em decorrência da perigosa estratégia de cerco à Rússia, logo recebeu a ajuda do imbecil do Bush para se tornar um satélite dos Estados Unidos, sob uma das três modalidades habitualmente propostas: receber mísseis americanos, aderir à NATO ou ser declarada protegida desta;

- entretanto, o novo país instalou-se sobre um poder formado por seitas mafiosas, totalmente corruptas e criminosas, autêntico paradigma do que é suposto não serem os “valores morais” do Ocidente;

- do novo país fazem parte as regiões autónomas da Abkhazia e Ossétia do Sul, de maioria russa, e que ficaram como enclaves da Geórgia, da mesma forma que o Kosovo, de maioria albanesa, ficou como enclave da Sérvia;

- quando, há meses, os Estados Unidos, a NATO e a UE promoveram a irresponsável declaração de independência unilateral do Kosovo, contra a ONU e com o único fundamento de que a maioria da sua população não era sérvia, Moscovo avisou que estavam a abrir uma caixa de Pandora e todos perceberam que sim e, todavia, foram em frente;

- escorada na protecção dos Estados Unidos e da NATO, a Geórgia resolveu romper o «statu quo» e forçar a anexação pela força das suas zonas russófonas: invadiu a Ossétia, matou indiscriminadamente, bombardeou, destruiu, provocou centenas de milhares ou milhões de refugiados: uma forma muito estranha de tratar o ‘seu povo’. Mas os EUA, a NATO, a UE, mantiveram-se calados. E só reagiram quando Moscovo enviou o Exército em defesa das populações russas e, obviamente, a seguir passou a promover a declaração de independência de ambas as regiões - tal qual como o Kosovo fez. Então, sim, as boas e idiotas almas que nos governam desataram a gritar: ‘Socorro, que o urso está de volta!’. Andam a brincar com o fogo. E nós lá vamos, acompanhando galhardamente o esforço de conter o ‘expansionismo russo’, enviando três polícias para essa coisa que nos é tão íntima, que é o Cáucaso. Mais valia mandarmos três bombeiros.
3 Uma lei especial e antiga estabeleceu que o general Eanes não poderia acumular a sua pensão de reserva como militar com a pensão de ex-Presidente da República. Uma lei estranha, num país em que as grandes figuras do regime acumulam tudo: pensões privadas com pensões públicas, pensões públicas com ordenados privados e pensões públicas com pensões públicas. Sentindo-se discriminado, o general recorreu à justiça, que, muitos anos depois lhe deu razão e mandou que passasse a receber ambas as pensões, mais os retroactivos, cerca de 1.300.000 euros. Eanes, porém, recusou receber os retroactivos. Num país em que tantos exigem e recebem do Estado o que podem e o que não deviam, ele recusou uma pequena fortuna. Não sei as razões, mas conheço suficientemente o homem para perceber a sua motivação. É uma questão de honra. E, nas questões de honra, não basta apregoá-la, é preciso tê-la.

publicação de
João Brito Sousa

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

IMPRENSA/ VISÃO


O MEU IRMÃO JOÃO
por Atónio Lobo Antunes

É talvez a pessoa que conheço melhor no mundo e todavia quase não falamos. Para quê? São desnecessárias as palavras entre nós, passámos mais de vinte anos, acho eu, no mesmo quarto, num silencioso princípio de vasos comunicantes que até hoje se mantém. Para além do muito amor que raramente lhe manifestei tenho uma imensa admiração por ele e um orgulho sem limites. Herdou do nosso pai (herdaste do pai, sim, tem paciência) a honestidade, o carácter, a coragem e o horror à mentira. Desde criança foste sempre valente. Se assim à má fi la me ordenassem que dissesse duas características tuas respondia logo a valentia e o pudor, formas supremas da elegância. E isto desde que te conheço, tu que nasceste vinte meses depois de mim
(o número vinte deu-lhe para me perseguir hoje)

que era cobarde e despudorado e custou-me tanto ver-me livre dessa ganga nojenta, zangado de vergonha comigo. Foste sempre digno e discreto contigo mesmo e com os outros e bem sei, sem mo teres dito, as difi culdades e as dores que sofreste, a carne viva que escondes e eu vejo, a compaixão que não mostras e eu sinto. E a tua oculta e bondosa generosidade. O rigor também, a falta de complacência para com a ingratidão, a pulhice, os sentimentos rasteiros. Claro que tens defeitos: alguns divertem-me, outros enternecem-me, nenhum me incomoda, talvez por serem os defeitos das tuas qualidades da mesma maneira que um automóvel possui os travões adequados à potência do motor. Se fosse Deus não mudava grande coisa em ti: talvez trocasse um móvel de posição, alterasse uma jarra, substituísse um quadro. Na casa não mexia: agrada-me que seja como é.

E depois claro que te foi dada uma inteligência superior e isso não vale a pena mencionar porque no meu caso não me serve de nada, ninguém é tão estúpido como um homem inteligente e muitas das asneiras que fi z conhece-las de ginjeira. Lembras-te da mãe
– Tão inteligentes para umas coisas, tão estúpidos para outras mas eu canalizei tudo para a escrita, construí-me para isso e os teus interesses são mais variados que os meus. E no meio disto somos tão ingénuos ambos, sensíveis à lisonja, por vezes completamente parciais, cegos em relação aos amigos, de julgamento turvado quando os afectos se misturam nele. É curioso como, sendo diferentes, temos coisas idênticas. O pai não queria filhos, queria campeões de karaté.

Conseguiu-os e o preço disso foi uma parte nossa amputada e uma sede de amor sem limites, em ti cuidadosamente escondida. A gaita é que eu sou desbocado e tu não, vivo nas nuvens e tu só às vezes, porque eu vivo nas nuvens e das nuvens e tu tens de confrontar-te com uma realidade imediata que te dá um peso específico maior que o meu e uma relação necessariamente pragmática com certos aspectos do quotidiano. Estou para aqui a escrever isto e a pensar na educação que recebemos, normativa, implacável, no limite da impiedade e da dureza. Quantas vezes nos revoltámos contra ela e, no entanto, que importante foi. Um pai que competia connosco e, mais tarde, te invejava. É terrível a relação do fi lho com o pai, julgando-se mutuamente numa ferocidade sem doçura.

Nunca foi doce. Nem tolerante. Que egoísmo horrível naquele homem. E por baixo disso tudo uma vaidade em nós, ou antes uma vaidade nele dado imaginar (a imaginação não era o seu forte, nem o sentido de humor, nem a criatividade) que nos havia feito peça a peça e não fez. Não nos poupava mas poupava-se a si. Dito desta forma parece que lhe quero mal. Não quero. Só que não me acho em dívida: o preço foi alto. Levou a vida que quis, como quis, e impunha-nos à força a sua vontade. É curioso, João: dá-me pena que tenha morrido. Movia-se por paixões, entusiasmava-se e gostava de nós através das nossas filhas por lhe ser impossível amar-nos abertamente.

E contudo, mau grado o que acabo de dizer, não duvido do seu amor e de um orgulho genuíno nos filhos, que fazia os possíveis por disfarçar. Estou a ser injusto, de longe em longe descuidava-se. E apesar do que afi rmo, gaita, era, é o nosso pai. Não esqueço as palavras de Herculano a propósito de Garrett que ele repetiu dúzias de ocasiões ao longo dos anos

– Por meia dúzia de moedas o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita

ou da ordem de Filipe Segundo ao arquitecto do Escorial

– Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos
e como esses dois preceitos se gravaram na gente. Isto foi importante para além do que declarei a teu respeito e herdaste dele de facto: a honestidade, o rigor e a coragem. É bom ser filho de um homem desta têmpera e essas qualidades nasceram contigo. Talvez com outro pai houvesses sido igual, não sei. Capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita: para mim foi um tiro na mouche. Em cheio.
E estou-lhe grato por isso. Estou-lhe grato também pelos irmãos que foram aparecendo, a chorarem como uns danados até aos dois anos, raios os partam. À mãe igualmente claro, de quem a avó nos dizia

– Vocês matam a vossa mãe
numa convicção que me confundia. Via-nos a apunhalá-la com a faca do pão, a da serrilha grande, e ela a torcer-se na cozinha. Felizmente sobreviveu à faca e segue viva da costa. Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua efi ciência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho.

Quando acabaste de operá-lo apeteceu-me beijar-te. Claro que não beijei mas sabes que beijei: és o meu irmão João. Aquele a quem me une um silencioso princípio de vasos comunicantes. E com que alegria repito isto dentro de mim: o meu irmão João. O meu irmão João para sempre.

PBLICADO POR
João Brito Sousa

terça-feira, 16 de setembro de 2008

IMPRENSA/ RECORD




JESUALDO COMENTA RELATÓRIO DO TAS


Jesualdo abriu uma excepção não falando, na conferência de imprensa desta terça-feira, apenas do jogo da Liga dos Campeões com o Fenerbahçe. O treinador do FC Porto comentou as notícias de um relatório do TAS que terá arrasado a Liga e a Federação portuguesas, ilibando os dragões no chamado "Apito Final"


OPINIÃO


JESUALDO FERREIRA é um homem que deveria ter acompanhado o futebol nestes últimos vinte e cinco anos. Ao dizer o que diz pareece não ter a companhado. Uma pergunta, acha justo o que se passou no U.Leiria/ FCPorto da época passsada. Outra, na sua opinião qual foi o papel do Dr. Adriano Pinto no futebol português.


JoãoBrito Sousa

sábado, 6 de setembro de 2008

IMPRENSA/JN

OPINIÃO

ESPERO QUE NÃO SEJA CANONIZADO

F.C. Porto: Parecer contraria Freitas

Defesa de Pinto da Costa entregou no Tribunal opinião contrária à que legitimou castigos do Conselho de Justiça

A defesa de Pinto da Costa entregou no Tribunal Administrativo um parecer que contraria o documento que serviu de âncora à Federação para validar as decisões da reunião de 4 de Julho do Conselho de Justiça.
Em 2002, Mário Aroso de Almeida assinou, em parceria com Freitas do Amaral, o livro "Grandes Linhas da Reforma do Contencioso Administrativo". Percorridas as 30 páginas do parecer sobre os acontecimentos da polémica reunião do CJ, que ratificou a despromoção do Boavista e a aplicação de suspensão de dois anos a Pinto da Costa, não restam dúvidas de que este professor da Faculdade de Direito da Universidade Católica não subscreve a mais recente publicação do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros - "A Crise no Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol".
"Ora, em nossa opinião, a partir das 17.55 horas, o CJ deixou de estar reunido, pois que o respectivo presidente, no regular exercício dos seus poderes, encerrou a reunião". Esta é uma das mais importantes conclusões do parecer elaborado por Aroso de Almeida. O documento, com data de 31 de Julho, foi solicitado pela defesa do presidente portista e anexado ao procedimento administrativo especial que Pinto da Costa interpôs no Tribunal Administrativo de Lisboa.
Ao contrário de Freitas do Amaral, Aroso de Almeida, reputado especialista em Direito Administrativo, entende que estavam criadas condições para, ao abrigo do artigo 14.º, nº. 3 do Código do Processo Administrativo, Gonçalves Pereira encerrar os trabalhos, classificando a decisão como "inteiramente coerente", na sequência de "um movimento de rebelião em relação ao presidente".
A reunião do CJ, recorde-se, aqueceu quando Gonçalves Pereira declarou o conselheiro João Carrajola de Abreu impedido de votar nos recursos interpostos pelo Boavista e por Pinto da Costa. Na análise a esta acção do então líder do CJ, Aroso de Almeida considera não existir exorbitação, embora admita que a decisão "parece enfermar de um vício de falta de pressupostos". Este é, aliás, o único reparo que o parecer aponta ao procedimento de Gonçalves Pereira. De qualquer forma, acrescenta que a decisão em causa "só era passível de impugnação junto dos tribunais administrativos".
O processo disciplinar instaurado pelos conselheiros ao presidente do CJ também é considerado irregular, desde logo porque "tal matéria não constava, na verdade, da ordem de trabalhos da reunião".
Não restam dúvidas de que, segundo Mário Aroso de Almeida, a reunião em que foram votados os recursos de Pinto da Costa e do Boavista não tem qualquer validade e leva com carimbo de "inexistente": "... os membros do CJ deveriam ter feito na sequência da referida reunião era promover a convocação de uma nova reunião extraordinária (...), em ordem a tentar obter aprovação das deliberações, que, apressadamente, pretenderam adoptar, ainda no próprio dia 4 de Julho de 2008".
Para além de reprovar a acção dos membros do CJ que deram andamento à reunião, em contraste com a aprovação de Freitas do Amaral, Aroso de Almeida, que também é consultor do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça, esclarece que o "vício de desvio de poder", atribuído a Gonçalves Pereira pelos conselheiros que continuaram a reunião, "carece de prova". Desta forma, o parecer desmonta toda a argumentação dos conselheiros, tornando-se mais uma arma importante na defesa de Pinto da Costa junto do Tribunal Administrativo
O MEU COMENTÁRIO
A notícia do JN vem colocar o especialista Mário Aroso contra o especialista Freitas do Amaral, em matéria de Direito Administativo, ou, por outras palavras, Mário Aroso entende que o Presidente do CJ da FPF teria argumentos suficientes para suspender a reunão às 17 e tal quando havia assuntos importantes a resolver.
Mas quem é Aroso? È um catedrático da FDPorto além de outras tarefas que desempenha m outras Universidades.
Espanta-me a ligeireza dos comentários de Mário Aroso que, em minha opinião, não possuem solidez jurídica para sustentar a decisão do Presidente do CJ da FPF, como válida.
Não estou portanto de acordo com a decisão de Mário Aroso.
jbs

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O BAILE DO CAVACO


FIGURAS NEXENSES
por JOÃO BRITO SOUSA

O BAILE DO CAVACO.

Era aos domingos. O baile do Cavaco em Santa Bárbara de Nexe tinha fama nas redondezas . Era à saída da aldeia quando se vai para os Gorjões. Quem estava lá sempre caído era o Pató, jogador de futebol do clube desde tempos idos, um camisa oito de bom nível. O baile era a diversão maior local naquele tempo. Era, digamos assim, um armazém bem decorado e limpo, tinha um palco para o tocador e espaço para dançar. Creio que as mães que acompanhavam as filhas ao baile, levavam igualmente as cadeiras para se sentar. Os rapazes tinham de pagar bilhete para entrar, cinco escudos cada um, o Senhor Cavaco estava de serviço à portaria e controlava as entradas. Tinha um carimbo e carimbava as mão do pessoal para quando um qualquer precisasse de vir cá fora mostrava a carimbadela e tinha livre trânsito.

Quando o baile começava, entravam os que tinham dinheiro para comprar as entradas e os que não tinham ficavam à porta mas com vontade de entrar e eram muitos. As raparigas eram jeitosas e o baile era um divertimento simpático. As minhas primas iam lá e eram vedetas. Às tantas, a malta que estava fora pressionava a entrada à força, mas o problema era que o senhor Cavaco tinha na mão um chicote e dava neles quando algum cria entrar à má fila. O António Lopes, que era rico e acompanhava sempre com os pobres, que tinha umas mãos enormes, de vez em quando empurrava lá para dentro uns quantos, o Cavaco dava umas ripadas com o chicote e, se o António Lopes ia na onda, não havia chicote, pois o Lopes era homem de respeito.

O meu tio José Felício Apolo, que era acordeonista, tinha lá garantido um domingo de trabalho por mês e, quando era o domingo do Felício o baile enchia. Dizem que o meu tio tocava bem, ele que era analfabeto como quase toda a gente naquele tempo, tocava de ouvido e lá saíam as modas que a malta gostava, as valsa e os tangos argentinos do Carlos Gardel, “la cumparsita”, o mais famoso.

Acabado o baile das raparigas, digamos assim, já no outro dia, à uma ou duas da manhã, começava o “baile do teso”, que era um divertimento que enchia de gozo os participantes, normalmente alguns malteses, outros com a mania das forças (a malta do campo sempre gostou dessa coisa de puxar para o cabedal) e outros que por lá pareciam, como o meu tio António Sousa que foi tido como grande campeão, o meu tio Manuel Domingos, o tal António Lopes e o maior de todos, o Pai da Malta.

O baile consistia em os participantes entrelaçarem os braços uns nos outros e tentarem deitar os outros ao chão através do jogo de pernas com rasteiras, mais ou menos como aquelas que se fazem hoje no Kitch Box. O campeão era o que chegava ao fim em pé. E havia malta brava. O pai da Malta, de quem quero aqui contar uma história um dia destes, era grande nesta disciplina. E nunca se ia abaixo.

Era mais ou menos assim o baile do CAVACO.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O PROF. LEITÃO; UM GRANDE HOMEM

(O FLORIVAL, O BENTO E O MANUEL BOTELHO QUE ESTÃO AÍ FORAM SEUS ALUNOS.. PARECE-ME)

FIGURAS NEXENSES
por joão brito sousa

O PROFESSOR. LEITÃO E OUTOS

O Professor Leitão era o professor primário de SANTA BÁRBARA DE NEXE, aí por volta dos anos cinquenta. Naquele tempo, um professor tinha aulas o dia inteiro e tinha as quatro classes e um bocado de trabalho com aquilo, porque tinha que leccionar leitura e divisão de orações, aritmética (com aquele problema das torneiras, muito complicado, que perguntava assim: Em quantas horas encheu o tanque?)

A coisa não era fácil pois na quarta classe desse tempo não se ensinava a regra de três simples, era tudo raciocínio lógico. Ensinava-se também História, com os reis todos e mais as dinastias e sobretudo a revolta de 1820 entre os Miguelistas e os Liberais, que era uma matéria difícil para uma criança de dez anos perceber. Havia ainda as Ciências Naturais, onde se estudava o corpo humano, com os ventrículos e as aurículas e, ainda, os batráquios, mais não sei quê, mais não sei quanto.

A sala, que ficava ao pé da Torre da Igreja, era um armazém asseado. O professor morava ali também e a sala estava cheia de rapaziada (rapazes e raparigas) e havia um cântaro de água, com um copo para os alunos beberem. Um dia o Elias, que era um “Choninhas” e que se queixava muito dos outros ao professor, foi beber água ao cântaro. Escorregou, caiu, levou o cântaro atrás e o cântaro lá se foi... Ao ouvir tal sarrabulho, o Leitão veio e... perante tal situação, virou a cara para o lado, respirou fundo e disse: “Elias, dá cá a mão! Agora são vinte, menino Elias, ouviu?”

Nesse tempo, o grande auxiliar, do professor primário em geral e do professor Leitão em particular, era a régua que fazia milagres, como dizia o Mestre-Escola dos “Meus Amores”, do Trindade Coelho. E nisso o Professor Leitão era Mestre. Era cada dose de reguadas que a malta gritava. De tal maneira e força que quase se ouvia na venda do Amadeu. Apesar de tudo, é importante dizer que havia cooperação entre a Escola e a Família, resultando a (boa) educação do aluno do esforço das duas partes.

O melhor cliente que o professor Leitão tinha, que era simultaneamente a melhor cooperação Escola/ Família, era o António de Sousa Bárbara, o filho da Ti Ermelinda e do Ti Manuel de Sousa Farias, que mais tarde foi coveiro aí no cemitério local O António era um rapaz destemido, não tinha medo de nada, tanto dormia em casa como na rua ou dentro do forno e a mãe, a D. Ermelinda, não dava conta dele. Então, levava-o à Escola e recomendava ao Professor que lhe desse uma tareia das fortes. Só que o Professor Leitão nunca teve muita sorte com isso, porque o António fugia da Escola, fugia da Guarda Nacional Republicana, fugia de todo o lado. Uma vez quiseram metê-lo na cadeia e os Guardas não conseguiram, porque ele punha os pés à parede e daqui ninguém me tira.

O melhor aluno desse tempo era um dos filhos do Pai da Malta, o hoje Eng.º José Pinto Faria, grande aluno quer na primária, quer na Escola Comercial e Industrial, quer no IST, onde se licenciou em Engenharia. Quando eu cheguei à Escola Comercial em Faro, em 52, estava ele de saída, mas era um rapaz muito popular lá na Escola, jogava muito bem à bola, a defesa central, e nos jogos com o Liceu brilhava porque fisicamente era muito poderoso. De tal modo era assim, que chegou a campeão nacional de judo. E ainda está por aí...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

OS BRACIAIS DO MEU TEMPO


BOM DIA RAPAZIADA !..


João Brito Sousa







sábado, 16 de agosto de 2008

BOM FIM DE SEMANA


PORTO, 2008. 08.16

BOM FIM DE SEMANA

Para os meus filhos em ALMADA XAXÁ E PEDRO Para a minha nora e para as minhas netas MARIANA e SOFIA

Para os meus irmãos em NEWARK, USA

Aló Solange, katy and Jack David, Daniela, Michele e respectivos....

Aló PAUL SPATZ e filhas

Aló primos e primas na Austrália e Perpingham em França em NEWARK, aló Tony and Quitéria Ilheu aló SIlvina no Canadá

Para a Celina e para o Aníbal, para o Zé ALEIXO Salvador esposa, Honorato Viegas e esposa, Peixinho e esposa em ALMADA,

Para toda a malta do 1º 4ª de 52 em especial para o Coelho Proença, Zé Maganão e Ludgero Gema,

Para o Gregório LONGO no Lar da Guia (até à primeira)

Para o aluno da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL de FARO que elegi como o melhor de todos os tempos, o Contra Almirante ANTÓNIO MARIA PINTO DE BRITO AFONSO.

Para o Eng º ANSELMO DO CARMO FIRMINO e esposa, outro aluno brilhante e dos melhores de sempre da Escola COMERCIAL e INDUSTRIAL com quem tive dúvidas na atribuição do melhor aluno de sempre, tendo sido prejudicado por ser de uma ou duas gerações depois da minha.

Para o Dr. José Martins Bom, outro brilhante aluno da Escola COMERCIAL E INDUSTRIAL e para o igualmente brilhante e talentoso ARNALDO SILVA..

Para o Dr. Eduardo Graça e o seu ABSORTO

Para o grande poeta ROBERTO AFONSO

Para o Engº SOUSA DUARTE, esposa e filho

Para o amigo Carlos BARRIGA E ESPOSA e Filha nas FERREIRAS.

Para o Luís José Isidoro em ESTOI, amigo inesquecível

Para o Engº Neto e esposa em ESTOI ainda.

Para o Engº Manuel Carvalho e esposa

Para os meus compadres, Dr. Manuel Rodrigues e Drª Fátima Rodrigues e filha, a Drª Ana Luísa Rodrigues.

Para o enorme MÁRIO MONTEIRO que agora mora em CAMPO

e para o Guilherme, Marta esposo e filho,

Para a viúva do CARLINHOS LOURO, filhos e irmãos e respectivos.

aló Custódio Clemente e Zé Mendes na AUSTRÁLIA,

Zé Lúcio, Florentino, Rosendo e Joaquim Carrega...

Victor e Célia Custódio e Leonilde Filhos e filhas.

Aló Montenegro SÃO E FILHAS ,

Tia Amélia.

Tias Alzira e Ti Manel

Eusébio e Júlia Lucília e Armando e Filhos

Silvina e Luís Alcantarilha e filhos

Mercedes e Alviro, BICAMA e BIZÉ E RESPECTIVOS

Maria do Carmo e Zé Maria e filhos (meu afilhado João Manuel) e noras netos

FLORIVAL EM França, esposa e filhas Para o CUSTOIDINHO, o filho do APOLINARIO, que diz que é teu amigo e com quem tive uma pega no restaurante o Jorge, no PATACAO.

Para: VIEGUINHAS de Pechão e respectiva equipa do almoço de sábado, o ZÉ GRAÇA, o BOTA de ESTOI e o ENGENHEIRO

Para a malta do 1º ano 1ª Turma de 52/53

Chefe de turma: CÉLIO MARTINS SEQUEIRAALUNOSJosé Bartílio da PalmaLuís Rebelo GuimarãesHerlander dos Santos EstrelaReinaldo Neto RodriguesAntónio Inácio Gago ViegasHumberto José Viegas GomesManuel Cavaco Guerreiro.Joaquim André Ferreira da CruzJoão BaptistaJosé Mateus Ferrinho PedroJosé Vitorino Pedro RodriguesIvoFrancisco Gabriel Carvalho CabritasJoão António Sares ReisFernando Manuel MoreiraAntónio Manuel Ramos JoséFrancisco Paulo Afonso ViegasManuel GeraldesJoão Manuel de Brito de SousaJorge Manuel AmadoJoão Vitorino Mendes BicaCarlos Alberto Arrais CustódioJosé Júlio Neto ViegasManuelJoão dos SantosJosé Pedro SoaresJosé Marcelino Afonso Viegas


Para o meu afilhado em Washington CARLOS ALBERTO DIOGO esposa e filhos

Para o DIOGO TARRETA e esposa e filho, o grande Engº JOÃO PAULO SOUSA

Para o REINALDO TARRETA, esposa e filho, o Engº Rui Tarreta e para a SOLEDADE e respectivo...

Aló ESTORIL Mário Fitas, Aló Porto Carlinhos Pereira, Adelino Oliveira em AZEITÃO. Romualdo Cavaco, Jorge Valente dos Santos e Zé Pinto Faria em Portimão. ADOLFO PINTO CONTREIRAS NOS GORJÕES E SOARES em TAVIRA. Feliciano Soares e Xico LEAL em Olhão e Zé Júlio na ilha da Culatra. Para a malta da Escola Comercial e Industrial de FARO, grandes amigos e colegas,

ROGÉRIO COELHO, LUÍS CUNHA, JORGE CACHAÇO E FRANKLIM MARQUES.

Para o JORGE CUSTÓDIO, o JORINHO que andou comigo na escola primária em Mar e Guerra, irmão da Fernanda e que agora mora em Faro e para o GABRIEL ferreiro na Falfosa.

Para CUSTÓDIO JUSTINO esposa e filhos, ANÍBAL PEREIRA e esposa no Patacão e João ALCARIA em Mata LOBOS , distintos bancários.

Para as minhas primas Maria Emília na Falfosa, filhos e respectivas, Margarida em Santa Barbara de Nexe, Maria em Faro e Glorinha em Tavira.

Para o primos ROBERT em Nice, JOÃO no Patacão.

Para os tios Zé Bárbara e Vitalina em Vila Moura e tio António no Canadá..


UM BOM FIM DE SEMANA PARA TODA A GENTE

João Brito Sousa

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

IMPRENSA / EXPRESSO


OS BLOGUES
Por MST

Acerca dos blogues, diz MST,

P.S. - A quem possa interessar: há para aí um blogue cujo autor garante ser eu próprio. Não é: como já aqui expliquei, não faço, não alimento e não leio blogues. Terão, certamente, muitas vantagens e utilidades, mas eu não me habituo a viver em territórios onde vivem o anonimato, a calúnia, a usurpação de autorias e a impunidade.

A quem mais possa interessar: vou de férias quatro semanas.

MEU COMENTÁRIO

Um blogue é apenas um espaço de comunicação. Aqui no meu blogue, estou contra MST em todas as suas crónicas desportivas, mas assino sempre.. Como escritor e como jornalista não desportivo tem o meu respeito e consideração.

Assino igualmente sempre.

Texto de
João Brito Sousa

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

IMPRENSA/ EPRESSO


SINAL DOS TEMPOS,
por MST

e do país em que nos estamos a tornar, a morte de Alexander Soljenitsin não ocupou mais do que um curto obituário, preenchido com banalidades, mesmo nos jornais diários ditos “de referência”. A «silly season» jornalística - agora que, felizmente, o petróleo está a descer e não há incêndios - está toda devotada às aquisições do Benfica e às andanças algarvias do ‘jet seis’, cuja palpitante existência sustenta várias revistas da especialidade. Não sobrou assim espaço nem ousadia para imaginar que a morte do homem que abalou o Império Soviético e lhe deu a primeira machadada de morte pudesse interessar os leitores portugueses, nem ao menos como registo histórico.

E, todavia, raríssimos foram aqueles que no seu tempo de vida tiveram tamanha importância histórica como Soljenitsin. Ele não foi apenas o Prémio Nobel da Literatura, o autor de uma vastíssima obra (em cuja compilação em trinta volumes trabalhou até ao dia da sua morte, domingo passado), o escritor em cuja obra está presente e quase sufocante a imensidão e solidão da Rússia de sempre, na senda de Tolstoi, Pasternak, Tchekov, Bulgakov ou Nabokov, como foi, acima de tudo, uma testemunha vital e impiedosa dessa mancha negra na história da humanidade que foi o estalinismo.

E só para ter uma vaga ideia do que representava enfrentar o estalinismo na própria União Soviética, basta recordar que vivemos num país onde, dezassete anos passados sobre a implosão da URSS, o nosso Partido Comunista, herdeiro jamais infiel do estalinismo, continua a achar que a Coreia do Norte talvez seja uma democracia e que o Governo de Angola defende os direitos humanos e combate a corrupção.

Quando Soljenitsin publica em França ‘O Arquipélago do Gulag’, já tinha ganho o Nobel e já era um escritor consagrado no Ocidente, onde algumas das suas principais obras, como ‘O primeiro círculo’, ‘O Pavilhão dos Cancerosos’ ou ‘Agosto, 1914’ o tinham suficientemente revelado. Mas tudo começara antes ainda, em 1962, quando deu a ler o manuscrito de ‘Um dia na vida de Ivan Denisovitch’ a Andrei Tvardosky, membro da direcção da Academia das Letras soviética e do Comité Central do PCUS. Vivia-se os anos de Nikita Khrustchov, a suave destalinização, e, apoiado por Tvardosky, Soljenitsin conseguiu que Khrustchov autorizasse a publicação do pequeno livro, relatando a vida de um prisioneiro político nos campos de concentração estalinistas - onde ele vivera oito anos, de 49 a 57, condenado depois de o KGB ter interceptado uma carta sua a um amigo onde criticava Estaline.

De nada lhe valera então o seu estatuto de herói de guerra, com várias condecorações ganhas a combater a invasão nazi. Outros milhões de russos que, como ele, seguiram directamente da guerra para os campos de concentração do estalinismo, fizeram do livro um sucesso instantâneo, com o valor de um resgate da ignomínia sofrida.

Duraram pouco as suas tréguas com o regime. Soljenitsin não aproveitou para se submeter à linha oficial do Partido nem à sua suposta nova face branda e, tendo-se tornado praticamente o único símbolo da dissidência no Ocidente, a sua sorte ficou traçada. Em 1974, a publicação do ‘Arquipélago do Gulag’, em França, deixava tudo perfeitamente claro: de um lado, absolutamente sozinho, Soljenitsin; do outro, a URSS. Jamais houve luta tão desigual e jamais a obstinação e a coragem de um só homem haviam conseguido pôr à defesa uma força tão desmedidamente superior.

Vários anos antes, um outro escritor russo, Ossip Meldeston, morto num campo estalinista, deixara inédito um livro cujo título se aplicava como uma luva ao combate desigual de Alexander Soljenitsin: ‘Contra toda a esperança’. Era isso que ele se propunha fazer, com toda a lucidez e sem nenhuma esperança. Por dever de memória.

Na introdução de ‘O Arquipélago do Gulag’, Soljenitsin escreveu: “Com o coração despedaçado, abstive-me durante anos de publicar este livro, todavia já pronto. O dever para com os vivos impunha-se ao dever para com os mortos”. Foi só quando o KGB deitou mão a uma cópia do manuscrito, que ele se apressou a fazê-lo chegar ao Ocidente e ser publicado. ‘O Arquipélago do Gulag’ é um relato exaustivo e esmagador das vidas destroçadas de centenas, milhares de prisioneiros levados para o universo concentracionário estaliniano, conhecido como o Gulag, ao longo do imenso território soviético, entre 1918 e 1956. Ele dedica-o “àqueles a quem a vida faltou para contarem estas coisas. E que me perdoem por não ter visto tudo, não ter guardado tudo, não ter adivinhado tudo”. Mas o que ele viu, o que ele guardou, o que ele adivinhou e o que ele contou, abalou a União Soviética e o que restava do mito da libertação comunista. E caiu na pior altura para o regime comunista, então já liderado pelo sinistro Leonid Brejnev e tendo como principal ideólogo e guardião da ortodoxia Boris Ponomarev - o convidado de honra dos primeiros congressos em liberdade do Partido Comunista Português.

Em 1974, a Revolução Portuguesa, que Cunhal garantira que jamais degeneraria numa “democracia parlamentar burguesa”, do tipo ocidental, dera aos comunistas do Ocidente, e até certa altura ao próprio PCUS, a ilusão de poder restaurar nestas paragens uma Frente Popular, ao estilo francês e espanhol dos anos trinta, que mais tarde abrisse caminho ao clássico golpe leninista da tomada de poder pelos comunistas. Um ano antes, caíra às mãos ensanguentadas de Augusto Pinochet a Frente Popular chilena, que dera à causa comunista novos mártires e novas simpatias. O estalinismo e a perpetuação dos seus sinais essenciais na era de Brejnev estava ainda longe de estar suficientemente conhecido e denunciado. É certo que as terríveis purgas dos tempos do “pai dos povos”, aquele clima de absoluto terror e abjecção moral tão brilhantemente exposto, por exemplo, nesse fantástico filme de Mikhalkov, ‘O Sol Enganador’, tinham já passado à história. Mas o estalinismo nunca fora exposto, abjurado, nunca pedira perdão, ao contrário da Shoah.

Quando os primeiros relatos das purgas, dos julgamentos-fantoche e dos campos de concentração do Gulag começaram a chegar ao Ocidente a esquerda estabeleceu uma espécie de bloqueio mental à verdade. Denunciar o estalinismo era ser anticomunista e, como dizia Sartre, “um anticomunista é um cão. É um cão e daqui não saio!”. Os estalinistas mataram tanta gente como os nazis, mas a ditadura intelectual da esquerda ocidental não dava a esses mortos distantes e sem nome o mesmo valor que dava às vítimas do nazismo. Foi isso que o ‘Arquipélago do Gulag’ tornou insuportável, a partir de então. De aí em diante, ninguém mais pôde dizer que não sabia, não tinha lido, não tinha adivinhado.

Sem saber o que fazer dele, o regime expulsou Soljenitsin da Rússia. Exilado, ele continuou o seu combate contra o sistema soviético, sem nunca se sentir atraído pelo capitalismo, que, tal como o comunismo, via como uma excrescência à alma eslava, importado do Ocidente para desgraçar a Rússia. Regressaria em 1994 para continuar, lúcido e obstinado, a trabalhar até ao último dia e morrer uma misericordiosa morte fulminante, após “uma vida difícil, mas feliz”, como a resumiu a sua mulher. Sozinho, contra toda a esperança, foi decisivo para mudar o destino de um país que atravessa oito fusos horários, de Vladivostock a Moscovo, e o destino do mundo. Dele, sim, se pode dizer que foi maior do que a vida.

Publicação de
JBS

terça-feira, 12 de agosto de 2008

IMPRENSA/ VISÃO


CHEQUES EM BRANCO
Por Aurea Sampaio

Em Portugal, os dois partidos de alternância no poder – PS e PSD – não têm o bom hábito de apresentar, discutir e fundamentar as suas propostas quando estão na oposição. É certo que a falta de transparência do Estado e a caixinha que os governos fazem da verdadeira situação das contas públicas e dos estudos e dados em que assentam as suas políticas não ajuda à formulação de medidas alternativas sérias. Mas isto também não é desculpa, visto que a situação é da inteira responsabilidade destas duas formações partidárias que, se de facto quisessem, já tinham mudado as regras.
Só que não querem. E não querem porque isso lhes permite todas as ambiguidades eleitorais, prometendo o que não podem nem sabem para chegar ao poder. Permite-lhes também acomodar a máquina. Ou seja, após a saída do poder, há uma debandada geral de quadros políticos e de amigos que perdem cargos e postos por força da mudança. Essa gente precisa de hibernar e de tratar da vida. Em regra, resguardam-se em órgãos sociais de empresas públicas (porque o bloco central tem este pacto não assumido de garantir sempre uns lugares aos «adversários», o que é de bom-tom e dá sempre jeito na adversidade) ou privadas (porque é aconselhável não hostilizar quem pode voltar ao poder). A consequência desta lógica é a anemia da massa crítica partidária que, se já não é brilhante em tempo de vacas gordas, se torna insuportavelmente medíocre quando está na oposição. O retrato desta realidade espelha-se no Parlamento que, ao contrário do que devia suceder numa democracia sólida, funciona ao sabor das iniciativas do Governo, em vez de actuar como lhe compete – órgão fiscalizador da actividade do Executivo.
Vem isto a propósito do último debate do Estado da Nação e da postura do PS e do PSD, na sequência, de resto, das entrevistas de José Sócrates (à RTP) e de Manuela Ferreira Leite (à TVI). O País (como o mundo) está em crise, já se sabe. O primeiro-ministro, não interessa se por eleitoralismo, se por erosão nas sondagens, se por estar realmente preocupado com a situação dos portugueses, apresentou medidas e exibiu a atitude proactiva de quem quer resolver os problemas. E o PSD o que disse? Que «não há dinheiro para nada». Ou seja, deu a ideia de que não há nada a fazer a não ser cruzar os braços e esperar que, miraculosamente, alguma coisa aconteça. A imagem foi péssima, a mensagem passiva, a alternativa nenhuma. Assim não vai lá.
Para não sermos injustos, há que considerar que Ferreira Leite ainda agora chegou, está a formar equipas e, espera-se, a forjar um programa credível. Mas, até para quebrar este ciclo infernal de silêncio e de ausência de debate a sério – e o debate a sério ajuda a mobilizar inteligências e energias –, é bom que o mostre, que o submeta à discussão pública bem antes da campanha eleitoral. Para que os eleitores distingam projectos e saibam quais as opções. É fundamental que o PSD diga claramente ao que vem, pelo menos em cinco áreas essenciais: impostos, saúde, educação, justiça e obras públicas.
Se o não disser, isso significa que quer chegar ao poder com margem de manobra para utilizar todos os subterfúgios capazes de justificar medidas contrárias a tudo o que apregoou. Desengane-se, porém, quem joga nesta táctica déjà vu. Com eleitores escaldados e cada vez mais espertos, é difícil obter cheques em branco.

Publicação de
JBS

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

IMPRENSA/ VISÃO


ASSIM COMO ASSIM!....
Por ANTÓNO LOBO ANTUNES

Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário de uma aprendizagem e de uma dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, de uma paz intransigente conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campaínha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
– Eu já venho
e descer as escadas. Não se incomodem, não se levantem: sou capaz de descer as escadas sem ajuda até vários palmos abaixo da terra. Espero que haja sol nesse dia, um arrepio alegre nas árvores. Não se incomodem que eu já venho. Sentir-me-ão nos objectos, deixarão de sentir-me a pouco e pouco à medida que a saudade se atenua. Continuarei aqui através dos meus livros, na altura em que ninguém meu conhecido sobrar. Ficam retratos, claro, reflexos pálidos do que fui. Depois nem sequer os retratos, um nome apenas. Páginas e páginas que não imaginarão o que me custaram, a luta permanente, a dificuldade em limpá-las. Tem de passar-se as passas do Algarve para dar prazer ao leitor. Espero que Deus me conceda acabar três ou quatro textos, deixá-los prontos para que outros construam por cima, como eu construí por cima dos que me precederam. Se alguma dignidade de homem tenho deu-me a Arte. Hipócrates: a Arte é longa, a Vida breve, a Experiência enganadora e o Juízo difícil. O meu pai tinha isto num rectângulo de papel, no seu gabinete do hospital. A Arte é longa, a Vida breve. Se te sentes desfalecer pega na tua própria mão para ganhares coragem.
Talvez dê resultado. Tentaste. É noite agora, corri as cortinas, estou sozinho. Faltam-me os meus amigos, falta-me o mar. Estantes cheias de lombadas, esta mesa. A esferográfica que lá vai andando aos tropeções. Os cigarros são a água com que empurro a comida das frases. Gostava de deixar de fumar, uma escravidão estúpida. Eis-me sozinho rodeado de vozes. Ninguém me pode ajudar a fazer isto. Se cair do trapézio a responsabilidade é minha e o aleijar das costas também. Conseguirei agarrar o próximo, falharei? Não me interessa narrar histórias, contento-me em abrir o coração. A minha mãe fez noventa anos em dezembro: limita-se a esperar numa cadeira. No que me respeita não vou esperar numa cadeira: a mão desenhará letras até ao fim. Esta não é uma crónica melancólica: é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço, afastando sempre o que o estorvava. Pagam-me para fazer o que faria de qualquer maneira e portanto sou uma criatura feliz. Na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci. Amanhã na batalha pensa em mim: título do meu amigo Javier Marías. Hoje na batalha penso em vocês, não deixo de pensar em vocês. Somos tantos, cada um de nós é tantos.
Há horas cortei o cabelo: à minha frente, no espelho, um sujeito a quem cortavam o cabelo e me olhava. Parecíamos desconfiar um do outro e tive vontade de pedir-lhe desculpa por o tratar tão mal, comendo não importa o quê, dormindo pouco, não lhe dando atenção. São Francisco de Assis: confesso que tratei muito mal o meu pobre irmão corpo. Haja alguma coisa em que São Francisco e eu sejamos colegas. Lá estava o António com as madeixas a tombarem na toalha, aquela boca, aqueles olhos. Rugas: serão do espelho ou minhas? Que idade tenho? Sei lá: muda constantemente, para trás, para o lado, às vezes foge-me, outras regressa: ao cortar o cabelo estava ali, viva. E é impossível ser aquilo, é impossível ser isto. Nada em comum entre nós e o cabelo a descer para a toalha, sem cessar. Veio-me à ideia o barbeiro do meu avô, o senhor Melo, a rua 1.º de Dezembro, manucuras que eu achava lindas, tão perfumadas, tão gordas, a arrulharem: devo-lhes a minha primeira erecção consciente, pensei em pedir-lhes para casarem comigo, as duas, de uma vez. Não pedi. Quer dizer pedi sem as palavras e não me responderam, ocupadas a fazerem festinhas nos dedos de uns cavalheiros quaisquer, de joelho activamente
(gosto do activamente)
encostado à perna deles. De modo que ao conhecer o desejo conheci o ciúme. E a indiferença já agora, porque não me ligaram nada. Que teria eu de mal para além de oito anos? E oito anos é um defeito assim tão grande? Ninguém sabia, claro, que eu era o escritor mais importante do mundo e maçava-me elas não o reconhecerem com um relance apenas. Um génio ao alcance do braço e as manucuras zuca zuca na fazenda dos cavalheiros. O senhor Melo, esse, entendeu-me o olhar
– O avôzinho nunca deixa que lhe toquem
e eu a achar de imediato que o meu avô era parvo. Mal entrei em casa fui à brilhantina do meu pai
(um boião pegajoso)
e penteei-me para trás. Só me faltava o smoking e uma actriz ao lado para ser Gary Cooper
por uma pena. Gary Cooper, na minha forma de ver, não andava longe de Camões, de maneira que me espantou, ao jantar, mandarem-me comer a sopa mais depressa. Não imaginava
(não imagino)
a mãe de Gary Cooper e Camões (uma para ambos chega)
a mandá-los comer a sopa mais depressa. Recordo-me de afirmar
– Sou melhor que Camões e Gary Cooper juntos e multiplicados por deze ainda hoje estou para compreender o que significava o silêncio que se seguiu.
Publicação de
JBS